“— Absurdo! — exclamou ele. — É o que de pior nos acontece quando tentamos contar algo… Todos vocês estão agarrados a dois bons esteios, como uma barcaça com duas âncoras: de um lado, o talho; do outro, um polícia; com um apetite excelente e uma temperatura normal… normal, ouçam bem… do início ao fim do ano. E dizem-me “absurdo”! Raios partam o… absurdo! Absurdo! Meus queridos meninos, o que podem vocês esperar de um homem que acaba de atirar um par de sapatos novos borda fora apenas por nervosismo!

Quando penso nisso, admiro-me de não ter desfeito em lágrimas. Em geral, orgulho-me de ser forte. Mas sentia-me ferido com a ideia de ter deixado escapar o inestimável privilégio de ouvir o talentoso Kurtz. No que me enganava, aliás. O privilégio esperava-me. Oh, sim, cheguei a ouvi-lo, até demais. Mas eu também tinha as minhas razões. Uma voz. Era pouco mais do que uma voz.

E ouvi-o… a ele… a ela… a essa voz… a outras vozes… todos eles eram pouco mais do que vozes… e a memória desses tempos paira impalpável à minha volta, como a esmorecida vibração de um interminável, estúpido, atroz, sórdido, selvagem falatório, ou simplesmente medíocre e destituído do menor sentido. Vozes, vozes… até mesmo a rapariga… agora…”

(Joseph Conrad, Coração das trevas, tradução de Aníbal Fernandes, Ed. Sistema Solar, 2024, p. 98)