Há uma categoria de objetos que resistem estoicamente ao avanço da técnica, à exigência do consumidor e até ao velho bom senso. Entre eles, destaco, com amarga ternura, os guardanapos de café. Sim, esses, os “quase papéis” (“quase nada”) que jazem imóveis no porta-guardanapos de metal, geralmente encavalitados uns nos outros, como cartas mal baralhadas. Não se desfazem em flor como num restaurante chique digno de estrela Michelin, não se desenrolam como os de cozinha nem têm a humildade de um pedaço de papel higiénico.
São o epítome do faz-de-conta: estão ali só para cumprir presença. Presentes, mas inúteis como o botão de fechar a porta nos elevadores (que teima em não funcionar na maior parte das vezes); como os termos e condições que ninguém lê (e que juramos a pés juntos que “não estavam lá”); como a ata que ninguém leu, mas todos aprovaram (por unanimidade, para pagarem mais 15 € para o fundo de reserva do condomínio).
Quem já tentou limpar os dedos engordurados de umas batatas fritas com aquilo sabe muito bem do que estou a falar. É uma tentativa patética, como querer estancar uma hemorragia com papel vegetal. Rasgam-se com o primeiro gesto; mancham-se mais do que limpam; e, de tão finos que são, não absorvem sequer a dignidade do gesto de quem tenta usá-los. Dão-nos aquela sensação de derrota íntima de que talvez o melhor fosse mesmo limpar as mãos nas calças ou à manga da camisola, como faziam as crianças nos tempos da escola primária.
A palavra guardanapo vem do francês garde-nappe, que significa literalmente “guarda-toalha” e referia-se, inicialmente, a um pano utilizado para proteger a toalha de mesa. Com o tempo, passou a designar o pano utilizado individualmente por cada pessoa à mesa. A Língua Portuguesa absorveu muitos termos franceses (coisa que os guardanapos de café não fazem: absorver), sobretudo no período entre os séculos XVII e XIX, em que a cultura e a etiqueta francesas influenciaram fortemente as elites europeias, incluindo a portuguesa. Mas, claro, ninguém está a pedir para que os “garde-nappe” dos cafés sejam feitos de algodão ou linho. Eles continuam lá, há décadas, intocáveis. Ironicamente, estão sempre cheios no recipiente, pois ninguém os ousa usar e ninguém os quer.
Ainda assim, ninguém os questiona. Já pertencem ao mobiliário emocional dos cafés tradicionais portugueses, tão certos como o café pedido à medida (curto; cheio; sem princípio; pingado; entre outros), como o fino (no Norte), a imperial (mais ao sul) ou a televisão sempre no canal de notícias ou num canal onde esteja a ser transmitido um jogo de futebol. É como se disséssemos: “não prestam, mas são os nossos guardanapos”. Claro que não são exclusivos do nosso país. Já pude comprovar que existem noutros países e admito ter ficado um pouco desiludido e, ao mesmo tempo, aliviado quando percebi que não era só cá que isto acontecia.
São nestas pequenas coisas que a vida, essa grande dramaturga da banalidade, nos acena, por entre migalhas e cafés derramados. Porque os guardanapos dos cafés são um espelho discreto de tudo aquilo que aceitamos no nosso dia a dia, mesmo sabendo que não serve para grande coisa. É o caso das conversas superficiais, dos gestos de simpatia que não “colam”, dos pedidos de desculpa que não limpam nada e das relações de aparência que não absorvem verdade alguma. Vivemos muitas vezes como esses guardanapos: fazemos o papel, ocupamos o lugar certo, mas sem densidade, sem fibra, sem presença real. Andamos assim, a deslizar por entre gestos mecânicos, compromissos ocos e pequenas rotinas, a tomar café em silêncio, a acenar a desconhecidos sem parar, a limpar manchas com papel que só espalha.
Arriscaria a dizer até que fazemos parte do problema em grande parte das vezes. Habituámo-nos ao mínimo indispensável. Aceitamos o papel fino porque “sempre foi assim”. Aceitamos serviços que não servem e pressupomos que a vida é desta forma: imperfeita. Há uma espécie de pedagogia da insuficiência que vamos aprendendo sem dar por isso: não reclamar, não exigir, não rasgar o que é frágil demais porque também o somos e compactuamos com isso. E assim, vamos ajustando os gestos, limpamos com cuidado para que não se rasgue, pedimos desculpa sem profundidade para que não doa, falamos baixo para que nada se desfaça e seguimos viagem. Menos nas redes, esse território muito sui generis. No fundo, aprendemos a usar o que não funciona, como se funcionar fosse um luxo, algo inatingível.
Mas, por vezes, há um momento, pequeno como todos os que importam, em que nos damos conta. E talvez, nesse instante, sejamos capazes de desejar uma vida com “mais guardanapos de pano”: mais espessa, mais verdadeira, mais capaz de limpar e acolher. Uma vida com toque e com presença. Até lá, vamos continuando… a tirar guardanapos de papel que não servem para nada e a esperar, com alguma esperança resignada, que um dia nos tragam outro tipo de tecido.
No café, na vida.















