Ao planejar minha viagem pelos Bálcãs, sabia que encontraria uma região rica em história e cultura. No entanto, nada me preparou para a intensidade e profundidade de emoções que Sarajevo, a capital da Bósnia e Herzegovina, despertaria em mim. Esta cidade, situada no coração dos Bálcãs, é um verdadeiro mosaico de influências orientais e ocidentais, palco de eventos que moldaram o curso da história mundial e, ainda assim, uma cidade que erradia jovialidade e uma surpreendente capacidade de renascimento.
Ao chegar a Sarajevo, fui imediatamente arrebatada pela paisagem que circunda a cidade e pela arquitetura variada, refletindo séculos de dominação otomana, austro-húngara e, mais recentemente, os traços deixados pela antiga Iugoslávia. Caminhar por suas ruas é como folhear as páginas de um livro de história vivo.
Minha primeira parada foi em Baščaršija, o centro histórico e cultural de Sarajevo. Este bazar, estabelecido no século XV durante o domínio otomano, é um labirinto de ruas estreitas repletas de lojas de artesanato, cafés aconchegantes e mesquitas históricas. A atmosfera vibrante e colorida é acentuada pelo som dos comerciantes e pelo aroma do café bósnio sendo preparado. No centro da praça principal, destaca-se a fonte Sebilj, uma estrutura de madeira construída no século XVIII. Diz a lenda que quem bebe de sua água sempre retornará a Sarajevo. Eu, por garantia, bebi da fonte como quem sela um pacto para um futuro reencontro.
Ao explorar as ruas do entorno, encontrei um marco simbólico que resume a complexidade de Sarajevo: uma linha colada no chão, com o texto “Sarajevo Meeting of Cultures” (Sarajevo Encontro de Culturas). Essa demarcação indica o ponto exato onde o Oriente encontra o Ocidente. Deste ponto, ao olharmos para um lado, vemos construções otomanas que refletem a influência oriental, com minaretes e bazares.
Ao nos voltarmos para o outro lado da linha, vislumbramos fachadas neoclássicas e edifícios que remetem à tradição austro-húngara. A presença dessa linha divisória não é apenas geográfica, mas também histórica. Sarajevo testemunhou o domínio otomano por mais de 400 anos, seguido pela administração austro-húngara no final do século XIX e pelo Governo Socialista no século XX. Essa transição de poder deixou marcas não apenas na paisagem urbana, mas também na identidade cultural de seu povo.
Às margens do rio Miljacka, visitei a Ponte Latina, uma das construções mais emblemáticas de Sarajevo e um marco da história mundial. Foi exatamente na esquina ao lado da ponte, que ocorreu um dos eventos mais dramáticos do século XX: o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando da Áustria e de sua esposa, Sofia, em 28 de junho de 1914. O jovem nacionalista sérvio Gavrilo Princip, disparou tiros fatais quando o carro da comitiva imperial fez uma parada inesperada em frente ao local onde ele se encontrava. A tragédia, que teve origem nos conflitos nacionalistas dos Bálcãs, desencadeou uma reação em cadeia que resultaria na Primeira Guerra Mundial.
Estar ali, no exato ponto onde tudo aconteceu — sinalizado discretamente por uma placa no chão e por fotos da época na parede — foi uma experiência única. A simplicidade do cenário contrasta com o peso histórico do evento que ali aconteceu. A rua é bastante movimentada por pessoas e veículos, mas, por um instante, senti que o tempo havia parado.
Cenários naturais carregam consigo muitas histórias, mas precisamos estar abertos para ouvi-las e senti-las. Eu me deparei com as Montanhas de Trebević, pela primeira vez, em um dos lugares mais marcantes de Sarajevo: em frente à majestosa Biblioteca Nacional e Universitária da Bósnia e Herzegovina. Ali, diante daquela construção com fachada colorida em tons de areia e tijolo, meus olhos foram atraídos para além do rio, onde as montanhas de Trebević parecem dialogar com a Biblioteca sobre as histórias que presenciaram juntas ao longo dos séculos.
Aqueles que acompanharam as imagens chocantes da Guerra da Bósnia na imprensa internacional, podem se lembrar dos bombardeios pelas forças sérvias posicionadas justamente nas montanhas de Trebević. Em agosto de 1992, a Biblioteca foi o alvo. As chamas consumiram não apenas sua estrutura, mas também cerca de dois milhões de livros e documentos históricos. Uma tragédia cultural sem precedentes, que ainda hoje dói na memória da cidade. Eu fiquei paralisada diante da Biblioteca, imaginando os bombardeios vindos das montanhas. Felizmente o edifício foi reconstruído, mas o que se perdeu entre as chamas jamais será recuperado. Trebević sabe disso e parece se desculpar por ter sido palco do cerco de Sarajevo e pela cumplicidade na destruição daquela que sempre contemplou com reverência.
Mas Trebević também nos lembra que sua história não está associada apenas à guerra e à destruição. Um dos momentos mais marcantes dos Balcãs ocorreu em suas montanhas: as Olimpíadas de Inverno de 1984. Esse foi muito mais que um evento esportivo, foi um momento de orgulho nacional, visibilidade internacional e esperança de unidade em um país multiétnico.
Quando Sarajevo foi escolhida como sede, era a primeira vez que um país socialista não alinhado com Moscou sediava os Jogos Olímpicos de Inverno. A Iugoslávia governada por Josip Broz Tito se posicionava entre o Ocidente e o bloco soviético, e usou os jogos como uma vitrine para mostrar sua modernidade, hospitalidade e capacidade de organização. E conseguiu. Um entusiasmo coletivo é lembrado até hoje por quem viveu aquele período e narrado com orgulho por quem não o presenciou.
Os Jogos de 1984 marcaram também um raro momento de unidade entre os diferentes povos da Iugoslávia. Todos torcendo juntos, lado a lado, sob a mesma bandeira, em uma época em que ainda se acreditava na força da convivência entre etnias e religiões distintas. Era como se, por alguns dias, Sarajevo tivesse realizado o sonho da harmonia étnico-religiosa mundial.
Mas o contraste com os anos seguintes é brutal. Menos de uma década após o encerramento das Olimpíadas, a mesma cidade que foi símbolo de paz e integração se tornaria o epicentro de uma das guerras mais cruéis do Europa Moderna. Falar das Olimpíadas de 1984 é, de certa forma, contar uma das últimas grandes histórias felizes de Sarajevo antes da guerra — um capítulo que ainda brilha com força no imaginário da cidade.
As montanhas de Trebević transformaram-se para mim em um poderoso símbolo. A natureza exuberante que um dia serviu de palco para demonstração de unidade e, em outro, para destruição; é agora uma metáfora para a própria Sarajevo que, apesar das cicatrizes, continua de pé, olhando para o alto.
Alguns dias em Sarajevo me fizeram admirar aquele povo que fala uma língua indecifrável, mas se expressa com um sorriso que nos faz sentir em casa. Os bósnios vivenciaram momentos considerados como um dos mais cruéis da humanidade, mas não perderam a ternura.
Entre 1992 e 1995, durante a Guerra da Bósnia, Sarajevo sofreu o cerco mais longo da História Moderna, que durou 1.425 dias. As marcas desse período ainda são visíveis em muitos edifícios, com fachadas perfuradas por balas e estilhaços. Como a Bósnia é um dos países mais pobres da Europa, ainda não conseguiu se reconstruir totalmente. Ao caminharmos pelas ruas de Sarajevo e vermos prédios ainda destruídos por bombardeios ou cravejados por balas, a guerra parece ter sido ontem. E para muitos realmente foi.
Os bósnios fazem questão de não esquecerem o que viveram e, em alguns pontos da cidade, eu me senti congelada diante das “rosas de Sarajevo”, as marcas mais poéticas e dolorosas deixadas pela guerra. Elas sinalizam os lugares onde bombas caíram durante o cerco de Sarajevo, matando civis em mercados, nas ruas, nas portas de suas casas.
Após o fim do conflito, os buracos provocados pelas explosões foram preenchidos com resina vermelha, como uma forma de eternizar aquele momento. À primeira vista, parecem flores vermelhas estilizadas gravadas no chão. Mas ao saber o que representam, cada uma delas se transforma em um memorial silencioso àqueles que perderam a vida de forma tão brutal. Caminhar pela cidade e encontrar uma “rosa de Sarajevo” no asfalto é como tropeçar na História. Elas nos obrigam a desacelerar, a olhar para o chão como quem olha para o passado e lembrar que, naquele ponto exato, vidas foram interrompidas.
Não há placas chamativas, nem cercas. As “rosas” estão ali, no meio da calçada, inseridas no cotidiano de uma cidade que aprendeu a conviver com suas cicatrizes. É uma forma de luto coletivo transformada em arte urbana, em uma lembrança visível de que a guerra não está tão distante assim. Ao mesmo tempo, também falam de vida, pois Sarajevo segue florescendo sobre os destroços, com suas “rosas” simbolizando um gesto de memória e de renascimento.
Sempre que me via diante de uma dessas “rosas” – e são muitas pela cidade – eu pensava nas pessoas que morreram ali e me sentia mais próxima daquele povo.
A guerra da Bósnia é, sem dúvida, uma das páginas mais dolorosas da história recente da Europa e, para entender como tudo começou, é preciso voltar ao fim do governo de Josip Broz Tito, o líder que manteve unida, por mais de três décadas, a complexa federação da Iugoslávia.
Tito morreu em 1980, e com sua ausência, as tensões étnicas, religiosas e nacionalistas começaram a aflorar. A Iugoslávia era composta por seis repúblicas (Bósnia e Herzegovina; Sérvia; Eslovênia; Croácia; Montenegro e Macedônia) e várias etnias. Sem uma liderança forte e com o crescimento de discursos separatistas, o país começou a se fragmentar no início dos anos 1990.
A Bósnia e Herzegovina declarou sua independência em 1992, após um referendo apoiado pelos bósnios e croatas, mas boicotado pelos sérvios. O resultado foi o início de uma guerra brutal, marcada por cercos, bombardeios, limpeza étnica e crimes contra a Humanidade. Em Sarajevo, a guerra chegou com força total. Ficou sitiada por quase quatro anos, com franco-atiradores matando civis que circulavam pelas ruas e escassez de alimentos e água. Viver era um ato de resistência diária.
A guerra terminou em 1995, mas seus reflexos ainda são sentidos pela população. Visitei dois cenários impactantes que me transportaram à Iugoslávia dos tempos de Tito e dos tempos da Guerra da Bósnia.
O primeiro foi o Bunker de Tito, a cerca de 60 km de Sarajevo. Foi construído em segredo entre 1953 e 1979, durante o auge da Guerra Fria, para proteger Tito e a elite do governo iugoslavo em caso de ataque nuclear. Escavado a mais de 280 metros de profundidade, o bunker ocupa cerca de 6.500 m² e possui 100 quartos distribuídos em um labirinto de túneis e salas com estrutura para abrigar até 350 pessoas por seis meses. Caminhar pelos longos corredores do Bunker me fez compreender melhor o clima de tensão e medo da Guerra Fria. Hoje, transformado em museu e espaço de exposição de Arte Contemporânea, o Bunker me possibilitou uma experiência única.
Outra visita inesquecível foi ao Túnel da Esperança ou da Salvação. Este túnel foi construído secretamente entre março e julho de 1993, em plena Guerra da Bósnia. Ele ligava a cidade sitiada de Sarajevo ao território livre, passando por baixo do aeroporto, que estava sob o controle da Organização das Nações Unidas. Com cerca de 800 metros de extensão e 1,5 metro de largura, ele foi escavado manualmente por civis e soldados em condições extremas. Por ele passavam alimentos, água, medicamentos, armas, cabos de alta tensão para levar energia aos hospitais e, sobretudo, centenas de pessoas. Sarajevo não teria sobrevivo ao cerco sem o Túnel da Salvação.
Um trecho foi preservado no local onde antes havia uma casa que servia de entrada camuflada ao túnel. Transformado em museu, o espaço apresenta vídeos, objetos da guerra, mapas e fotos que nos ajudam a compreender a dimensão daquele esforço coletivo de construção e da realidade cotidiana daquela guerra. Pude caminhar pelo Túnel da Salvação e fui tomada por uma profunda admiração pela resiliência, força e coragem do povo de Sarajevo.
Os jovens da Bósnia, especialmente de Sarajevo, buscam olhar para o futuro, criar, dialogar, resistir e recuperar o espírito cosmopolita e de tolerância que sempre foram a marca da cidade. Em poucos metros de raio, encontramos uma mesquita muçulmana, uma igreja ortodoxa, uma igreja católica e uma sinagoga judaica, testemunhando séculos de coexistência pacífica entre diferentes comunidades. Sarajevo sempre cultivou um espírito de convivência que fez com que fosse chamada de “Jerusalém da Europa”. Essa harmonia, no entanto, foi brutalmente rompida nos anos 1990, quando a guerra fez brotar ódios, destruir laços e transformar a diversidade em motivo de conflito. As marcas desse trauma ainda estão presentes, mas percebi como buscam resgatar sua antiga alma e identidade plural.
Viajar para a Bósnia hoje é encontrar um país em reconstrução física, econômica e emocional. É testemunhar um povo que se recusa a ser definido apenas pela guerra, que valoriza sua cultura, suas raízes diversas, e que, apesar das dificuldades, ainda acredita em um futuro próspero e de convivência pacífica. É esse contraste entre dor e beleza, ruínas e renascimento, passado e futuro que torna Sarajevo tão comovente e apaixonante.
Minha jornada por Sarajevo foi uma montanha-russa emocional. A cidade é um testemunho vivo da capacidade humana de resistir, reconstruir e celebrar a vida com alegria, apesar das adversidades. Cada esquina, cada edifício e cada rosto conta uma história de dor, de esperança, de orgulho e de resiliência. Há lugares que não apenas conhecemos, mas somos transformados por eles. Sarajevo é um desses.