Tudo aconteceu tão rapidamente que pouca gente se deu conta. Em quinze anos, a Europa passou de um grande continente a um pequeno sub-continente. Em 2010, foi aprovado o Espaço Europeu de Ensino Superior (EEES) cuja construção se iniciou com o Processo de Bolonha (1999). Visava criar um sistema comum de diplomas universitários facilmente legíveis e comparáveis; e criar mecanismos que garantissem a qualidade dos graus. Neste texto eu não discuto as relações neocoloniais no interior deste espaço, nem a viragem neoliberal das universidades que motivou a esta espansão.
Mutilação
Os estados-membros participantes do Espaço Europeu de Ensino Superior (EEES) são (eram): Albânia, Alemanha, Andorra, Arménia, Áustria, Azerbaijão, Bielorrússia, Bélgica, Bósnia e Herzegovina, Bulgária, Cazaquistão, Cidade do Vaticano, Chipre, Chéquia, Croácia, Dinamarca, Eslováquia, Eslovénia, Espanha, Estónia, Finlândia, França, Geórgia, Grécia, Hungria, Irlanda, Islândia, Itália, Letónia, Liechtenstein, Lituânia, Luxemburgo, Malta, Moldávia, Montenegro, Países Baixos, Macedónia do Norte, Noruega, Polónia, Portugal, Reino Unido, Roménia, Rússia, São Marino, Sérvia, Suécia, Suíça, Turquia, Ucrânia, 49 Estados. Graficamente era ainda mais impressionante.
Quinze anos depois, a Europa auto-mutilou-se ou foi mutilada: é hoje menos de um terço desse espaço, uma mini-Europa. Dentro desse espaço que é hoje, pretende convencer os europeus que é uma questão de vida ou de morte salvaguardar o pequeno espaço do leste da Ucrânia, culturalmente russo (e, portanto, só agora, não europeu). Foi um dos países desse grande espaço europeu (a Turquia) que, dois meses depois de começar a guerra da Ucrânia, conseguiu um acordo entre a Rússia e a Ucrânia para terminar a guerra.
O argumento dos turcos que convenceu os beligerantes foi o seguinte: aquela disputa não valia a carnificina que iria provocar porque, de qualquer maneira, Donbass, Lugansk ou a Crimeia, fossem ucranianos ou russos, continuariam a ser europeus. Este argumento não convenceu europeus e norte-americanos da Guerra Fria porque há muito tinham abandonado a “a casa comum europeia” proposta por Gorbachov e que ainda estava presente no espaço europeu de ensino superior.
Em geral, as mutilações são um factor de fraqueza e não de força. No caso concreto, a ruptura da mini-Europa com a Rússia foi um decisivo factor de aceleração do declínio da Europa.
Insulto
A mini-Europa tornou-se um motivo de ridicularização por parte dos EUA que, desde muito antes do golpe da praça Maidan de 2014, vinham a querer a vassalagem da Europa para neutralizar o avanço global da China. Foram ridicularizados os líderes europeus em Washington tal como o foi Zelensky, o presidente ilegítimo da Ucrânia. Ilegítimo à luz dos critérios da Casa Branca, pois, se Nicolas Maduro é um presidente ilegítimo por ter manipulado eleições, Zelensky é duplamente ilegítimo: por ter cancelado eleições e por recusar referendo à população sobre o fim da guerra.
Ridicularizar líderes políticos significa humilhar os povos que eles, mal ou bem, representam. A humilhação dos povos europeus tem tido muitos palcos (ONU, Davos, Tele-diário da Sala Oval da Casa Branca), mas o mais importante são as Conferências de Segurança de Munique. Ocorreu em 2025 com o discurso do vice-presidente JD Vance, e, em 2026, com o discurso do Secretário de Estado Marco Rubio. Os comentadores-vassalos dos media-vassalos da Europa viram grandes diferenças entre os dois discursos e estão tão atascados na humilhação que até viram no segundo discurso um elogio e assim o aplaudiram.
Claro que houve diferenças retóricas nos dois discursos, mas, ao contrário do que os comentadores-vassalos julgaram, as diferenças não visaram o público europeu, um alvo irrelevante para qualquer deles. Visaram o público norte-americano e os bilionários que vão financiar a campanha eleitoral, seja de Vance ou de Rubio. Eles são os dois candidatos principais das primárias do Partido Republicano nas próximas eleições presidências e a luta entre eles é feroz. Enquanto latino, Marco Rubio tem de ser ainda mais extremista na apologia dos valores cristãos ocidentais para poder agradar sobretudo ao grande lobby sionista que decidirá as próximas eleições.
Na substância disseram exatamente a mesma coisa: a Europa não tem futuro como actor internacional relevante e as forças políticas de extrema-direita são as mais fiáveis para administrar a mini-Europa, porque são as que mais eficazmente reprimem a revolta dos cidadãos contra a prioridade dada às despesas com a defesa contra ameaças que os cidadãos não vêem. Vance foi brutal na humilhação. Rubio encheu a Europa de elogios pelo seu passado glorioso: “Durante cinco séculos, antes do fim da Segunda Guerra Mundial, o Ocidente esteve em expansão — os seus missionários, peregrinos, soldados e exploradores saíram das suas costas para atravessar oceanos, colonizar novos continentes, construir vastos impérios e expandir-se por todo o mundo”, continuou Rubio, insistindo que os parceiros europeus deveriam ter “orgulho” dessa história se quisessem proteger a sua posição no mundo.
Esta é mais despudorada apologia do colonialismo que alguma vez li. Todo o sofrimento humano que o colonialismo causou aos povos colonizados, do extermínio das populações à escravatura e à pilhagem dos recursos, foi transformado em crédito dos Europeus. Mas a subtileza (ou rudeza) do argumento não reside aí. Reside no não-dito: “nós, os norte-americanos, somos os legítimos herdeiros dessa história e, por isso, só nós temos legitimidade para levar a cabo o colonialismo, seja na Venezuela, na Palestina, em Cuba ou na Gronelândia”. E os europeus aplaudiram, como antes aplaudiam os autos-da-fé nas praças europeias.
Guerra
A mini-Europa está envolvida numa guerra que não causou, mas de que se quer aproveitar para se ver ampliada no espelho de Humpty Dumpty. Esta guerra parece regional, mas talvez seja a primeira fase de uma guerra global (o Irão é o grande candidato da nova fase). As guerras começam sempre com grande surpresa para as populações menos atentas, ou seja, a grande maioria dos cidadãos. Dizia o locutor da radio aos camponeses noruegueses atónitos num filme de que de não me recordo: “Temos o trágico dever de anunciar algo que nunca imaginámos, a guerra começou”.
Assim será um dia, talvez não muito longínquo. Se não sabemos como as guerras começam, sabemos como terminam: por negociação ou por rendição de um dos contendores. Quando era já notório que os alemães iam perder a guerra, os aliados propuseram uma negociação. Hitler recusou. O resultado foi arrasador e seguiu-se a assinatura da rendição. Se a negociação entre a Rússia e a Ucrânia não tiver êxito, haverá rendição, e o mais provável é que seja a rendição da Ucrânia ou o que restar dela.
É uma tragédia europeia que a Alemanha surja em cada século como o maior perigo para a paz na Europa. Neste momento, são dois alemães os grandes arautos da guerra. A Comissária europeia, Ursula van de Leyen, que defendeu em Munique a necessidade de derrubar “a parede rígida entre os sectores civil e de defesa”. E o Chanceler alemão, Friedrich Merz, que tenta convencer os europeus que o exército mais poderoso é o Bundeswehr, o legítimo herdeiro do Reicheswehr. Para que quer esse poder? Para tornar possível um nova solução final, desta vez o fim da Rússia? Terão certamente tanto êxito quanto tiveram na solução final anterior contra o povo judeu.
















