Esperemos que este ano, que ainda agora acabou de começar, seja mais simpático com as mulheres do que o anterior! Dois mil e vinte e cinco foi um ano cheio de polémicas contra a mulher, no estado puro e duro. A coisa andou mais ou menos calma até às eleições legislativas de maio de 2025 – esperemos que este governo leve a legislatura até ao fim, já ninguém pode com eleições antecipadas –, mas depois com o novo (o mesmo) governo de Luís Montenegro instaurou-se uma verdadeira propaganda contra as mulheres.

Começamos logo bem com os zunzuns dos que se dizem pró-vida e antiaborto a dizerem que queriam mexer na lei. Desculpem-me a sinceridade, mas já ninguém vos aguenta com essa lengalenga de que a mulher que faça um aborto está a matar um ser um humano. É certo que cada um acredita naquilo que quer ou naquilo que lhe vomitam aos ouvidos, mas não me cabe em pleno século XXI virem-me dizer que querem regredir nos direitos, que tanto custaram a ser alcançados. Ainda por cima, direitos das mulheres, que a seguir aos idosos e às crianças, são os elos mais fracos da sociedade. Um homem não pode conceber uma criança, mas se pudesse este assunto nem sequer era pensado, quanto mais discutido!

A lei, a manter-se, vai fazer no próximo ano 20 anos. Andamos praticamente há 20 anos a discutir o que, a meu ver não tem ponto de discussão nenhuma. O aborto é um direito que qualquer mulher deve e pode usufruir, independentemente, do que os homens achem ou pensem. Sim, porque esta ideia absurda de revogar o direito ao aborto tem partido de mentes pequeninas de homens que muito provavelmente não sabem o que é ser mulher. Para o bem ou para o mal. Não sabem o que o implica ter um ser a ser formado dentro deles, saber que a qualquer momento pode acontecer alguma coisa – durante 9 meses a mãe vive com o coração nas mãos com receio de que aconteça algo de mal àquele ser indefeso.

Também não sabem qual é o sentimento, o significado de uma mulher se tornar mãe, porque perdoem-me os ignorantes, mas os homens só se tornam pais a partir do momento em que o bebé nasce. A mulher transforma-se em mãe no momento em que sabe que está grávida. Não sofrem com alterações das hormonas durante aquele período, que por conseguinte, altera o humor e por aí fora... Assim com as demais preocupações inerentes à preparação do parto, das coisas do bebé (quarto, roupa, acessórios, etc). Não digo que todos os homens coloquem toda esta responsabilidade em cima dos ombros da mulher, mas entendedoras, mulheres, sabem que as decisões importantes partem sempre da mulher. Tratando-se da chegada de um bebé ainda mais!

E sabem que mais, não é por revogarem o aborto em Portugal que vai deixar de haver abortos. Muito pelo contrário. Em 2024, a Direcção Geral de Saúde (DGS) registou um aumento significativo do número de abortos realizados, cerca de 17 mil, mais 3% do que em 2022. Ora, se assim, com todos os cuidados e medidas que são impostas para a realização de uma interrupção voluntária da gravidez (IVG) vamos nesta ordem de grandeza. Ao impedirem a IVG legalmente, isso de nada vai impedir as mulheres de o realizarem: arranjam outras formas de o fazer, ilegalmente, pagando, correndo riscos desnecessários tudo porque pessoas com uma mente muito pequenina acham que as mulheres não devem poder mandar no seu próprio corpo. Desde quando? A mulher deve sim mandar no seu próprio corpo e fazer com ele o que bem quiser e entender. Ninguém tem nada a ver com isso.

Como querem que a mulher tenha filhos se nem o país lhe dá condições para tal? Pois... Agora, os machos sabichões perdem o pio. Perdi conta ao número de notícias que vi onde havia mulheres a dar a luz em ambulâncias, porque as urgências de ginecologia e obstetrícia estão, constantemente, fechadas por este país fora. Caros governantes, em especial Srª Ministra da Saúde, assim não há mãe nem bebé que aguentem, quanto mais queira nascer neste país. Mas esperem, isto ainda fica melhor, para os nossos, que deixam no país o dinheiro dos seus impostos não há condições, mas para os estrangeiros há tudo e do melhor – de tal forma que vêm para o nosso país ter os seus filhos. A máxima é de simples entendimento: se há para uns tem de haver para todos! Só que este país não é para todos, é só para alguns e com dinheiro nos bolsos, de preferência.

Outra das polémicas que se instaurou contra as mulheres foi a amamentação. Veio a Srª Ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social toda perentória dizer que pretende acabar com os abusos no que respeita ao trabalho, nomeadamente, no que diz respeito às mulheres que amamentam e, que por isso têm horário reduzido. A ministra não considera normal que uma mãe amamente depois de a criança fazer dois anos. Em primeiro lugar, não será preciso ser um entendido para saber que o leite materno é melhor do que qualquer outro, além dos nutrientes de que dá à criança e para a própria mãe, há um laço afetivo que se cria entre ambos. Além disso, se a mãe tem leite porque é que não haveria de amamentar?

Se pode fazer bem ao seu filho vai fazer mal porque alguém se lembrou, que em muitos dos abusos que existem no nosso país, este é o mais flagrante?! Tenham dó. Há por aí tanta gente a fazer falcatruas e com bons “tachos” e nos lugares errados, que se fartam de “mamar” – passo a expressão – e ninguém lhes faz nada. Além de que, a Srª Ministra veio afirmar tal coisa sem apresentar valores. Baseou-se em quê para afirmar tal coisa? Depois, uma coisa é acabar com os abusos, não digo que não os existam, mas outra coisa bem diferente é fazer pagar quem não tem culpa nenhuma pelos abusos e más condutas dos outros. Os bebés e as crianças, bem como as mães, não têm de pagar pelos erros e incompetência dos outros.

Posto isto, deixem as mulheres em paz. Deixem-nas usufruir dos seus direitos e do seu corpo da forma que entenderem. Porque sim, ainda que não pareça, a mulher é dona do seu corpo e livre para fazer o que quiser. Em vez de andarem a propagandear polémicas contra as mulheres, deem condições às que querem formar família neste país cada vez mais ingrato com o seu povo.