A gravura como meio artístico da arte em papel e em concordância com a sua tradição foi um dos meios privilegiados para ilustrar as publicações científicas das mais variadas áreas do conhecimento em tempos que já lá vão.

Passível de poder representar algo de forma extremamente minuciosa, a gravura tornou-se uma continuidade da arte do desenho que dado o seu ponto de partida como técnica – o suporte de uma matriz – permitiu a desmultiplicação, ao longo de toda a sua história. De um simples esboço ao mais elaborado desenho, tanto “riscado” na madeira, como no metal ou na pedra, podemos ter centenas de trabalhos iguais.

O tempo perdido (ou ganho!) em torno de uma matriz cria uma relação de proximidade e quase de intimidade com a matéria plástica: numa manipulação constante vai-se construindo (ou desconstruindo!) obsessivamente a matriz que é depois passada ao papel. No caso presente corto, lixo, acidifico, viro e torno a virar, experimento cores, imprimo no papel com o auxílio da prensa de gravura e assim vou desenvolvendo uma ideia plástica. Terminado este ciclo o apelo do recomeço na elaboração de novo trabalho é inevitável... Restam as chapas, a meu ver, peças artísticas sem par, matéricas, orgânicas, oxidadas numa mistura de zinco e cobre onde a reflexão da luz na superfície espelhada é um contraponto mágico.

Paradoxalmente a presente exposição representa um ato de entrega e procura mas ao mesmo tempo de despreendimento pouco habitual na labuta de um gravador. As matrizes, os pontos de partida, são aqui transformadas em pontos de chegada como objectos próprios da minha criação artística: únicas, muito diferentes dos seus sucedâneos em papel, tornam-se encantatórias pelo jogo de luminosidade que emanam, qual espelho baço envelhecido, numa sala onde a luz natural esmorece ao entardecer e que de cinzento vai adquirindo tonalidades alaranjadas. E o meu despreendimento enquanto artista é este: encaro a matriz como uma finalidade em si pela sua riqueza e validade plástica e não como um meio a preservar a desmultiplicação tão cara à arte da gravura. Aqui a linguagem matérica e gestual é todo um processo de obtenção de outros resultados aplicados a esta técnica milenar.

(Texto por Nim. Teresa Castanheira)