O continente australiano é famoso na imaginação popular por seus animais diferentes e perigosos. Muitas criaturas únicas vivem na região, incluindo o maior réptil do mundo, o crocodilo de água salgada, além de várias espécies de cobras venenosas, lagartos, cangurus e coala. Mas ainda que o mundo australiano moderno seja fascinante por ser único e diversificado, o local era ainda mais rico e estranho antes da era moderna. Muitos temem a Austrália pela quantidade de animais perigosos, outros a consideram irresistível, mas ambos os sentimentos seriam muito maiores se fosse possível ver os animais primitivos. No mundo até cerca de 50.000 anos atrás, no final da era do gelo, o continente era uma terra de animais que pareciam saídos de uma história de fantasia.
Hoje em dia os animais mais famosos da Austrália são os marsupiais. Um conjunto curioso de mamíferos sem igual no mundo. Ao contrário dos demais mamíferos do restante do planeta que gestam são filhotes no interior de seu corpo, os marsupiais dão a luz a suas crias em um estado muito precoce de desenvolvimento, o filhote então se move até a barriga da sua mãe onde encontra uma dobra de pele na qual pode se abrigar chamada marsúpio e ficará lá, protegido até terminar de amadurecer e poder viver livre.
Os dois principais marsupiais do mundo moderno são o Canguru e Coala, símbolos nacionais. Mas essas criaturas são na verdade bem menos impressionantes do que seus primos pré-históricos. Os coalas tinham como parente próximo o gigantesco Diprotodon, um animal majestoso que pesava quase 3 toneladas e tinha cerca de 4 metros de comprimento. Provavelmente o maior marsupial da história. Assim como os grandes animais modernos que vivem em outros continentes, os diprotodontes vagavam por planícies e savanas em busca de plantas para o seu consumo. Apesar de preferir viver em campos abertos pelo seu grande tamanho, alguns de seus primos menores preferiam locais como montanhas ou florestas como o Zygomaturus que tinha o tamanho de uma vaca e pesava 500 quilos.
Do mesmo modo que os Coalas, os cangurus também tinham parentes enormes que ocupavam os grandes espaços do continente. Entre eles estava o Procoptodon, o maior de todos os cangurus conhecidos. Chegava a pesar 240 quilos e era bem diferente dos seus parentes atuais. Ao contrário dos cangurus vivos que tem um focinho comprido, o Procoptodon tinha um nariz curto similar ao de um coelho e seu peso não permitia que ele locomovesse pulando, ao invés disso caminha nas patas traseiras similar às aves. Também não parecia se alimentar de grama e sim pegar a comida nos galhos das árvores.
Ele não era o único parente estranho dos cangurus no mundo antigo, outro ainda mais surpreendente existia esse era o Ekaltadeta, chamado de “canguru assassino”, pois ao contrário do restante de seus parentes era um predador ao invés de um herbívoro Não era um animal muito grande, tendo apenas cerca de 10 quilos e do tamanho de um cão pequeno. Entretanto era maior que boa parte dos seus parentes modernos, os ratos-cangurus que têm tamanho de pequenos roedores com apenas 23 centímetros de comprimento.
Mas a Austrália não era apenas uma terra de mamíferos, também possuía muitos tipos de répteis. Sendo um continente quente e seco, com enormes regiões desérticas, sempre foi muito convidativo para animais de sangue frio. Os répteis prosperaram com facilidade nesse mundo. Mesmo hoje os lagartos são de grande tamanho comparado a de outras partes do mundo. Essa vantagem era ainda maior durante a pré-história quando o maior lagarto que já viveu foi um dos predadores dominantes da Austrália. Hoje ele é conhecido pelos cientistas pelo nome de Varanus priscus, um parente distante dos modernos dragões-de-komodo da Indonésia, mas com um tamanho maior, chegando a 8 metros de comprimento e 500 quilos. Acredita-se que tenha sido o maior animal venenoso do planeta também, visto que seus parentes modernos também matam com a saliva venenosa.
Apesar disso, o Varanus enfrentava competição pelas presas do continente. Um dos seus principais rivais eram os crocodilos, mas não como os simples crocodilos modernos que permanecem nas águas esperando por suas presas. Eram animais muito maiores e mais ágeis, capazes de correr atrás de suas vítimas em terra firme, os crocodilos caçadores, chamados de Quinkana. Um dos predadores mais bem-sucedidos do continente australiano, existiu por mais de 20 milhões de anos e só foi extinto a alguns poucos milênios. Era uma criatura impressionante com 3 metros de comprimento e 200 quilos, além de mandíbulas fortes para atacar suas vítimas.
Não apenas répteis, mas também aves gigantes habitavam o continente. Uma delas era a Dromornis que chegava a ter 3 metros de altura e pesava 600 quilos, obviamente o animal não conseguia voar pela sua constituição feita para o solo. Possuíam um grande e forte bico, tinham uma dieta provavelmente herbívora constituída de folhas e frutas. Viviam em florestas próximas a lagos e rios que se espalharam por toda a Austrália. Apesar de serem aves enormes, não parecem ser parentes próximos das aves que vivem hoje no continente, como os Emus. Ao invés disso seus parentes mais próximos são patos e gansos que vivem em outras partes do planeta.
Fora os répteis e aves. Haviam também predadores mamíferos para competir pelas presas. Dentre eles o mais famoso foi o Thylacoleo carnifex, conhecido popularmente como leão-marsupial, sendo um provável predador dos Diprotodontes e Cangurus que ocupavam o ambiente. Ao contrário de outros predadores mamíferos presentes no resto do mundo, os Thylacoleo não tinha caninos grandes para perfurar as presas, contando ao invés disso com incisivos grandes e fortes para esmagar os ossos de animais, tendo na pata dianteira o polegar opositor com uma garra que permitia agarrar e perfurar suas vítimas. O que lhe facilitava lutar e subjugar animais muito fortes. Não era um animal tão grande, sendo do tamanho de um leopardo moderno, mas tinha uma constituição física muito forte e provavelmente pesasse como um leão atual.
Junto dos grandes predadores havia também caçadores de tamanho médio como o lobo-da-tasmânia, também chamado de tigre-da-tasmânia, devido às listras em suas costas. Eram animais extremamentes similares aos cães e que caçavam de modo identico apesar de terem um estilo de vida solitário diferente dos canídeos. Foram um dos últimos entre os grandes animais pré-históricos a desaparecer, ainda sendo encontrados na ilha da Tasmânia no começo do século 20, o último deles faleceu após uma vida em um zoológico fora da Austrália.
Apesar de sua enorme diversidade, a fauna da Austrália sofreu um duro golpe a cerca de 50.000 anos atrás, ainda que não se saiba ao certo o motivo, a data coincide com a chegada dos primeiros seres humanos ao continente, portanto a competição com os recém-chegados exploradores pode ter sido fatal. Os grandes animais foram desaparecendo em pouco tempo, os humanos trouxeram junto deles os dingos, predadores da família dos cães que ajudaram a prejudicar a fauna local, eventualmente substituindo os lobos-da-tasmânia como caçadores de cangurus.
Ainda que o evento tenha sido grave para os marsupiais e répteis, não foi o último golpe. Na era moderna os europeus chegaram ao local e novamente começaram a matar os marsupiais, desta vez vieram juntos dos humanos placentários como coelhos, raposas, gatos e ratos que rivalizavam com os pequenos animais da região, mas os europeus não se importam vendo os animais nativos como inferiores aos seus equivalentes placentários da Europa.
Grandes pragas de animais estrangeiros começaram a atingir o continente australiano, milhares de ratos e sapos começaram a causar o desaparecimento de rãs e pequenos marsupiais que estavam despreparados para competir com criaturas de outros continentes. Gatos e Raposas roubaram as presas dos predadores marsupiais que ficaram restritos a sobreviver em regiões afastadas. Apesar de todos os enormes estragos, parte da fauna australiana sobreviveu e continua sendo uma das mais ricas e diferenciadas do mundo, isso enquanto ainda luta para resistir mesmo após séculos sendo ameaçada.















