A ideia de ciclo parece ser um interessante elemento de aproximação ao trabalho artístico de Helô Sanvoy. Se os ciclos, em seus mais variados campos e usos, podem ser entendidos tanto como uma série de fenômenos que ocorrem numa determinada ordem, ou uma espécie de transformação de causas cujo efeito traz de volta o seu estado inicial, chama a atenção como a obra de Sanvoy apresenta em sua atualidade, uma série de outras temporalidades, que operam ali de forma virtual e constante. Uma parte do trabalho remete à outra parte, e assim sucessivamente, fechando um ciclo em aberto, no qual as etapas de divisão e renovação – particularidades presentes em muitos ciclos – manifestam a poética materialista e o horizonte cosmo-perceptivo do artista.

Por uma poética materialista, me refiro ao uso que ele faz do pau-brasil, vidro, açúcar, couro, folha de ouro, cânhamo, chumbo, algodão, café, borracha, carne, entre outros materiais, que têm cada qual origens específicas e a partir das quais Sanvoy trabalha criativamente. Um trabalho, na medida justa em que produz uma relação de interface com os processos de extração (etapa de divisão) e acumulação (etapa de renovação) dos ciclos, evidenciando os elementos que sustentam e estruturam historicamente os modos de produção econômicos e artísticos desde quando Abya Yala foi repartida e tornada Brasil. A prática de Sanvoy é, pois, um caso contemporâneo das relações da arte como trabalho e como valor, que se manifesta enquanto possibilidade material (obra de arte) entre a história e a forma, uma investigação sucessiva e aberta, por camadas.

Strata [Camadas]

A investigação sucessiva e aberta proposta por Sanvoy toma diferentes formas, seja como trabalhos específicos, como Sal de cura, seja como um conjunto, como Lucidez difusa, EIROAE, etc. Essa produção, em parte presente nesta exposição, estabelece um regime simbólico no qual a forma se dá como direito e não como modalidade de distinção. Direito, pois realizado como trabalho livre e remunerado, que participa da economia política da arte contemporânea, ciente de que suas camadas materiais e interpretativas resvalam na transparência da formalização do objeto artístico, assim como na opacidade das mediações, ou vice-versa.

As camadas de Sanvoy podem ser tanto horizontais, na criação de topologias em que o vidro, o couro e chumbo, por exemplo, despertam nossa atenção para os vários níveis de intervenção material que o artista executa em cada trabalho – colando vidro, derretendo o chumbo, trançando o couro. Com isso, ele compõe layers que partem da superfície e adentram o interior do objeto de arte e nos indaga sobre os pontos de ligação entre os materiais – quando aquele trecho de vidro esfumado se transformou em três caminhos de couro trançado – assim como as escolhas de sobreposição e transposição de uma área à outra do trabalho.

Das passagen-werk [Passagens]

Os ciclos e as camadas do trabalho de Sanvoy convidam para uma observação ativa e de curiosidade, que não se fixa em apenas um ponto, mas faz com que nos confrontemos com seu modo de produção e circulação do olhar, fazendo com que ele percorra as camadas cíclicas de extração material, transformação poética e apresentação visual de forma objetiva.

Quando colocados todos juntos, esses elementos não deixam de nos contar uma espécie de narrativa ficcional e documentária ao mesmo tempo, uma história da formação nacional e da estrutura social e artística contemporânea. Seus trabalhos não deixam de ser, talvez, caixas de âmbar que cristalizam o passado e o presente, dessa vez não mais cíclico, e cada vez mais espiralar.

(Texto de André Pitol)