O espelho mágico é uma das formas mais antigas de adivinhação, possivelmente com origem na Pérsia. Os espelhos mágicos, quando usados para divinações, tornam-se instrumentos “degenerados” da revelação da palavra divina.

Pitágoras, segundo uma lenda, tinha um espelho mágico que mostrava a Lua antes de ver o futuro, assim como o faziam as feiticeiras da Tessália, os pigmeus da África e os xamãs, que para este fim utilizavam o cristal-de-rocha.

O espelho mágico também pode ser utilizado para mostrar coisas que um dia este já refletiu alguma vez, sendo um símbolo da continuidade ao fazê-lo.

Por mostrar um “outro mundo”, também simboliza um modo de enxergar o mundo com outra perspectiva, o que inclui uma idealização, uma visão vaidosa, como no caso de Narciso, ou distorcida, como ocorre na anorexia. Pode também ser uma “porta” para o outro mundo que mostra na sua imagem, sendo por isso virado contra a parede ou coberto em ocasiões específicas, como nos funerais.

O espelho ou a superfície da água são utilizados para a adivinhação e para interrogar os espíritos, sendo que suas respostas são mostradas pelo reflexo. No Congo, os adivinhos utilizam esse procedimento salpicando o espelho (ou a superfície da água) com pó de caulim e os desenhos do pó branco, emanação dos espíritos, lhes dão a resposta.

Na Ásia Central, os xamãs dirigiam, rumo ao Sol ou à Lua, um espelho ao qual se atribuía a qualidade de refletir tudo aquilo que se passa na Terra. As vestimentas dos xamãs são muitas vezes enfeitadas com espelhos para refletir as ações dos homens ou, ainda, proteger o xamã contra os dardos dos espíritos maus, sendo que depois de fazer seu ritual mágico, às vezes devia fazer nesses escudos riscos no mesmo número que as flechas malignas que o atingiram no processo.

O tema do espelho mágico, que permite ler o passado, o presente e o futuro, também é clássico na literatura islâmica. Por exemplo, a taça de Jamshid, rei lendário do Irã, é na realidade um espelho que simboliza o coração do iniciado. E sendo o coração simbolizado por um espelho (que antigamente era de metal), a ferrugem simboliza o pecado e o polimento do espelho, a sua purificação.

O espelho dos noivos, chamado Ayin-y Bibi Maryam (Espelho de Nossa Senhora Maria), ainda é utilizado na Pérsia, no Afeganistão e no Paquistão para abençoar o primeiro encontro entre o noivo e a esposa, sendo suspenso na parede do fundo da sala de reunião, na qual os noivos devem entrar por duas portas opostas e, ao invés de se olharem diretamente um ao outro, devem olhar para o espelho de viés. Fazendo assim, eles se encontram como no Paraíso, vendo os seus rostos corrigidos, não invertidos como neste mundo.

Para os sufistas, todo o universo é um conjunto de espelhos, nos quais ou a Essência infinita se contempla sob múltiplas formas ou refletem em diversos graus o Ser único, sendo cada um deles uma das possibilidades que a Essência tem de determinar a si mesma, o que só é possível em virtude de Sua infinitude. Aqui o espelho tem um sentido cosmológico como sendo a substância ou recebedora do Ato puro.

Um exemplo literário é o seguinte poema de Mallarmé (o espelho reflete a verdade):

Ó espelho!
Água fria pelo tédio em teu quadro gelada Quantas vezes e durante horas, desolada
Dos sonhos, e buscando minhas lembranças que são
Como folhas sob teu vidro de poço profundo
Apareci-me em ti como uma sombra longínqua
Mas, horror! Certas noites, em tua severa fonte
Conheci a nudez do meu sonhar disperso!

Assim é no conto “A Branca de Neve”, em que o espelho revela a verdade, tornando-se uma fonte de poder e criando conflitos!

Quanto à pintura, temos um fantástico exemplo; o de Alex Grey. Alex Grey é, antes de tudo, uma boa expressão de arte moderna, de multiplicidade e inovação. Ele é capaz de maravilhar por suas criações sensacionais mas também chega a chocar por seus temas, além do caráter explícito de sua arte. Uma arte inspirada, que retrata em suas obras múltiplas dimensões e interpretações da realidade como o entrelaçamento da anatomia biológica com energias psíquicas e espirituais e a representação visual da natureza da vida e da consciência. Em resumo, um deleite em imagens e um estimulante psíquico extremamente recomendado àqueles sedentos por criações sem par e por arte que desperta algo mais que a observação pura e simples.

Desde criança, Alex Grey foi encorajado pelo pai, um designer gráfico. Em 1975 ele experimentou LSD em uma festa, onde conheceu a mulher que se tornaria sua esposa até hoje, e teve visões de um túnel que mudava dinamicamente de preto para branco, passando por tons de cinza. Esta visão trouxe as respostas para seus dilemas, e por isso ele adotou seu sobrenome artístico atual (Grey = cinza). Alex Grey tem uma carreira repleta de grandes exibições que foram de Tóquio a São Paulo, além de aparições em canais de televisão como Discovery Channel.

Também teve sua arte usada em álbuns de bandas famosas como Nirvana, Beastie Boys, Tool e String Cheese Incident, entre outras.

As suas “viagens” fizeram com que descobrisse um novo mundo, uma nova forma de ver as coisas, a realidade. Assim adicionou, para a concepção de sua arte, esta experiência aos conhecimentos adquiridos por ter passado cinco anos em um departamento de anatomia estudando e preparando cadáveres para dissecação. Alex Grey é mais conhecido inclusive por suas representações anatômicas de corpos humanos e as várias camadas da realidade relacionando-se com a força espiritual, mágica e sagrada das suas obras.

Uma das mais famosas é a chamada Sacred Mirrors, uma coleção de 21 pinturas em tamanho natural que levam o observador a uma viagem pela natureza divina através da visualização, em detalhes, do corpo, mente e espírito. Em Manhattan ele criou sua “Capela dos Espelhos Sagrados” (COSM - Chapel Of Sacred Mirrors), local muito visitado onde expõe pinturas gigantescas trazendo à mente o renascentista Michelangelo; estas pinturas procuram ilustrar a evolução do corpo material à grandiosidade do corpo sutil, representado por chakras, kundalini e outras energias vitais.

A sua obra, como um espelho, é uma ponte entre mundos!