Conversar aquece o peito e convida a mais conversas, a outros assuntos, e insights sobre temas que se repetem. É raro hoje uma conversa longa e despretensiosa, assim como tomar um café com bolo recém-saído do forno, sem se sentir culpado. Papear sobre a vida, planos e memórias, bem como a atenção genuína àquele que de alguma forma preza pela sua amizade, carinho ou atenção deveria não ter se tornado artigo de luxo, para bem poucos.
O tempo urge, a vida está corrida e o desânimo para com nossos semelhantes é gigante, sendo esse um dos fatores para o “enlouquecimento” de indivíduos mecanizados e distantes. Absortos em suas entregas e perdidos em seu formato mais humano, a superficialidade nas interações faz crescer montanhas de distanciamento social e o prazer de estar com o outro beira o abismo. Com isso a sociometria dos grupos é capaz de identificar hiatos enormes e nós que não desejam ser desatados.
A necessidade com o “material” é infinita e a essência perdeu-se nas cópias e comparações, ao ponto dos algoritmos de plantão e sempre ativos induzirem a mensagens, e ferramentas de autoajuda umas após outras na tentativa de suplantar o ter pelo ser.
O desejo quer ingenuamente enamorar a vida, mas a pronta informação é que acabou o tempo. Por sinal as fases da lua nos provocam ao romantismo. E romantizar o desejo parece fora do tempo presente, mas talvez seja uma forma de não perder totalmente a docilidade de um encantamento, um suspiro de inocência, como se uma brisa leve te lembrasse que você ainda está vivo.
O pulso que ainda pulsa é quente, vibrante e sedutor, e seu batimento anda muito longe dos vagarosos passos que são dados em prol de acompanhá-lo. Triste realidade que nos afasta de ebulições tão saudáveis, que nos deixam mais inteligentes e vibrantes.
O corpo reclama descanso e os compromissos nos obrigam a atos quase heroicos. O não fazer sempre é visto como um desvio, coisa ruim, parece que momentos de nada e do não fazer sempre te deixará menos pertencente, sem sintonia com uma sociedade programada.
O gosto por encontros tórridos e apaixonados são impossibilitados pelos desencontros, então o corpo, ele mesmo se esgota e tenta expelir aquilo que se engole na opressão, na dureza da vida, naquilo que pouco tomamos consciência, que estamos repetindo ou que não temos coragem para mudar.
Se a vida fica menos doce, o corpo acha um jeito de produzir mais açúcar, que geralmente é um perigo, como uma bomba relógio fazendo tic tac.
O pedido de socorro solitário em busca de viver outros roteiros, ou ainda, não viver os mesmos, está sempre presente em nossa cabeça, no pensar e no sentir, mas de forma passiva, e nunca como uma ação protagonizada pela coragem de ser menos normal.
Se algo frustra, logo instala-se uma gripe que nos faz passar dias intermináveis na cama.
Se não nos posicionamos, emitimos nossa opinião, ou estamos presentes, encontramos uma espécie de culpa e com ela produzimos enxaquecas absurdas. Ao engolir calados aquilo que desce rasgando e machucando, certamente fará doer o estômago. Se algo incomoda ou é desconhecido, a coceira por todo corpo se torna incessante.
Se a situação se torna insuportável é o próprio ar quem some tornando a respiração miúda e aflitiva. Acontece uma espécie de colapso, que diminui a oxigenação e torna tudo restrito, sofrido. O mundo se torna abafado demais e algo atravessa o corpo e prende a ação.
Que bagunça está essa vida de adultos e novos velhos! Um momento único onde ao envelhecer descobrimos que tem mais meia metade de vida para ser vivida, e como conduzi-la, ainda é assunto em processo.
A falta de espontaneidade, imaginação e criatividade fazem morrer a paixão por relacionamentos gentis, intimidades compartilhadas e não espionadas. Há algum tipo de pecado e julgamento, que me escapa a compreensão para esse modelo de vida adotado. Principalmente se vivemos sob duras regras morais e sociais.
Não temos conseguido nos comunicar, interagir, abraçar causas, cuidar de nós mesmos e muito menos dos outros ao nosso redor. Entramos numa cápsula muito perigosa, estreita, individualista e menos congregadora, onde cabe apenas um e nada mais.
Fico pensando o que impede os indivíduos de iniciar um passo de dança mais engraçado, saltitante, leve, alegre e cheio de graça, ou mesmo ter o direito de cair, e rir de si mesmos. Que haja a capacidade de improvisar, aventurar e experienciar sem medo de ficar para trás ou não seguir um fluxo ditado e editado. Na dança, é possível encontrar paz na melodia, respostas nas letras profundas e alegria ao girar consigo mesmo.
Que chato esse humano que não se emociona e busca respostas antes mesmo de digerir a pergunta. Sem emoção seguimos todos sem brilho no olho e frio na barriga. Ao invés de elaborar perguntas mais profundas, corremos a encontrar respostas superficiais que rapidamente nos fará virar a página.
Não pessimista ou otimista demais, a realidade nos leva a perceber um momento muito denso carregado de duras contradições e adoecimentos de toda ordem. Uma preocupação constante com o amanhã sem se quer concluir o dia de hoje, que na verdade é tudo que temos.
Nos vemos já! já!















