Como sabemos, os EUA estão sendo submetidos a decisões, no mínimo, absurdas do presidente atual, Donald Trump, ligadas à política internacional. Vai desde as ameaças à OTAN com a questão da Groenlândia até agressões à soberania do Canadá, Panamá e México (nações amigas dos Estados Unidos). Isso tem minado a credibilidade dos EUA no mundo. Muitas dessas ações estão diretamente ligadas à ideia de sucumbir aos radicalismos internos da base de Direita Alternativa e ultranacionalista do MAGA ligada a Trump.
Neste artigo, trataremos sobre como surgiu essa ordem de Organismos Globais (ONU, OTAN etc.) e em que condições está essa ordem, além de discutir quem poderá parar todos esses devaneios ligados ao trumpismo na nação mais poderosa do mundo.
Alunos de Relações Internacionais e diplomatas devem saber que as relações internacionais são anárquicas, e uma série de Estados são soberanos entre si, negociando com base nos interesses de seus países, havendo um equilíbrio temporário. Como afirma Kenneth Waltz na Teoria do Realismo Estrutural, a ordem anterior era bipolar. Duas nações disputavam poder. Ou seja, havia um confronto entre URSS e EUA. Esse confronto redundou no embargo econômico de Cuba e em uma Guerra Fria, em que ambos tinham bomba atômica e, nisso, a guerra era diplomática, cultural e econômica.
Os Organismos Internacionais, como ONU, OTAN etc., seriam para equilibrar o balanço de poder e tornar isso menos anárquico e menos uma disputa fratricida entre potências. Eles surgiram, em sua grande maioria, na época da Segunda Guerra, e alguns surgiram durante a Guerra Fria e no pós-Guerra Fria. Mas foram concebidos sobre a ótica de um mundo idealizado, não contemplando o surgimento de forças revolucionárias e extremistas à direita (como Donald Trump e o MAGA, André Ventura e o Chega, entre outros tantos).
Isso tem fragilizado muito essa ordem do pós-Guerra Fria, gerando muita incerteza em um dos pilares sustentadores dessa ordem, os EUA, e desdobrando-se em muitas incertezas geopolíticas. Isso leva a um cenário multipolar, com China, EUA e Europa possuindo muito poder econômico e militar, e a Rússia tendo muito poder militar. A Índia surge como uma espécie de contrapeso entre esses países. O restante do Sul Global procura interagir com todos dentro de suas limitações e qualidades diplomáticas, como é o caso do Brasil.
Foi confeccionada uma ordem com base no multilateralismo e no livre comércio. Isso está ruindo com as teses obscuras ligadas ao presidente Trump, fazendo movimentações equivocadas, promovendo acordos de paz muito frágeis em Israel-Palestina, ajudando a Rússia a avançar sobre a Ucrânia e levando diversos países a se alinharem mais com a China por causa de suas medidas ultraprotecionistas, que têm gerado problemas sérios para o próprio povo americano.
Suas taxas têm mexido com o comércio global, seja no lado positivo, ligado aos países buscarem outros caminhos para escoar suas exportações, seja no lado negativo, gerando muita incerteza e erosão da credibilidade da maior nação do mundo e empoderamento de uma nação com pensamento autoritário. Essa invasão na Venezuela abre espaço para Rússia e China fazerem o que bem entendem com Ucrânia e Taiwan. Uma vez que, havendo instabilidade no país considerado o xerife do mundo, essas questões passam a ser usadas por China e Rússia, gerando mais turbulência.
Mas temos de lembrar que, apesar de tanto caos e tanto tumulto, sempre há a queda desse tipo de governo. Assim foi na Polônia. Assim foi em outros lugares. Com Donald Trump também não será diferente. Ele não poderá se reeleger. JD Vance terá muita dificuldade de ganhar, uma vez que as taxações estão erodindo o padrão de vida americano.
As ações truculentas do ICE (Serviço de Imigração) contra os americanos também têm deteriorado muito sua popularidade. Isso sem contar as questões pessoais do Caso Epstein. Esses problemas aparecerão nas eleições legislativas de meio de mandato. Nisso, pode alterar a coalizão de forças e evitar um elevado grau de deterioração dessa ordem pós-Guerra Fria.
Novas configurações podem surgir em cima dessa ordem, mas não necessariamente precisam ser disfuncionais e baseadas no unilateralismo dos extremistas de direita. Não sejamos radicais nesse sentido. Porém, possíveis freios de arrumação nessa ordem pós-Guerra Fria podem surgir nas eleições legislativas de meio de mandato do presidente americano, que não está gozando de boa popularidade. Suas ações estão sem muita credibilidade nos EUA.
Como a possibilidade de impeachment é muito baixa em um lugar tradicionalmente pouco usuário desse dispositivo, onde só foi aplicado contra ministro da Suprema Corte americana, isso somente ocorreria se houvesse a perda do controle das duas Casas do Congresso americano nas eleições legislativas de meados deste ano. Algo semelhante ocorreu em meados dos anos 70 com Richard Nixon. Foi aberto um processo de impeachment, mas nunca foi concluído, uma vez que Nixon renunciou. Ou seja, essa possibilidade é bem fraca, até para um presidente fragilizado como Donald Trump.
Portanto, os EUA têm um papel central nessa ordem pós-Guerra Fria e, quando estão operando em um caminho muito tortuoso e erodindo todas essas bases do mundo ocidental, passam a ser um agente de instabilidade mundial com o MAGA e suas visões absurdamente radicalizadas. Mas a Geopolítica sempre se readequa em momentos difíceis, e grupos políticos radicalizados são transitórios, a ponto de Donald Trump poder muito, mas não poder tudo. Uma vez que há uma divisão de poder e uma multipolaridade contendo os EUA com tarifas e sanções, isso tem efeito negativo sobre a popularidade do próprio presidente americano. Para o momento, não há possibilidade de terceira guerra, uma vez que uma guerra depende de um conflito direto entre nações e racharia a base de apoio do próprio Trump, algo que não seria muito positivo para ele politicamente.















