Ler Maria de Fátima apenas como “má” ignora que sua trajetória também é resultado de condições sociais: pobreza, oportunidade desigual e a normalização de estratégias de sobrevivência econômica que, em contextos de escassez, se confundem com imoralidade. Aliás é importante ressaltar que a personagem cresceu em meio a discussões frequentes de seus pais por causa de dinheiro (com Rubinho até dando um tapa na cara de Raquel no primeiro episódio da novela), de seu próprio pai não ser um bom exemplo, mesmo que diversos personagens digam o contrário e o fato de que Raquel (personagem de Regina Duarte e mãe de Fátima) sempre dizer que foi um ótima mãe, mas nunca entender (e aceitar) a personalidade da própria filha.
Começando pela maior polêmica e pelo ato mais lembrado pelos telespectadores, a venda da casa em Foz do Iguaçu. Gilberto Braga mostra, até de forma bem excessiva e repetida, que, apesar de ser moral e completamente errada, a venda da casa acaba por ser culpa também de Raquel, por ter colocado a casa apenas no nome de Fátima, como vários personagens apontaram para ela. “Ah, mas então quer dizer que você acha certo o que a Fátima fez com a mãe?” De maneira alguma, mas da mesma forma que o advogado de Raquel aponta na novela, a venda da casa não foi ilegal, foi imoral sim, mas Raquel jamais deveria ter deixado apenas no nome de Fátima.
Aliás, a maioria das armações de Fátima na novela nunca chega a ser crime, mas fica dentro de uma esfera de “não é crime, mas também não é moralmente certo”, como por exemplo:
“Separar” Solange (personagem de Lídia Brondi) e Afonso (personagem de Cássio Gabus Mendes) se aproveitando do ciúmes e do machismo do segundo para causar intrigas entre o casal. O mais engraçado é que a própria personagem aponta isso para Afonso, após ele se separar de Fátima, que o maior problema foi o fato de ele não ter confiado na palavra dela. As armações de Fátima, aliás, beiram a juvenilidade de tão bobinhas, fazendo no fim o próprio telespectador agradecer a Fátima de ter livrado Solange de continuar com um homem como Afonso.
Ao separar sua mãe e Ivan (personagem de Antônio Fagundes), o contexto é ainda mais complicado, pois Odete praticamente a chantageara dizendo que só aceitaria o namoro de Fátima com Afonso caso ela separasse Raquel e Ivan. Além disso, da mesma forma que com Solange e Afonso, Fátima basicamente nada faz para separar os dois, que já sofriam problemas por conta da mala com oitocentos mil dólares roubados e da ambição desenfreada de Ivan em querer ficar com o dinheiro, enquanto Raquel queria devolvê-lo ao dono original, Marco Aurélio (personagem de Reginaldo Faria). Novamente ela apenas se aproveitou de circunstâncias criadas pelos próprios personagens para atingir seus objetivos.
Chantagear Marco Aurélio com uma gravação de seu roubo dos oitocentos mil dólares da TCA, como uma forma de se proteger.
Chantagear Celina (personagem de Nathalia Timberg) por ser sócia de Raquel e encobrir que a segunda tinha um caso com Ivan, que havia se casado com Heleninha (personagem de Renata Sorrah).
Esse último caso é aliás o ponto que mais aponta a hipocrisia de praticamente todos os personagens da novela, enquanto Fátima é punida e constantemente humilhada por ter um caso com César (personagem de Carlos Alberto Ricelli) enquanto é casada com Afonso, Ivan e Raquel são tratados como personagens bons e vivendo um “amor proibido” quando Ivan está fazendo exatamente a mesma coisa que Fátima e pior, com todos os personagens acobertando e aceitando o que Raquel e Ivan fazem.
Raquel aliás se mostra a personagem mais moralista e hipócrita de toda a novela, com as ações de Ivan e Maria de Fátima sendo sempre vistas por ela de formas diferentes:
Quando Ivan invade a TCA, falsifica memorandos, mente e manipula, Raquel justifica que “ele apenas fugiu de toda a burocracia e injustiça do sistema”, mas quando Maria de Fátima faz alguma coisa semelhante, Raquel praticamente a trata como um monstro desalmado e sem moral.
Quando Ivan se casa com Heleninha por dinheiro, Raquel diz que é culpa de Fátima que separou ela e Ivan, mas quando Fátima casa com Afonso pelo mesmo motivo, Raquel a chama de prostituta.
Quando ela e Ivan estão tendo um caso, é ok, pois a Heleninha está interferindo no amor deles, mas o caso de Fátima e César é imperdoável, pois Afonso é uma “boa pessoa”, mas a Heleninha também é, então qual a diferença?
A pior ofensa é o fato de Raquel fazer de tudo para impedir Ivan de ser preso por pagar propina a um fiscal (até mesmo a manipular, mentir e roubar), mas ela se recusa a fazer o mesmo por Fátima, aliás, é nítido na novela o quanto Raquel prioriza Ivan em detrimento de qualquer outra pessoa em sua vida, inclusive sua própria filha.
Até mesmo com Rubinho (personagem de Daniel Filho), ex-marido e pai de Fátima, Raquel julga as ações dele e de Fátima de forma diferente. Rubinho também é mentiroso, trapaceiro e trambiqueiro, mas Raquel ri e diz que ele é no fundo um bom homem, enquanto Fátima, mesmo nas 3 vezes que ela se abriu com Raquel e foi sincera, Raquel a tratou como uma sociopata sem coração.
Essa hipocrisia dos personagens se torna mais evidente e descarada ainda durante a segunda fase, quando Gilberto Braga se afastou e Aguinaldo Silva assumiu, Raquel e Ivan se tornam tão “santificados” que beiram o insuportável, enquanto Fátima é humilhada e castigada de tal forma que chega a ser incômodo, como se ela fosse a única “ruim” e todos fossem “bons”.
Aliás, a decisão extrema de Fátima de vender o filho, por mais chocante que seja, precisa ser situada em um universo onde recursos, redes de proteção e expectativas de futuro eram drasticamente limitados para muitas mulheres. Em outras palavras: o ato é condenável, mas sua gênese atravessa estruturas. Mas ao invés de abordar isso, Aguinaldo Silva escreveu a venda do bebê apenas para causar choque dentro da narrativa, sem ser nem um pouco condizente com a personagem montada por Gilberto Braga no começo da novela. Tanto o ato quanto a cena soaram extremamente artificiais, ainda mais levando em conta que a cena anterior havia sido Fátima deixando seu bebê aos cuidados de Raquel.
Novamente, o caso não é defender as atitudes de Maria de Fátima, mas mostrar que ela não é exatamente esse “monstro” de que a memória das pessoas se lembra.
Ao reassistir à novela de 1988 em 2026, fica evidente o duplo padrão de gênero: atitudes similares (ou até mais graves) de personagens masculinos raramente são rotuladas com a mesma veemência moral que as de Fátima. Marco Aurélio, César, Afonso e Ivan são apenas alguns exemplos desse padrão duplo. Ivan, por exemplo, recebe mais compreensão dramática do que Fátima, cuja ambição é interpretada como monstruosidade pessoal. O machismo fica nítido e o padrão de gênero em que mulheres ambiciosas são frequentemente sexualizadas e moralizadas de forma desproporcional, enquanto homens ambiciosos são charmosos e quase nunca são moralizados.
Esse viés cultural explica por que Fátima ficou marcada: a figura da “filha ingrata” aciona códigos sociais poderosos sobre maternidade e obediência feminina. Nos imaginários conservadores, quebrar esses códigos é mais “perdoável” quando praticado por homens ricos do que por mulheres pobres em ascensão. Aliás, até a ambição é tratada de forma desproporcional entre os gêneros, a de Ivan é justificada, já a de Fátima é absurda e imoral.
É produtivo pensar também que a personagem atua como instrumento dramatúrgico. Fátima não existe só para sermos moralmente chocados; ela é também motor das contradições que Gilberto Braga e sua equipe querem revelar.
Em um país desigual, o que garante que a escolha pela honestidade não será, de fato, punida?
A própria Fátima é punida por ser do jeito que ela é, ao mostrar seu lado ambicioso e implacável, ela é criticada e atacada, por isso a personagem acha que mentir e manipular é melhor.
Fátima é, aliás, constantemente manipulada por César e Odete (personagem de Beatriz Segall) e acaba sendo largada pelos dois quando o seu caso extraconjugal é revelado.
Há pelo menos três razões pelas quais a imagem de “vilã” de Fátima sobreviveu por décadas:
Efeito de cena: a venda da casa de Foz do Iguaçu e a traição a Raquel, sua própria mãe.
Simplificação midiática e a segunda fase da novela que perdeu as nuances da primeira fase e simplesmente transformou as personagens em “mocinhas e vilãs”.
Conservadorismo moral do público: mesmo que justificado, os telespectadores tendem a não aceitar atitudes que são moralmente erradas de personagens classificados como “vilões”.
Por isso, ao revisitarmos a personagem hoje, precisamos combater a “memória fotográfica” e reassistir às cenas, lembrar do contexto dos acontecimentos, lembrar direito das falas, saber o momento histórico, os interesses dramáticos dos autores e as escolhas narrativas que colocam Fátima no lugar que ocupa.
Revisitar Maria de Fátima em 2026 (ou em qualquer ano) tem valor além do entretenimento: a personagem ajuda a discutir ambição, mobilidade social e a moralização seletiva de mulheres pobres. Em um Brasil que segue marcado por desigualdades, a figura da arrivista que “deu certo” apesar dos meios chama atenção para como a sociedade recompensa ou pune comportamentos. Além de mostrar o quanto o machismo continua enraizado dentro de nós como sociedade.
Maria de Fátima foi moldada para chocar, para personificar a ambição sem freios e para ser o espelho do que a novela queria denunciar. Sua vitimização do sistema e suas escolhas moralmente condenáveis coexistem ao mesmo tempo; ela não é boa ou ruim, a personagem é ambas as coisas, assim como todas as pessoas.
Sim, Maria de Fátima comete atos pelos quais deve ser responsabilizada (venda da casa, humilhações, negociações que envolvem o filho). Essas ações existem e têm consequências éticas reais. Contudo, enxergá-la apenas como um “monstro imoral” empobrece a compreensão da novela e impede que vejamos a personagem como sintoma de uma sociedade que recompensa ou tolera a imoralidade quando ela está combinada com sucesso e dinheiro, e que impõe padrões morais diferenciados segundo classe e gênero.
Por fim, resumir Maria de Fátima apenas como uma “vilã” é empobrecer a crítica e as camadas que Gilberto Braga deu ao criar a personagem. Fátima é uma personagem fascinante por ser exatamente um reflexo de uma sociedade desigual e machista, onde a ambição e os erros morais de uma mulher pobre são mais condenáveis do que os de um executivo rico.















