A cada seis horas, uma mulher não volta para casa no Brasil. Essa é a realidade nua e crua que deveria nos envergonhar como sociedade. Em 2025, o país bateu o recorde de feminicídios: foram 1.470 mulheres assassinadas, uma média de quatro por dia. Enquanto em 2026 muitos discutem eleições, Copa do Mundo, feriados e horários de folga, a vida de milhares de mulheres continua sendo ceifada por uma violência que não é acidente, não é destino. É ódio. É machismo. É covardia institucionalizada.

Existe uma lei de medida protetiva. Mas ela só vale se você tiver tido um relacionamento formal. Se você saiu uma única vez com um homem que se tornou obcecado, que decidiu te perseguir, que decidiu te ameaçar, a lei não te protege. Nesse caso, a mensagem cruel que fica é: “você deveria ter aceitado o pedido de namoro dele”. O ordenamento jurídico brasileiro, que deveria ser escudo, transforma-se em papel morto. A lei existe, mas não alcança. A lei promete, mas não cumpre. A lei protege apenas dentro de limites estreitos, incapaz de compreender que a violência contra a mulher não se restringe ao espaço doméstico ou ao vínculo afetivo.

Ironicamente, os estados que mais se agarraram às correntes da escravidão, mesmo após 1888 — São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais — são hoje os mesmos palcos onde o feminicídio se perpetua com maior intensidade. A história repete-se em sua crueldade: territórios que resistiram à liberdade continuam a resistir à dignidade. Não se trata de coincidência, mas de uma herança de brutalidade e de uma cultura que insiste em negar humanidade. São estados que demonstram, ainda hoje, a maior dificuldade em compreender e aplicar a lei, a maior dificuldade em transformar o ordenamento jurídico em proteção real, a maior dificuldade em romper com séculos de opressão.

Em 2026, celebram-se onze anos da Lei do Feminicídio e vinte anos da Lei Maria da Penha. Dois marcos que deveriam simbolizar avanço civilizatório. No entanto, o que se vê é um país que ostenta um aumento de 316% nos casos de feminicídio nos últimos dez anos. Um recorde vergonhoso, uma estatística que não deveria existir. Enquanto se discute eleições, Copa do Mundo e feriados, mulheres continuam a ser assassinadas simplesmente por serem mulheres. O Brasil, que deveria se envergonhar de sua história escravocrata, repete o mesmo padrão de violência e desumanização contra metade de sua população.

Esses dias, a televisão noticiou casos curiosos: uma mulher, em gesto de vingança, vendeu o PlayStation 5 do namorado por um valor irrisório; outra, para devolver a frustração que carregava, espalhou glitter por toda a casa. São exemplos de como mulheres, diante da dor, escolhem formas simbólicas de retaliação, pequenas rebeldias que não ferem, não matam, não destroem vidas. Mas, quando a escolha é deles, quando o homem se vê confrontado pela autonomia feminina, o desfecho é outro. Quando uma mulher decide que não quer seguir em um relacionamento, eles decidem que ela não deve seguir em relacionamento algum. Nem com ele, nem com o mundo. Eles decidem que o momento de ela respirar chegou ao fim. Isso é necropolítica.

E é aqui que se revela o ápice da barbárie: um sistema patriarcal que não apenas controla, mas que se arroga o direito de decidir quem vive e quem morre. Um sistema que transforma o corpo feminino em território de posse, em objeto de vingança, em alvo de ódio. Enquanto mulheres escolhem glitter, eles escolhem sangue. Enquanto mulheres escolhem ironia, eles escolhem o silêncio eterno.

É revoltante assistir aos noticiários e perceber que mulheres precisam chamar a polícia duas, três, quatro, cinco, seis vezes. A polícia chega, constata o agressor, constata a ameaça, constata a violência — mas nada acontece. O discurso é sempre o mesmo: “ele não vai fazer nada, ele ama você”. O amor, aqui, é usado como desculpa para a omissão, como máscara para a covardia.

O pior de tudo é quando essas mulheres precisam recorrer às delegacias. Em muitos lugares, a Delegacia da Mulher funciona apenas em horário comercial, das 8h às 17h. Poucas unidades se disponibilizam a funcionar 24 horas por dia. Em algumas cidades, sequer existe uma Delegacia da Mulher. E, quando existe, muitas vezes está impregnada pelo olhar colonialista, patriarcal e machista, que reduz a denúncia a um ato de fraqueza, que julga a vítima em vez de proteger.

Dentro das universidades, ensina-se a história de um país onde sempre foram os homens que mandaram, os homens que decidiram, os homens que ditaram as regras. Essa herança se repete nas instituições: quando uma mulher denuncia violência doméstica, mas, por vulnerabilidade, medo ou circunstâncias pessoais, decide retirar a queixa, o sistema a culpa, como se fosse cúmplice da própria dor. Ainda vivemos em um país que insiste em repetir o ditado perverso: “briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”.

Mas não é assim que as coisas funcionam. Em briga de marido e mulher, a gente disca 190. Porque a vida de uma mulher não é assunto privado, não é questão doméstica, não é detalhe. É direito humano fundamental.

Privilégio masculino é poder sair de casa à noite, embriagar-se em um bar e voltar sem medo de ser violentado, sem receio de que o simples ato de existir lhe custe a vida. No máximo, perderá um celular, será alvo de um roubo. Mas nunca terá sua dignidade despedaçada pelo fato de ser homem. Privilégio masculino é caminhar às quatro da manhã até o ponto de ônibus, certo de que sua integridade não será violada, que seu corpo não será transformado em alvo, que sua respiração não será interrompida por mãos que se julgam donas de destinos alheios.

Privilégio masculino é terminar um relacionamento quando bem entender, declarar que a mulher é “tóxica” ou simplesmente decidir que deseja ficar só — e saber que, cinco dias depois, continuará respirando. Porque o direito à vida, para o homem, não é negociável.

Privilégio masculino é procurar a polícia e encontrar do outro lado alguém que pensa como você, que age como você, que valida sua narrativa. É saber que sua dor será reconhecida, que sua palavra terá peso. Enquanto isso, a mulher que ousa denunciar é julgada, desacreditada, silenciada. Privilégio masculino é acreditar que o direito da mulher só começa quando você concede permissão. Que ela não pode se distrair, não pode se enganar, não pode escolher outro caminho. Que sua liberdade é uma concessão, não um direito.

Este artigo é um grito. Um grito de revolta, de repulsa, de dor. Um grito que acolhe quem já perdeu alguém por feminicídio. Um grito que reconhece que, sim, você está sozinha. Que a segurança pública não irá protegê-la. Que o Estado não irá protegê-la. Que seus amigos e familiares, muitas vezes, não farão nada. E que, dependendo do caso, seus dias estão contados.

Essa é a realidade nua e crua. Uma realidade que precisa revoltar quem lê. Uma realidade que precisa ser entendida por quem nunca se colocou no lugar de uma mulher.

Não é destino. Não é acaso. É covardia institucionalizada. É a perpetuação de um modelo que insiste em sufocar, em calar, em matar. É necropolítica. E você, leitor, diante dessa realidade, precisa se perguntar: o que estou fazendo diante disso? Qual é a importância da mulher no mundo? O que estamos fazendo com nossas amigas, irmãs e filhas que relatam estar sofrendo ou ter sofrido violência? Você ligou 190? Você foi à delegacia? Você mostrou ajuda, empatia? Ou apenas compartilhou textos tristes?