A primeira vez que vi Lisboa foi depois de um longo voo e de uma travessia ainda mais longa dentro de mim. Saí de Goiás carregando mais que uma mala, levava expectativas, medos e o desejo de recomeçar. Era o fim da pandemia, aquele tempo estranho em que o mundo ainda tateava a normalidade, e eu também buscava me reencontrar.

Antes de chegar ao destino final, o caminho foi cheio de escalas literalmente e emocionalmente. Passei por São Paulo, e de lá embarquei para um voo com escala de 12 horas em Luanda, capital de Angola. Do aeroporto, vi uma África que eu só conhecia por imagens e histórias, e percebi que viajar é isso: perceber o quanto o mundo é vasto e o quanto ainda temos a aprender. Aquele tempo de espera entre voos foi o meu primeiro contato real com a sensação de estar longe e, de certo modo, livre.

Quando finalmente cheguei a Lisboa, já era noite. A cidade me recebeu com um vento leve e o som distante dos elétricos descendo as ladeiras. Lembro de olhar pela janela do carro a caminho de Odivelas, onde eu iria morar, e sentir um misto de ansiedade e encanto. Tudo era novo, o idioma (ainda que familiar), o ritmo, as ruas estreitas, a arquitetura antiga. Era como se o passado e o presente andassem de mãos dadas por ali.

Nos primeiros dias, cada detalhe chamava minha atenção. As fachadas coloridas, as roupas estendidas nas janelas, o cheiro de café forte misturado com pastel de nata. Lisboa tem uma melancolia bonita, uma espécie de poesia que vive em suas calçadas de pedra e nas músicas que ecoam pelos becos de Alfama. Eu me sentia parte de um filme, caminhando entre histórias que existiam muito antes de mim.

Mas a vida em Portugal, como todo começo, também tem seus desafios. Eu morava em um quarto pequeno em Odivelas, um bairro simples, cheio de imigrantes e com uma energia acolhedora. Dividia o apartamento com pessoas de lugares diferentes, cada uma com seu sotaque, suas lembranças e seus motivos para estar ali. Era curioso ver como o mundo inteiro parecia caber dentro de um mesmo lar.

Comecei a trabalhar em um café no centro de Lisboa. A rotina era puxada, mas havia algo de mágico em servir cafés quentes a pessoas apressadas, ouvir o tilintar das xícaras e os “obrigado” ditos com aquele sotaque português tão característico. Aprendi sobre paciência, sobre humildade e sobre o valor de cada sorriso mesmo quando vinha por trás de um balcão.

O que mais me encantava era o contraste entre a pressa da cidade e o ritmo tranquilo de quem vive perto do mar. Nos meus dias de folga, pegava o trem e ia até Cascais, onde o Atlântico se estende como um abraço sem fim. Caminhar pelo calçadão, sentir o cheiro do sal, ver o pôr do sol tingindo o céu de dourado era como respirar pela primeira vez depois de muito tempo. Ali, eu pensava em tudo o que tinha deixado no Brasil, mas também sentia uma gratidão imensa por estar onde estava.

Também conheci outras praias, como Carcavelos e Costa da Caparica, e cada uma parecia me contar uma história diferente. A brisa fria, o som das ondas, as gaivotas voando livres... Era impossível não refletir sobre a vida enquanto observava o mar. Talvez fosse por isso que tantos poetas portugueses escreveram sobre ele porque o mar tem essa capacidade de nos fazer pequenos e grandes ao mesmo tempo.

Lisboa me ensinou muito sobre silêncio. Sobre a solidão que às vezes dói, mas também cura. Nos primeiros meses, senti falta de casa, dos amigos, da comida, dos sotaques brasileiros. Às vezes, me pegava rindo sozinho quando ouvia alguém falando “oxente” ou “uai” no metrô. Era como se, por alguns segundos, o coração voltasse para Goiás.

Mas também aprendi a gostar da minha própria companhia. A caminhar pelas ruas sem destino, a observar os detalhes que antes passariam despercebidos. Lisboa é uma cidade que se revela aos poucos e quanto mais você a vive, mais ela te conquista.

Os cafés sempre cheios, as padarias com vitrines de doces que mais parecem obras de arte, os vendedores chamando os clientes com simpatia, o som das guitarras portuguesas nas praças... Tudo isso fazia parte do meu cotidiano. E mesmo tendo ficado apenas cinco meses, pareceu uma vida inteira condensada em pouco tempo.

O que mais marcou esse período foi perceber que recomeçar em outro país é um exercício constante de adaptação. Nem sempre é fácil, mas é transformador. Trabalhar, pagar aluguel, lidar com o frio europeu, com o idioma rápido e as saudades constantes tudo isso me tornou mais maduro e grato.

Em Lisboa, entendi que liberdade tem um preço, mas também um sabor inigualável. Era a primeira vez que eu realmente me sentia dono dos meus passos. Não importava se o quarto era pequeno ou se o bolso estava apertado havia em mim uma sensação de conquista. De ter saído do Brasil e conseguido construir, ainda que por pouco tempo, uma nova versão de mim.

Quando chegou a hora de voltar, confesso que foi difícil. A cidade já tinha virado parte de mim. O cheiro de café fresco pela manhã, o barulho do bonde 28 subindo as ladeiras, as conversas com sotaques misturados, os amigos que fiz e que carrego até hoje. Tudo isso ficou gravado na memória.

Voltei com a mala um pouco mais pesada não de roupas, mas de lembranças. Lisboa me ensinou a valorizar o simples, a ver beleza nas diferenças e a entender que cada lugar do mundo tem algo a nos oferecer, se estivermos dispostos a ouvir.

Cinco meses podem parecer pouco, mas, às vezes, o tempo não é o que mede a importância das coisas. Lisboa foi, para mim, um ponto de virada no momento em que deixei de sonhar com o mundo e comecei a vivê-lo de verdade.

Hoje, quando fecho os olhos, ainda ouço o som do fado ecoando pelas ruas antigas, como se me chamasse de volta. E, de certa forma, uma parte de mim ainda está lá entre o cheiro de café, o vento do Tejo e o brilho das luzes refletidas nas calçadas de pedra.