Cresce de tempo em tempo um movimento pouco comum envolvendo crianças que empurram cadeirantes pelas artérias da cidade de Maputo, principalmente na avenida Julius Nyerere. Não é preciso buscar muito para encontrar, de semáforo em semáforo, crianças que deambulam para pedir esmola.

Este cenário está sendo normalizado ao olhar impávido das autoridades que nada fazem para acabar com este fenómeno que entristece e traz ao de cima a nossa incapacidade de responder aos problemas de natureza social. Este fenómeno deixa as crianças numa situação de vulnerabilidade e perigo, pois, sempre que o semáforo fecha em sinal vermelho elas empurram um cadeirante adulto para pedir esmola e quando o semáforo abre o sinal verde elas saem da estrada para o passeio esperando pelo sinal vermelho fechar novamente para poder entrar na estrada.

Este é um comportamento que acabou se tornando uma rotina de trabalho e atenção para estas crianças. Estas crianças tem a vida e a infância interrompida com esta caminhada tortuosa que as obriga a, no lugar de ir a escola e brincar com outras crianças, e estender os laços de socialização, têm sua vida hipotecada por estes momentos na estrada da vida adulta e da inconsciência dos perigos que as estradas ostentam. Estas crianças são obrigadas por quem quer seja a empurrar o cadeirante de casa para os pontos da cidade para pedir esmola ao custo do perigo, as estradas estão transformando uma criança em adulto prematuro com consequências psicológicas de trauma pela infância descontinuada nos semáforos da cidade.

O país tem instituições do Estado que lidam com a assistência social mas pelos vistos nenhum deste canais ou instituição é capaz de dar uma resposta a este cenário triste. Por outro lado temos também muitas organizações da sociedade civil que gerenciam projectos de assistência social e de área especificamente ligadas a crianças, mas também nada acontece. Há também ONGs ligadas a varias áreas que tem projectos sociais ligados as crianças e não se vê nenhuma solução a vista, estas crianças estão entregues a sua sorte até que um dia apareça uma viatura desgovernada que lhes atropelem para que se desperte para uma reflexão em torno deste fenómeno.

Todos sectores da vida são chamados a uma profunda análise e reflexão sobre isso, não se pode deixar que as nossas estradas sirvam de uma jardim de infância para as nossas crianças, há uma necessidade de que os assistentes sociais e demais sectores se entreguem a este trabalho abnegado de fazer um inquérito de base a partir de casa de origem destas crianças para se perceber efectivamente o que lhes leva a empurrar esse cadeirante adulto em direcção à cidade para juntos pedirem esmola. Pois com a resposta em mãos seria um momento de se criar condições para esta família poder ter um mínimo para o seu sustento de modo que este menor não seja submetido ao trabalho infantil e perca suas chance de poder estudar e se tornar alguém na vida.

A escola é o único caminho para que esta criança não se torne num criminoso formado nas nossas estradas por culpa nossa, é preciso ensinar às pessoas que existem centros e locais para pessoas carenciadas terem acesso aos recursos de sobrevivência, pois, a estrada só oferece perigo de morte, aos automobilistas vai uma chamada de atenção, o que faz com estes meninos se concentrem em alguns pontos da cidade para pedir esmola, é a disponibilidade que estes automobilistas mostram em dar esta esmola sem olhar nestes perigos que estas crianças correm ao perseguir os veículos para receber a esmola se por ventura o semáforo abre o sinal verde antes ter a moeda em mão.

Os automobilistas devem parar de dar esmola a estas crianças, que canalizem esses recursos nos centros recomendados, para acabar com este fenómeno nas nossas estradas que só periga a vida destas crianças. É difícil circular em Moçambique sem encontrar um mendigo pelas ruas e cidades da capital e na maior parte da vezes são crianças acompanhadas por adultos ou sozinhas que deambulam de semáforo em semáforo, a procura de alguém de boa vontade que possa doar moedas para comprar pão ou alguma refeição.

As desigualdades sócio-económicas, muito acentuadas em Moçambique, deram espaço para o surgimento de uma classe de indivíduos desfavorecidos que procuram todas as formas de sobreviver a esta asfixia económica e uma pobreza que aumenta dia pós dia, pois as políticas públicas não são eficientes ao ponto de trazer soluções concretas que possam eliminar ou reduzir os índices de desigualdades socio económica que perigam o tecido social moçambicano. Estes mendigos de hoje são os delinquentes do hoje, ou do amanhã, a luta pela sobrevivência cria desafios por superar, ou se vive para lutar, ou se morre lutando para o objectivo de ambos e o bem-estar socio económico para todos de forma eficiente e equitativa.