Eu tenho verdadeira fascinação por museus, mas a verdade é que nem sempre fui assim. Esse interesse foi sendo construído aos poucos, movido pela curiosidade. Quando chego em um lugar novo, o que mais me encanta é tentar entender o que há de vivo ali: na comida, nas ruas, nas pessoas e nas histórias que aquele lugar guarda.
O que realmente me faz feliz quando me disponho a conhecer um lugar é experimentar a comida local em um restaurante tipicamente local. Outra coisa que me deixa extasiada é me perder pelas ruas ao andar totalmente sem rumo e, de repente, sentar em um banco na praça e ficar olhando o movimento do lugar. Não posso deixar de mencionar que conhecer pontos turísticos é necessário, sim, mas conversar com locais e pegar as dicas deles com certeza vai te surpreender.
E a minha relação com os museus veio justamente de vivenciar cada vez mais os lugares que visito. A cada visita a um museu, eu sabia que poderia passar o dia inteiro ali e, a depender do museu, mais de um dia. Eu queria ler sobre cada obra, entender se o que eu sentia ao observar certa pintura ou escultura era o que o artista desejava transmitir ao finalizar o seu feito. E foi assim que tive o privilégio de estar cara a cara com algumas das maiores e mais importantes obras da nossa história.
Ao fitar uma pintura, por exemplo, fico imaginando o pintor na sua época. Suas manias, seus sentimentos, o que o levou a expressar aquela cena com aqueles tons. Por inúmeras vezes, ao ver pinturas com casinhas simples em um fim de tarde, eu visualizava a minha família no interior e tinha uma imensa vontade de entrar naquele quadro.
Até que, em um certo dia, em uma certa viagem, eu pude entrar em um quadro. E tudo começou quando eu comprei um passeio de um dia para Giverny.
O encontro de Monet com Giverny
Em 1883, Monet escreve: “Estou em êxtase. Giverny, é, para mim, uma terra esplêndida”. E eu entendi tanto o êxtase quanto o esplêndida assim que pisei ali. Monet apaixonou-se por Giverny ainda quando era uma “casa do lagar”, ou seja, um espaço de terra onde se extrai líquidos de frutos. Assim que descobre que está para alugar, não hesita. Este pedaço de terra fica localizado entre Paris e a costa da Normandia. Além da ótima localização, o que mais chama atenção de Monet são o jardim, o rio Epte, nas proximidades, e o Rio Sena a menos de dois quilômetros. Ele identifica que é um lugar ideal para pintar ao ar livre e captar qualquer efeito da luz.
Quando Camille Doncieux, sua primeira esposa, morreu, Monet se aproximou ainda mais de Alice Hoschedé, esposa do seu colecionador Ernest Hoschedé. A casa, além de espaçosa, não exigia gastos consideráveis e, por isso, podia acomodar os dois filhos de Monet e os seis filhos de Alice. Desde o primeiro ano em sua nova residência, Monet viaja por vários meses em companhia de Renoir, pois estão em um projeto de retratar em seus quadros a costa mediterrânea. Em 1884, escreve à Alice: “Ficaria muito feliz se voltasse à minha vida no campo. Parece-me que sentiria aí um prazer enorme em pintar”.
Em 1886, por intermédio do seu negociante de arte, Durand-Ruel, consegue expor em Nova Iorque e ganha positivamente a crítica. Sua consagração viria em 1889 quando a galeria parisiense Georges Petit organizou uma exposição das suas obras em conjunto com as do escultor Rodin, um dos maiores artistas daquele tempo. A carreira de Monet é lançada após um crítico declarar na imprensa:
São eles que, neste século, incarnam o mais gloriosamente, o mais definitivamente, estas duas artes: pintura e escultura.
(Octave Mirbeau)
Após a morte de Ernest, marido de Alice e amigo de Monet, em 1891, ambos decidem se casar. Monet é com os filhos, tanto os seus quanto os de Alice, amoroso e paternalista, mas ninguém se atreve a danificar as plantas do seu jardim. Confesso que me identifiquei com Monet em alguns momentos, pois quero muito bem aos meus, porém não gosto que mexam em minhas coisas. Além disso, Monet e eu gostamos de rotinas, apesar de termos hábitos diferentes. Ele gostava de levantar de madrugada e ter um café da manhã com pão e salsichas, em seguida partia rumo aos jardins munido de sua paleta e de seu cavalete transportado por um carrinho de mão. Retornava por volta das onze e meia em ponto para almoçar e depois partia novamente para o jardim para continuar pintando até quando o tempo permitisse.
Porém, não se engane! Monet possuía um caráter descrito como atormentado e irascível, podendo ter momentos de irritação profunda que duravam vários dias. Quando isso acontecia, ele fechava-se em seus aposentos no andar de cima e quando reaparecia, se tornava o Monet “normal” voltando para sua rotina de ida aos jardins para suas pinturas.
Claude Monet era extremamente perfeccionista. Muitas vezes permanecia horas em frente a uma única obra. Clèmenceau, amigo íntimo de Monet, por várias vezes não hesitou em se colocar em frente a uma tela quando Monet quis rasgar a facadas um trabalho com o qual não estava satisfeito.
A casa e seus ambientes
Além do jardim, Monet também se recolhia dentro de casa para fazer suas pinturas a fim de fazer retoques. Mesmo sendo uma casa acolhedora e colorida, há divisões generosas em todos os ambientes.
Monet escolhe as cores para a sua casa: no andar térreo, cores vivas nas paredes — azul na sala de visitas e amarelo na sala de jantar. Naquela época, cores vivas assim não eram comuns, pois privilegiava-se cores sombrias e papéis de parede pintados com motivos de grande dimensão.
A casa de Giverny era movimentada pelos grandes amigos de Monet e por grandes nomes como Renoir, Sisley e Pissarro e amigos íntimos como Clèmenceau e Mirbeau. Mais tarde, quando já pintor de renome, não deixa de receber a visita de admiradores como Sacha Guitry, que no ano de 1915 filmará Monet no jardim.
A comida era algo importante para o pintor. Gostava particularmente de aves aquáticas, peixes e crustáceos e, na sua fase áurea, chegou a ter três cozinheiras. Como um bom gourmet, anotava as suas receitas preferidas em cadernos pessoais com os nomes daqueles que as traziam, como, por exemplo, Bouillabaisse de Bacalhau fornecido por Cézanne.
Monet podia até começar a pintar nos jardins da casa, mas gostava de terminar suas telas no estúdio que possuía janelas altas. Mais tarde, ele decide transformar esse mesmo estúdio em um salão de exposição das suas pinturas, além de uma extensa coleção de obras dos amigos impressionistas. Caso visite a casa em Giverny, lembre-se de que as telas que ali estão são reproduções, pois os originais estão expostos em grandes museus ao redor do mundo. A reprodução da disposição em que estavam as telas são as mesmas que Monet dispunha da organização dos originais graças às fotografias da década de 1920.
Os dois jardins
O caminho até a casa em que Monet viveu é lindo. Não há contra-argumentos! É importante, inclusive, visitar a casa primeiro, pois a visitação ocorre em uma única fila e não de forma livre pela quantidade de turistas que há no local. Ao sair da casa, a visitação deixa de ser por fila e passa a ser livre e é aí que a magia acontece.
Lembram que, no começo, eu disse que pude entrar em um quadro? Pois foi bem nesse momento, em que saí da casa do Monet, que tive essa sensação. Uma sensação que não preenche apenas os olhos, mas é possível também sentir o cheiro das flores. Giverny é um abraço na alma.
Quando Monet completa 50 anos, suas obras estão vendendo super bem. Com certo capital, decide adquirir algumas terras ao fundo do cercado normando, seu primeiro jardim, que consistia apenas em um pomar bem sem graça — ele se empenha em deixar jeitoso esse jardim, mas seu objetivo nunca é a raridade, mas sim um complexo conjunto de cores. Não é incomum deixarmos de comparar o jardim com uma paleta de artista ou até mesmo com o nosso singelo estojo de lápis de cor quando criança, ainda que humilde.
O acesso do primeiro jardim para as terras ao fundo se dá por baixo de uma via férrea que passa em frente à casa, então ele manda cavar uma passagem subterrânea. Neste segundo jardim, constrói um lago e cria um desvio no rio Epte, trazendo água corrente para alimentá-lo. Este desvio é um braço na extremidade do jardim entre os bambus.
Desde sua mudança para a casa de Giverny, Monet desenvolveu sua paixão pelo jardim. Paixão que o acompanha até a sua morte. Assim que sua situação financeira permite, ele investe contratando um jardineiro-chefe e cinco jardineiros assistentes para coordenar as cores de acordo com as estações do ano com o objetivo de criar harmonias. Não poupa esforços para que venham flores de diversos lugares. Monet, um autodidata, compra muitos livros sobre esse assunto, visita exposições, sempre atento às últimas novidades. O seu jardim é local de trabalho, sua inspiração, um estúdio ao ar livre.
Segundo Clèmenceau, amigo íntimo de Monet:
O jardim de Monet conta entre as suas obras, realizando o encanto de uma adaptação da natureza às obras do pintor e da luz. Uma extensão do estúdio ao ar livre, com paletas de cores, profusamente espalhadas por toda parte, para a ginástica do olho através dos apetites de vibrações, cuja retina febril espera alegrias que nunca se acalmam.
“A minha obra-prima é o meu jardim”, dizia Claude Monet
Foi com essa frase ecoando em mim que deixei Giverny. E saí de lá entendendo que aquilo que nos faz felizes, na maioria das vezes, é simples, silencioso e profundamente nosso. As maiores obras de Monet — aquelas que hoje percorrem o mundo, e que um dia ainda vou contar aqui com calma, como seus célebres nenúfares — nasceram de algo que ele cultivou sem jamais sonhar em transformar em arte. Talvez a vida também peça isso de nós: silêncio, escuta e coragem para olhar para dentro. Para reconhecer o que amamos, o que desejamos, o que nos preenche. E, quem sabe, transformar isso na nossa própria obra-prima.















