Moçambique figura entre os países mais vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas a nível global, ocupando a sétima posição no Índice de Risco Mundial de 2023 entre 193 nações analisadas (UNDP, 2025). Este artigo analisa os impactos multidimensionais das cheias no território moçambicano e examina as estratégias de mitigação e adaptação implementadas pelo Governo e parceiros internacionais.
Através de revisão sistemática da literatura e análise de dados oficiais do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD), demonstra-se que as inundações afectaram 242.611 pessoas na temporada 2023/2024, com consequências devastadoras para a segurança alimentar, infraestrutura e economia nacional.
Os resultados indicam que a integração de soluções baseadas na natureza, sistemas de alerta precoce multiameaças e financiamento climático inovador constituem pilares fundamentais para a construção de resiliência. Contudo, persistem desafios estruturais relacionados à necessidade de mobilizar USD 37,2 mil milhões até 2030 para alcançar resiliência climática plena (AIM, 2025).
O estudo conclui que a efectivação do Plano Mestre de Redução do Risco de Desastres 2017-2030 e a implementação do Quadro de Sendai são cruciais para transformar a vulnerabilidade histórica em capacidade adaptativa sustentável.
Introdução
Moçambique, país localizado no sudeste africano com 2.795 km de costa atlântica, apresenta elevada exposição a eventos climáticos extremos devido à sua posição geográfica privilegiada na bacia do Oceano Índico e à configuração hidrográfica marcada por grandes bacias fluviais (Zambeze, Limpopo, Save) (Ribeiro, 2024).
Nos últimos 42 anos, o país registou 15 secas, 20 inundações severas e 28 ciclones tropicais, configurando um padrão crescente de desastres naturais intensificados pelas mudanças climáticas (UNICEF, 2023). O ciclone Idai, ocorrido em março de 2019, representou um marco trágico na história recente do país, causando 501 mortes, 1.523 feridos e afectando mais de 1,85 milhão de pessoas, sendo considerado o desastre natural mais destrutivo na África subsariana contemporânea (ONU, 2019).
A vulnerabilidade moçambicana é exacerbada por factores socioeconómicos estruturais: 60% da população depende directamente da agricultura de sequeiro para subsistência, sector altamente sensível às variações climáticas (World Bank, 2024); a urbanização acelerada em zonas de risco, particularmente nas cidades costeiras como Beira e Quelimane; e limitações na capacidade institucional de resposta a emergências (Mandamule, 2025).
Neste contexto, o presente artigo tem como objectivo analisar os impactos multidimensionais das cheias em Moçambique e avaliar criticamente as medidas de superação implementadas no período 2019-2026, contribuindo para o debate académico sobre adaptação climática em países em desenvolvimento altamente vulneráveis.
Metodologia
Este estudo adopta abordagem qualitativa baseada em revisão sistemática da literatura científica e análise documental de fontes primárias.
Foram consultados relatórios oficiais do INGD (2024), Banco Mundial (2024-2026), Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e documentos estratégicos nacionais como o Plano Mestre de Redução do Risco de Desastres 2017-2030 e o Plano Nacional de Adaptação (PNA) aprovado em 2023.
A triangulação de fontes permitiu validar a consistência dos dados sobre impactos e respostas institucionais. A análise seguiu os princípios da revisão narrativa temática, organizando os achados em categorias analíticas:
Impactos socioeconómicos;
Impactos ambientais;
Respostas institucionais;
Financiamento para adaptação.
Impactos das cheias em Moçambique
Impactos sociais e humanitários
As inundações provocam deslocamentos massivos e agravam a insegurança alimentar. Na temporada chuvosa de 2023/2024, 242.611 pessoas foram afectadas por desastres naturais em Moçambique, segundo dados oficiais do INGD (OCHA, 2024).
O ciclone Idai destruiu 94 unidades de saúde (14% da infraestrutura sanitária nas províncias afectadas), comprometendo o acesso a cuidados médicos essenciais para populações já vulneráveis (UNDP, 2019).
Como afirma o relatório pós-desastre:
“mais de 500.000 hectares de culturas foram danificados, o que deverá aumentar significativamente a insegurança alimentar, uma vez que a inundação coincidiu com o período crítico de colheita” (WaterAid, 2019, p. 12).
A dimensão de género dos impactos é particularmente preocupante. Mulheres e raparigas enfrentam riscos acrescidos durante e após as inundações, incluindo aumento da violência baseada no género, interrupção do acesso a serviços de saúde reprodutiva e sobrecarga de responsabilidades domésticas em contextos de escassez de recursos (UNICEF, 2023).
Estudos recentes demonstram que “as mudanças climáticas constituem actualmente a principal ameaça ao pleno exercício dos direitos humanos” em Moçambique, com efeitos que se acentuam desproporcionalmente sobre grupos marginalizados (ResearchGate, 2025, p. 4).
Impactos económicos
O sector agrícola, que contribui directamente com aproximadamente 23% do PIB moçambicano, sofre perdas catastróficas com as cheias (FAO, 2025).
Após as inundações de 2024, Moçambique necessitou de 26 mil toneladas de sementes certificadas de milho, feijão e arroz para recuperar a produção agrícola nas zonas afectadas (Agroportal, 2025).
O Produto Interno Bruto registou variação negativa de 4,87% no quarto trimestre de 2024, reflectindo o impacto cumulativo de eventos climáticos extremos na actividade económica (Diário Económico, 2025).
O Banco Mundial estima que o ciclone Idai causou danos e perdas superiores a USD 2,2 mil milhões, incluindo USD 470 milhões apenas em perdas económicas directas para o sector privado, com destruição de infraestruturas comerciais e equipamentos produtivos (World Bank, 2019).
A economia moçambicana falhou a meta de crescimento em 2024, registando apenas 1,9%, valor inferior aos 2,2% projectados, com as cheias e tensões pós-eleitorais identificadas como factores determinantes para esta desaceleração (Jornal de Negócios, 2025).
Impactos ambientais
As cheias provocam degradação acelerada dos ecossistemas costeiros e fluviais.
A cidade da Beira, segunda maior urbe do país, situa-se a apenas 4 metros acima do nível do mar, tornando-a extremamente vulnerável à subida do nível médio do mar e à erosão costeira intensificada por eventos extremos (Schubert, 2024).
Estudos recentes indicam que “o canal norte de Moçambique tem servido como refúgio das mudanças climáticas e reservatório biológico para toda a região costeira leste africana”, mas esta função está ameaçada pela frequência crescente de ciclones e inundações (IPCC, 2022, p. 1.287).
A contaminação de fontes hídricas por águas residuais e produtos químicos durante as inundações agrava surtos de cólera e outras doenças diarreicas.
Após as cheias de 2024 nas províncias de Gaza e Maputo, registaram-se surtos significativos de cólera em áreas de inundação prolongada, exigindo resposta humanitária emergencial do sector saúde (AIM, 2026).
Medidas de superação e construção de resiliência
Enquadramento legal e institucional
Moçambique dispõe de um arcabouço normativo robusto para gestão de riscos, com destaque para o Estatuto Orgânico do INGD (Decreto n.º 43/2021), que estabelece a instituição como entidade coordenadora nacional da redução do risco de desastres (IFRC, 2021).
O Plano Mestre de Redução do Risco de Desastres 2017-2030 define a visão estratégica de “uma população moçambicana resiliente, capaz de antecipar, resistir, adaptar-se e recuperar-se dos impactos dos desastres” (INGD, 2024, p. 8).
A integração das agendas globais é evidente na implementação do Quadro de Sendai para Redução do Risco de Desastres 2015-2030.
Em seu relatório voluntário de 2023, Moçambique destacou progressos na “melhoria da capacidade institucional, técnica e financeira para gestão de riscos”, embora reconheça desafios persistentes na descentralização efectiva das acções de prevenção (UNDRR, 2023, p. 12).
Sistemas de alerta precoce multiameaças
O fortalecimento dos sistemas de alerta precoce constitui prioridade estratégica.
O Instituto Nacional de Meteorologia (INAM) implementou o Sistema Nacional de Previsão Costeira (FEWS-INAM), que fornece previsões meteorológicas e oceanográficas com 3 dias de antecedência para zonas costeiras (Deltares, 2024).
Em 2023, o INAM monitorizou a seca induzida pelo El Niño e activou gatilhos em pelo menos três distritos, permitindo acções antecipadas de resposta (UNDRR, 2024).
O Governo moçambicano lançou em Agosto de 2024 a sua rota para alcançar a meta global “Alertas Precoce para Todos” (EW4All) até 2027, demonstrando compromisso com a protecção universal contra riscos climáticos (Climate Centre, 2024). Contudo, persistem lacunas na última milha da comunicação de alertas, particularmente em comunidades rurais com baixa literacia e acesso limitado à tecnologias de informação.
Soluções baseadas na natureza (SbN)
A cidade da Beira tornou-se laboratório de inovação em gestão de inundações urbanas através de soluções baseadas na natureza.
O projecto apoiado pelo Banco Mundial inclui a criação de até 20 acres de recifes de ostras artificiais e 30 acres de zonas húmidas de sal para atenuar a acção das ondas e reduzir a erosão costeira (ZCRA, 2024).
Estudos demonstram que “as soluções baseadas na natureza para gestão de inundações urbanas em assentamentos informais apresentam custo-benefício superior às infra-estruturas cinzentas tradicionais, com benefícios adicionais para biodiversidade e bem-estar comunitário” (Schubert, 2024, p. 15).
O projecto LINK Building climate resilience by linking climate adaptation and social protection, financiado pelo Fundo Verde para o Clima com USD 23,5 milhões, visa apoiar 415.000 pessoas nas regiões Centro e Sul através da integração de adaptação climática com protecção social descentralizada (Climate Project Explorer, 2024).
Financiamento climático e mecanismos inovadores
Moçambique necessita mobilizar USD 37,2 mil milhões até 2030 para alcançar resiliência climática plena, segundo estimativas do Governo apresentadas na COP29 (AIM, 2025). O Quadro de Parceria do Banco Mundial para 2026-2031, recentemente aprovado com financiamento de USD 450 milhões, estabelece programa estratégico quinquenal com foco na resiliência climática e crescimento inclusivo (AIM, 2026).
O país tem avançado na elaboração de propostas para o Fundo Verde para o Clima (GCF), com projecto de fortalecimento das capacidades institucionais para aceleração da mobilização de financiamento climático aprovado em 2024 (Green Climate Fund, 2024). Contudo, desafios persistem na absorção efectiva de recursos internacionais devido a limitações na capacidade técnica das instituições nacionais e burocracia associada aos mecanismos multilaterais.
Conclusão
As cheias em Moçambique representam uma ameaça existencial para o desenvolvimento sustentável do país, com impactos profundos nos domínios social, económico e ambiental.
A análise realizada demonstra que, apesar da existência de um enquadramento normativo avançado e de iniciativas inovadoras como as soluções baseadas na natureza em Beira, persiste um hiato crítico entre ambição política e capacidade de implementação efectiva.
Todavia, há necessidade urgente de intensificar o investimento em infraestruturas resilientes, particularmente sistemas de drenagem urbana e protecção costeira; reforçar a descentralização efectiva da gestão de riscos; e mobilizar financiamento climático em escala compatível com as necessidades identificadas (USD 37,2 mil milhões até 2030).
O sucesso da adaptação climática em Moçambique dependerá da convergência entre políticas públicas coerentes, inovação tecnológica acessível, financiamento previsível e participação activa das comunidades vulneráveis nos processos decisórios.
Como afirmou o Presidente Filipe Nyusi na COP29:
“Embora Moçambique emita pouco, é um dos países mais vulneráveis aos eventos climáticos extremos. Precisamos transformar esta vulnerabilidade em resiliência através de parcerias justas e financiamento climático adequado” (AIM, 2025, p. 3).
A superação das cheias não é apenas um desafio técnico, mas um imperativo ético de justiça climática global.
Referências
AIM. (2025). Moçambique precisa de 37,2 mil milhões de dólares para alcançar resiliência
climática plena. Agência de Informação de Moçambique.
Climate Centre. (2024, 23 de Agosto). Mozambique charts course toward early warning for all.
Red Cross Red Crescent Climate Centre.
Diário Económico (2025, 20 de Fevereiro). Economia moçambicana caiu quase 5% no último trimestre de 2024.
Global Facility for Disaster Reduction and Recovery. (2018). Protecção financeira contra calamidades em Moçambique. Banco Mundial.
Green Climate Fund. (2024). Strengthening institutional capacities and coordination mechanisms for accelerating and scaling up the mobilization of climate finance in Mozambique.
IFRC (2021). Estatuto Orgânico do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de
Desastres. International Federation of Red Cross and Red Crescent Societies.
INGD. (2024). Plano Mestre de Redução do Risco de Desastres 2017-2030. Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres.
International Monetary Fund. (2018). Enhancing resilience to climate change in Mozambique. IMF Economic Review, 66(3), 451–489.
IPCC. (2022). Climate Change 2022: Impacts, Adaptation and Vulnerability. Contribution of Working Group II to the Sixth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change (H.-O. Pörtner, D.C. Roberts, M. Tignor, E.S. Poloczanska, K. Mintenbeck, A. Alegría, M. Craig, S. Langsdorf, S. Löschke, V. Möller, A. Okem, B. Rama (eds.)). Cambridge University Press.
Jornal de Negócios. (2025, 28 de fevereiro). Moçambique falha meta de crescimento e fica nos 1,9% em 2024.
Mandamule, U. (2025). Impactos sociais das inundações e resiliência comunitária no Distrito de Boane, Província de Maputo. Observatório do Meio Rural de Moçambique.
OCHA. (2024). Mozambique: 2024 Humanitarian Response Dashboard – Natural Disasters. United Nations Office for the Coordination of Humanitarian Affairs.
Ribeiro, N. (2024). Gender and climate change: Mozambique case study. KU Leuven.
Schubert, J. (2024). Maintaining a city against nature: Climate adaptation in Beira. Buildings & Cities, 5(1), 1–22.
UNDRR. (2024). Multi-hazard early warning systems in Mozambique. United Nations Office for Disaster Risk Reduction.
UNICEF. (2023). Cyclone Gombe: Impacto das mudanças climáticas nas mulheres e raparigas em Moçambique.
WaterAid (2019). Resposta ao Ciclone Idai.
World Bank. (2024). Climate Risk Country Profile: Mozambique. World Bank Group.
ZCRA. (2024). Upscaling nature-based flood protection in Mozambique's cities. Zurich Flood
Resilience Alliance.















