Quem nunca desejou ter um corpo diferente do que tem? Seja pelo motivo mais comum, especialmente para as mulheres, de desejar ter um corpo mais magro ou outras razões como querer ter coxas, braços ou a barriga diferentes. Tudo isso são questões que existem há muito tempo, mas acredito que a exposição da nossa imagem constantemente por conta das redes sociais está aprofundando nossas questões, aumentando as comparações com outros corpos e inclusive trazendo de volta as tendências padrões que já não eram tão buscadas quanto antes.
Nos anos 1990 e 2000, por exemplo, o culto à magreza extrema era muito presente por toda a parte. Revistas e passarelas reforçavam a ideia de que ser bonita era ser muito magra, enquanto muito pouco se falava sobre os transtornos alimentares que faziam parte da vida de tantas modelos, como bulimia e anorexia. Era comum que qualquer mudança corporal fosse recebida com críticas e acompanhada de sugestões de dietas que soam até bizarras hoje como dieta da sopa, do shake, dos pontos… O que parecia uma solução rápida escondia um problema maior: a normalização de uma relação de sofrimento com a comida e com o próprio corpo.
Lembro de como as bancas de jornal eram recheadas de revistas com planos alimentares, tabelas de calorias e séries de exercícios “para perder aqueles quilinhos a mais”. Corpos que fugiam um pouco daquela estética eram logo classificados como “gordos” — e, olhando hoje, é perturbador perceber que muitos desses corpos estavam totalmente dentro da normalidade.
Anos se passaram e, especialmente depois da pandemia, vimos crescer o movimento body positive. Ele nasceu para questionar justamente esse padrão impossível e para lembrar que só uma minoria, com um biotipo específico, consegue atingi-lo sem colocar a saúde em risco. Para a maioria das pessoas, perseguir o “peso ideal” significava se violentar com dietas restritivas, exercícios excessivos e uma vida controlada pelo medo da comida. O body positive trouxe a ideia de que todos os corpos merecem respeito, e que saúde e beleza não estão atreladas a um único padrão.
Na minha adolescência, eu tinha um corpo considerado “dentro do padrão”. Mas a real é que enquanto escrevo isso, percebo que essa frase não faz sentido: os padrões mudaram tantas vezes que preciso me corrigir. Então, a verdade é que, na adolescência, eu tinha um corpo dentro dos padrões dos anos 2000. Mas eu só digo isso agora, aos 37 anos, porque na época eu também me sentia completamente insatisfeita. Em vários momentos da minha vida, mesmo estando “dentro”, não me sentia bem comigo mesma e tinha uma relação difícil com o espelho, que hoje percebo que poderia ser classificada como uma dismorfia corporal mesmo, que é quando não conseguimos enxergar nossa imagem como ela realmente é.
Essa insatisfação crônica é algo que faz parte da vida da maioria das mulheres. Não depende exatamente do corpo que temos, mas de como nos vemos. Já passei por fases em que estava mais distante do padrão, mas tão feliz que me achava linda como nunca. Sempre quando paro para olhar fotos antigas, percebo como minha percepção muda com o tempo — não importa tanto como estamos, mas sim como nos enxergamos.
E mesmo naquela época com um corpo padrão, lá estava eu aos 13, 14 anos, achando que precisava fazer dieta e seguindo as dicas que lia nas revistas, que recomendavam substituir refeições por shakes. Tinham versões industrializadas, vendidas em farmácias, mas eu fazia as caseiras, com iogurte desnatado e gelatina diet. Soa absurdo, mas era o que se fazia: controlar obsessivamente calorias, calcular pontos, se privar do prazer da comida em prol de um corpo que nunca era magro o suficiente.
Com o tempo, falar diretamente do corpo das pessoas passou a ser considerado ofensivo - apesar de que algumas pessoas ainda não aprenderam essa etiqueta, né? O culto à magreza extrema até pouco tempo atrás tinha perdido espaço. Mas basta olhar pelas redes sociais e perceber que o discurso não desapareceu: apenas mudou de roupa. Hoje, em vez de falar em dietas milagrosas, muitos falam de “saúde”. A promessa não é mais “emagrecer rápido”, mas sim “comer limpo”, “aumentar a performance”, “otimizar os nutrientes”. A linguagem mudou, mas o comportamento rígido e obsessivo segue sendo o mesmo.
Claro que não dá para generalizar. É evidente que cuidar da alimentação e praticar exercícios é fundamental para a saúde. Mas quando a comida se transforma apenas em números — proteínas, carboidratos, calorias — também estamos lidando com extremos. Comer só pela quantidade de nutrientes, sem nenhum prazer, é tão desequilibrado quanto viver de fast food.
E aqui volto à pergunta inicial: por que você come?
Você come apenas para atingir uma meta estética ou nutricional? Ou também come pelo prazer, pela memória afetiva, pela experiência? Comer é, sim, um ato biológico - precisamos de energia para viver - mas é também cultural, social e emocional. Faz parte de encontros, celebrações, lembranças. Reduzir a comida a uma conta matemática é empobrecer toda uma relação que temos com ela.
Pesquisas mostram como a mídia influencia profundamente nossa percepção corporal. A exposição a imagens de “corpos ideais”, muitas vezes super editadas, gera insatisfação e até sintomas depressivos, além de alimentar o ciclo das dietas restritivas. Se antes eram as revistas que ditavam esses padrões, hoje são as redes, seus filtros e algoritmos que reforçam sempre mais do mesmo. Mas se existe algo de positivo nesse novo cenário é que também temos mais vozes que discordam disso tudo, pessoas que falam sobre aceitação, equilíbrio e prazer em comer de forma saudável sem perder a alegria da comida.
O desafio, então, é aprender a encontrar esse meio-termo. Ter consciência de que saúde é importante, mas que ela não se mede apenas em calorias ou centímetros de cintura. Entender que o corpo muda ao longo da vida e que isso é natural. Às vezes estamos passando por momentos que fazem com que a gente se alimente de maneira diferente, priorize outras coisas e está tudo bem nisso. Precisamos, acima de tudo, resgatar uma relação mais leve com a comida.
Porque, no fim das contas, comer é muito mais do que ingerir nutrientes. É nutrir também a alma, a memória e as relações. Não dá pra focar só na proteína e perder a oportunidade de comer aquele prato preparado com tanto carinho por alguém querido, que é um abraço em forma de alimento, né?
Então coma levando em conta esse equilíbrio e não se deixe enganar, se comparando a realidades compartilhadas pelas redes sociais que podem esconder distúrbios alimentares, pessoas que emagreceram com ajuda de medicamentos e hormônios e divulgam seus corpos sem mostrar esses bastidores que não tem nada de saudável. Esteja atento e se lembre que construímos todos os dias nossa relação com a comida. E pra continuar esse papo, me encontre no instagram!















