A utopia ignorante de que o psicólogo soluciona problemas é uma das mais difundidas em nossos tempos. O discurso capital de que precisamos entregar resultados, a partir de métodos científicos que comprovem a eficácia de algo, considerando também o desempenho e a competitividade em um mercado acirrado, já faz parte do cotidiano dos psicólogos.
Se por problemas estamos falando de sofrimento psíquico, pode-se compreender que a própria negação do sofrimento é um dos fenômenos da sociedade contemporânea, como aponta Lipovetsky (2007). Nela, as pessoas valorizam o prazer em detrimento da dor, buscando a felicidade e o bem-estar como pontos de equilíbrio. Cabanas e Illouz (2022) problematizam essa busca ao destacarem o termo "happycracia" para descrever como a procura pela felicidade se torna uma obrigação moral e social, impulsionada pela indústria capitalista.
Nesse contexto, procurar um psicólogo para “solucionar” o sofrimento é parte dessa busca. Psicoterapia, avaliação psicológica, diagnóstico e medicalização psiquiátrica aparecem como caminhos para alcançar esse “bem-estar”. No Brasil, a lei que regulamenta a profissão de psicólogo define como função privativa a “solução de problemas de ajustamento”. Ou seja, socialmente, espera-se que o psicólogo resolva problemas e leve o indivíduo a um ajuste, aplicando métodos, técnicas e instrumentos com eficácia..
Mas isso levanta questões: é possível ao psicólogo solucionar o problema de alguém? Se não conseguir, seria ele falho em sua função? Ajustamento a quê? Para quê?
Esse discurso lembra mais a lógica das máquinas do que, de fato, a existência humana. Heidegger (2008) chamou sua época de “era da técnica”, marcada pela tentativa de controlar e manipular a natureza e tudo o que é misterioso (Clini, 2021), ou seja, aquilo que ainda não conhecemos, algo profundamente atual. Nesse contexto, o tecnicismo neoliberal valoriza produtividade, desempenho e resultados: afinal, é o que se espera de um psicólogo.
Na era do tecnicismo, impulsionada pela sociedade neoliberal, em que as relações de trabalho são marcadas pela performance "happycrática", o sofrimento humano é passível de ser solucionado por um psicólogo? Quanto ao ajustamento, é trabalho do psicólogo ajustar alguém que sofre à sua realidade? Essas perguntas revelam a ironia cruel do discurso capitalista.
Permito-me a autoria da discordância: à existência de alguém não cabem soluções. Problemas fazem parte da nossa existência, mas não são dados objetivos a resolver, como um cálculo matemático. São situações em que nós nos encontramos e com as quais lidamos, seja lá de que forma for. Por isso, não há manuais nem roteiros; há o sujeito livre, em situação com seu projeto, como diria Sartre (1997).
Sendo assim, o psicólogo não soluciona problemas. O contrário é pura ignorância — para si, para o outro e para a sociedade. Os problemas humanos não deixam de existir; escapam às mãos. A existência de uma pessoa é movimento, constante invenção de si mesma. Basta estar vivo.
No entanto, a crítica não invalida a busca ou a importância da procura pelo psicólogo em busca de suporte emocional, nem o trabalho do psicólogo. A questão é como isso é feito: cada existência é singular, assim como o sofrimento humano. Não cabe ao psicólogo reduzir isso a uma normatização técnica, com um passo a passo a ser seguido e o sujeito, ajustado à realidade.
Nem tudo está à deriva: é possível ao psicólogo o desvio dessa ideia normativa ao criar espaços de escuta e reflexão profunda sobre a existência histórica de cada pessoa. Nesse caso, haveria uma intencionalidade que não se dirige à solução de algo, mas em direção a um “algo”, pois a consciência é sempre consciência de algo, como disse Husserl (1996), isto é, do que é novo.
Ao desviar-se de uma intencionalidade determinada a solucionar o problema do outro, é possível ao psicólogo acolher, escutar e favorecer para que o outro possa, em seu próprio tempo, tornar-se consciente desse “algo”, permitindo que assuma seu posicionamento diante de sua existência.
Não cabe apontar certo ou errado. A vida é indeterminável, um fluxo aberto ao devir que não temos como prever, sendo, segundo Sartre (2014), a existência anterior à essência. Existimos antes de nos definirmos. Assim, nos resta a responsabilidade de sustentar o que estamos sendo, desviar-nos disso, parar no tempo ou encontrar outras possibilidades para lidar com nossos modos de ser, que não são únicos.
Isso independe de abordagem teórica: é necessário o engajamento ético-político para combatê-las. Em atendimentos, pude contribuir em processos de conscientização diversos: desde pessoas que não compreendiam suas crises de ansiedade, quanto outras que desconheciam seus direitos trabalhistas em ambientes de trabalho adoecedores. Não couberam ajustamentos, mas favorecimento ao estranhamento, à criação, à experimentação e ao rompimento com os moldes impostos pela sociedade e por outras pessoas.
E isso não significa que o trabalho do psicólogo promova um desajustamento: é possível incentivar a reflexão e a descoberta de novas possibilidades de pensar, sentir e agir. É necessário sair do ordinário, do normativo e do simplista para descobrir coisas que ainda não sabemos. Tomar consciência é um processo, e nem sempre é rápido.
Não vou, e nem quero, dar soluções a ninguém sobre a própria vida. Em vez de tirar o problema das mãos de alguém, busco colocar o ser da pessoa em suas próprias mãos (Schneider, 2011), propiciando a tomada de consciência, responsabilidade e autonomia em situação e singularidade, para que os sujeitos possam se engajar na própria vida.
No fim, cabe a quem é psicólogo perguntar a si mesmo: minha prática protege e promove a liberdade do outro ou reforça o ajustamento à normatividade?
Referências
Cabanas, E.; Illouz, E. Happycracia: fabricando cidadãos felizes. Tradução de Humberto do Amaral. São Paulo: Ubu, 2022.
Clini, M. M. O perigo do excesso de racionalização na práxis clínica: um olhar fenomenológico-hermenêutico. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 27, e47672, 2022.
Heidegger, M. A questão da técnica. In: Heidegger, M. Ensaios e conferências. Tradução de E. C. Leão, G. Fogel, M. S. C. Schuback, pp. 11-38. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008. (Trabalho original publicado em 1954).
Husserl, E. Investigações Lógicas: 6ª Investigação. São Paulo: Nova Cultural, 1996.
Lipovetsky, G. A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
Sartre, J. P. O ser e o nada: ensaio de ontologia fenomenológica. Trad. de Paulo Perdigão. RJ, Vozes, 1997.
Sartre, J. P. O existencialismo é um humanismo. 4. ed. Tradução de João Batista Kreuch. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.
Schneider, D. R. Sartre e a psicologia clínica. Florianópolis: UFSC, 2011.















