Recentemente, me mudei de país e isso me colocou em uma situação muito específica com relação a trabalho. Eu sou professora de História e, como vocês bem sabem, historiadores não têm os maiores índices de empregabilidade do planeta, e eu não entrei nesse campo por causa de toda fama e fortuna que ele poderia me trazer. Mas eu gostava do meu trabalho e acredito que era boa nele.

Só que quando meu marido encontrou uma oportunidade de emprego fora do Brasil, com um salário bacana, pareceu uma chance imperdível de melhorarmos de vida. Então fomos juntos. Abri mão da minha carreira como educadora e vim recomeçar em um país completamente novo. Isso me doeu muito: sempre moldei muito da minha identidade ao redor do que estava fazendo profissionalmente, então vir para cá envolveu redescobrir-me. Tive que parar de trabalhar, aprendi uma nova língua e estou experimentando a fundo novos caminhos.

Enquanto isso, me tornei uma trabalhadora doméstica. Eu mantenho nossa casa limpa e organizada, habitável, escolhi os móveis, faço compras, lavo a louça, cozinho, passo roupa, aspiro e seco roupas. Meu esposo faz de tudo para o trabalho ser mais fácil, mas confesso que, quando chega a noite, não quero que ele faça parte do trabalho doméstico que não fez durante o dia; quero que ele descanse e que tenhamos tempo juntos. Por incrível que pareça, gostamos da companhia um do outro.

Ao chegar aqui, conheci muitos casais em situações similares, vindos não somente do Brasil, mas do mundo inteiro. Esposas que tinham carreiras sólidas em seus respectivos países aqui não podiam trabalhar ou não tinham carreiras tão visadas. Eu, acostumada a discutir estruturas de poder na sala de aula, demorei a perceber o que estava acontecendo ao meu redor quando mudei: a divisão sexual do trabalho e a invisibilidade dos trabalhos de cuidado tornaram-se ainda mais evidentes. No Brasil, já conheci parte dessa realidade pelas lentes da universidade e da minha experiência no movimento feminista, mas aqui ela foi escancarada no meu próprio cotidiano.

Migrar é ver-se constantemente como um outro. E, minha nossa, como isso gera crises de identidade. No Brasil, eu tinha um nome, uma carreira, contatos, rede de apoio, amigos. Por outro lado, quando cheguei aqui, me vi como “a esposa de alguém”, uma acompanhante. O mesmo aconteceu com outras mulheres que conheci. Suas experiências (muitas vezes significativamente mais longevas do que as minhas) passaram a ser reduzidas ao cuidado familiar. O padrão se repete: a migração, enquanto um “projeto familiar”, se sustenta por causa do sacrifício feminino.

Isso se tornou ainda mais claro para mim quando resolvi documentar quantas horas gastava em um dia de trabalho doméstico. Entre cozinhar o almoço para a semana, lavar as louças, os banheiros, os móveis e arrumar a sala, foram-se seis horas. Isso porque também estou fazendo alguns cursos para tentar mudar de carreira, além de, claro, estar me candidatando para muitos empregos. Mas o meu trabalho (quase) integral agora é ser dona de casa.

O mais doloroso é que é um trabalho invisível, que contribui muito pouco para meu retorno ao mercado de trabalho e não é reconhecido. O trabalho doméstico, ao qual eu dedico horas do meu dia, acaba se tornando uma prisão: ele não alimenta meu currículo e não me torna mais “contratável” para nenhuma empresa. E isso não acontece porque meu marido “não me ajuda”, mas sim porque, por ser um tipo de serviço associado ao feminino, ele não é visto como algo capacitante ou como uma experiência válida.

E, depois de tudo isso passar pela minha cabeça antes das 8h da manhã, ainda me sinto culpada... Porque meu esposo passa o dia trabalhando e, como disse, quando chega a noite, quero poder aproveitar nosso tempo livre juntos. Não quero que ele trabalhe mais. E isso me fez refletir... O que exatamente eu quero, afinal? Sempre fui uma pessoa muito orientada à carreira e desejo voltar a um emprego formal. E, daí em diante, como encaramos o trabalho doméstico?

Trabalho de cuidado é trabalho

Para além de simplesmente requisitar que maridos e filhos “ajudem no lar”, por que não começar a encarar o trabalho doméstico pelo que ele, de fato, é? Por que não encará-lo como um trabalho?

O movimento Wages for Housework busca exatamente isso. Ao reivindicar salários para o trabalho doméstico, mais do que estabelecê-lo como um alicerce que permita que as engrenagens “produtivas” girem, ele reivindica a manutenção do lar como parte integrante dessa “força produtiva”. É justamente porque as trabalhadoras do lar estão lá que o restante da sociedade pode existir: na base, as mulheres estão sempre limpando, educando e cuidando. E esse não é um trabalho “menor”. Muito pelo contrário, é por causa dele que qualquer outro pode existir.

O trabalho doméstico, se visto como o alicerce social que, de fato, é, poderia acontecer de forma profundamente diferente:

Imagine que planejamos os nossos bairros para melhor acomodar nossas necessidades, dispondo de lavanderias coletivas, restaurantes comunitários e centros de cuidado para crianças e idosos. Imagine ter parte dos serviços domésticos realizada por gente que vê esse trabalho como uma carreira e que se especializa naquilo para fazê-lo da melhor forma possível. Imagine quanto tempo sobraria ao não ter a alimentação e a limpeza dependentes inteiramente de uma área isolada em cada casa ou apartamento. Além disso, haveria salário e pagamento justo para quem realizasse esses serviços, reconhecendo esse trabalho como produtivo e como base para a vida humana.

A realidade é que estamos lidando com um problema social. Não dá para resolvê-lo simplesmente dizendo que “as pessoas têm que ajudar mais em casa”. Até porque é impossível dividir o trabalho doméstico de maneira justa quando as partes envolvidas têm jornadas semanais longas de trabalho fora de casa. Para que meu marido e eu pudéssemos gerir a casa de forma igualitária, o sistema econômico precisaria permitir que ambos tivéssemos jornadas reduzidas.

Tenho o privilégio de poder ficar em casa e cozinhar minhas comidas favoritas, de manter minha cultura viva, organizar a casa de um jeito que me deixa feliz, com várias referências ao Jorge Ben Jor, e de cuidar de quem amo. Mas isso tem um custo muito alto para mim. É mais um trabalho silencioso que eu acolho, mas que, na verdade, deveria ser de todos.

Me ver nesse lugar que, francamente, nunca esperei ou desejei, foi difícil e estranho, mas também me permitiu construir uma comunidade de mulheres que dividem esses problemas e aprofundam esses debates comigo. Trocamos afetos, informações, conversas e táticas para lidar com esse senso de invisibilidade — principalmente reconhecendo-nos umas às outras. Assim, vi que não estou sozinha nesse luto por quem éramos no lugar de onde viemos.

Talvez também seja um bom momento para redefinir o que eu entendo por sucesso. Eu não fracassei por ser professora e por não poder atuar aqui. Eu não sou um sucesso só por métricas de trabalho ou por ser produtiva. Para alguém que sempre se ligou tanto à identidade de educadora, esse tem sido um desafio constante: entender que esse problema não é só meu e que ainda preciso me conhecer nesse lugar completamente diferente.

Questões de gênero e colonialismo continuam borbulhando na minha cabeça. Por que tudo que eu fiz vale tão menos aqui? Por que mulheres brasileiras são vistas de tal forma no exterior? Por que fui tratada de forma tão estranha nessa situação? Mas é um alívio poder ter outras mulheres para dividir essas ansiedades. Gente que me entende, que me apoia e que me permite continuar vivendo e seguindo em frente mais um dia. Ainda bem que as mulheres estão aí, sendo alicerce de suas casas e para outras mulheres. O mundo é melhor porque temos umas às outras.