Dizem que três foi a conta que Deus fez. Eu sou a filha mais nova de três irmãos, terão sido os meus pais abençoados, tendo em conta o ditado? Não sei muito bem, tendo em conta as dores de cabeça que estes pobres pais, sobretudo a mãe, têm aturado aos seus queridos e amados filhos.
Para bem ou mal, os meus pais tiveram três filhos e antes que pensem que foi premeditado, não foi. A filha mais nova, no caso eu, que vos escrevo todos os meses, não foi pensada nem sequer planeada. Foi um descuido, dizem os responsáveis. Acho tendencioso, porque todos sabem que quem anda à chuva molha-se. Literalmente.
Ultrapassando esse pormenor, hoje venho falar-vos dos prós e contras de ser filha mais nova. Digamos que a distância de idades entre mim e os irmãos ainda é alguma… Bem contados, são 20 anos (do mais velho) e 19 do irmão do meio.
Durante grande parte da minha infância era bom, mas estranho. Era bom, no sentido em que não tinha de partilhar a mãe e o pai com mais ninguém. Lembro-me de em pequena dizer muitas vezes que na maior parte do tempo era filha única!
Os meus pais nunca foram pessoas de mimar os filhos ao extremo, mas ser-se o filho mais novo dá-nos o privilégio de ter coisas que os mais velhos não tiveram. Ainda para mais quando os tempos tendem a evoluir, como foi no meu caso.
Ambos os meus irmãos nasceram na década de 80 e eu nasci no início do novo século. Os tempos logo daí eram diferentes. Coisas a que eu tive acesso: computador, internet em casa, televisão, quarto só para mim (divisão que os meus irmãos tiveram de partilhar até que saíram de casa) e outras coisas; os meus irmãos só lhes tomaram o gosto e usufruíram delas quando saíram de casa e constituíram as suas vidas.
Como já referi, os meus pais nunca foram pessoas de nos mimar ao ponto de nos darem tudo aquilo que pedíamos. Longe disso. Lembro-me de uma vez, em pequena — devia ter uns 6-7 anos — ir a uma feira com o meu pai e ver um brinquedo.
Criança que vê algo que gosta pede que lhe deem. O meu pai não deu. Não fiz fita, mas fiquei triste/amuada. Chegados a casa, a minha mãe viu-me naquele estado de espírito e perguntou-me o que se tinha passado e contei o sucedido.
Ao que a minha mãe diz na sua maior sabedoria de quem já havia criado dois filhos e estava a criar a terceira: “O dinheiro é para as necessidades: para te dar comida, para te vestir e calçar, comprar os teus livros no início de cada ano letivo e os bens necessários para o dia a dia”.
Aquilo, na mente de uma criança, caiu como um balde de água fria.
Não vou dizer que não tive brinquedos, sim também os tive, mas a grande maioria deles eram dados por pessoas amigas ou familiares.
Acreditem se quiserem, mas o único brinquedo que recebi da minha mãe foi uma ovelha de peluche, comprado num passeio. Vocês não imaginam, a senhora fez de mim a criança mais feliz do mundo.
Andei com aquele peluche para a frente e para trás, dormiu comigo durante muitos anos e, ainda hoje, faz parte da decoração do meu quarto!
Por isso quando dizem que ser o filho mais novo é só mimos desenganem-se. Diria que é mais crescer nas sombras dos mais velhos.
Sim, tem-se acesso a coisas que os outros não tiveram, mas também se vive com a falta e ausência daquelas pessoas. É vê-los de vez em quando, nas festas da família e é quando dá, porque depois quando se juntam ou casam, passam a ter de se dividir entre a família deles e das companheiras.
Contudo, ser a filha mais nova é fácil quando somos pequenos. Não se deixem enganar!
Apesar daquela ausência sentida em casa, conforme vamos crescendo, há uma tendência a fecharmo-nos sobre nós próprios, porque pensamos que ninguém é capaz de nos compreender.
Como se fossemos nós contra o mundo inteiro. Nunca fui pessoa de fazer muito barulho e de exteriorizar o que me vai na alma e no pensamento. Prefiro pensar para dentro e dormir sobre o assunto, mas se havia coisa que me irritava nos anos da adolescência era a minha opinião não ser tida em conta.
Deixava-me profundamente triste. Até cria um certo estigma na pessoa ao dar a sua opinião, quando lhe é pedida, claro está.
Isso é outra coisa que me irrita enquanto filha mais nova, que é ser obrigada a ouvir e a calar. Como se os mais velhos fossem os únicos donos da razão. Não o são.
Ser a irmã mais nova é fácil. Difícil é ter de ouvir os bitaites que vos mandam como se a vida dos vossos irmãos fosse idílica. Até pode não ser, mas eles acham-se nesse direito ou dever. (Sem lhe terem pedido nada, imaginem se tivesse pedido…). Acredito que não o façam por mal, mas no meu caso só se aceitam críticas construtivas e conselhos para melhorar. Criticar por criticar não é preciso, até porque hoje somos criticados tanto por fazer como por não fazer.
Hoje a crítica é gratuita e usada, muitas vezes, como moeda de troca.
A relação entre irmãos será para sempre a relação inexplicável de amor-ódio e só quem os tem é que sabe. Num minuto, somos os melhores amigos, mas no seguinte, somos bem capazes de ir fazer queixa à mãe porque nos chateamos.
Não os podemos escolher e às vezes viveríamos bem sem eles, mas sabemos que a nossa vida não era a mesma sem eles.















