Entre a promessa de uma democracia digital e o peso de sua própria efemeridade, a net.art inscreveu-se na história como um experimento estético do inacabado — talvez o mais fiel retrato de uma época em que a arte e a tecnologia aprenderam a desaparecer juntas. Desde que Vuk Cosic, em 1995, tropeçou na palavra "net.art" em um e-mail corrompido, o termo passou a nomear um campo que expandiu a noção do que poderia ser arte.

Mas como falar hoje dessa experiência artística em rede? O que restou de suas promessas de democracia estética, de suas tensões com o mercado e de sua materialidade sempre em fluxo? O desafio crítico é situar net.art para além da nostalgia, ou seja, como campo que ainda pode pulsar, capaz de nos ensinar sobre o presente em que algoritmos e interfaces moldam o fazer artístico e a vida social.

A net.art — como o próprio nome sugere — é uma forma de arte concebida na e para a internet. No Brasil, ninguém prefigurou esse impulso com maior lucidez do que o artista Waldemar Cordeiro, que, já nas décadas de 1960 e 1970, via nas novas mudanças tecnológicas uma via de fuga às amarras da arte tradicional, ainda presa ao fetiche do objeto físico. Sua visão antecipava a possibilidade de uma poética fundada na circulação e no acesso ampliado à arte, princípios que mais tarde se tornariam centrais para a net.art.

Essa perspectiva dialogava, em diferentes graus, com artistas internacionais como Roy Ascott e Nam June Paik, com os experimentos visionários de Lucio Fontana e até mesmo com o espírito iconoclasta dos dadaístas berlinenses, que já haviam intuído, décadas antes, a comunicação à distância como matéria artística legítima.

Nos anos 1990, o clima era de uma euforia quase messiânica. A internet surgia como promessa de igualdade, experimentação e liberdade, em um mundo que, no pós-Guerra Fria, buscava novas formas de circulação da informação. A Documenta X (1997) ofereceu então uma consagração breve, mas significativa, à net.art. Contudo, essa visibilidade trouxe à tona sua contradição mais aguda: um projeto que se anunciava antissistêmico dependia, paradoxalmente, das mesmas instituições e curadorias que pretendia subverter.

Dez anos depois, o mundo foi abalado pelo 11 de setembro de 2001, e a internet, outrora um espaço de liberdade, transformou-se em um território de vigilância. O software de código aberto, antes celebrado, passou a ser encarado com desconfiança, e a net.art mergulhou num grande ostracismo institucional. Ainda assim, seu legado se metamorfoseou em práticas como a pós-internet e, mais recentemente, em trabalhos com inteligência artificial.

A net.art, em sua essência, reside num paradoxo. Ela é imaterial, mas se manifesta no fluxo concreto de dados; é efêmera, mas se fixa na memória coletiva; é interativa, mas sempre subserviente a códigos pré-existentes. A essência de suas obras, por sinal, reside numa estética da transmissão, onde diferenças de conexão, navegadores e máquinas se tornam parte da experiência.

Aqui a interatividade assume um papel central, diferenciando-se de formas mais tradicionais e passivas. Nela, o público vai muito além do simples ato de clicar, tornando-se um agente ativo que co-cria, manipula e intervém diretamente nas obras. Projetos como The File Room (1994) de Antoni Muntadas e ChainReaction(1997) de Bonnie Mitchell exemplificam essa filosofia. A interatividade na net.art busca, portanto, uma relação comunicacional recíproca, subvertendo a linearidade e abrindo espaço para novas narrativas e experiências imprevisíveis para cada indivíduo.

O Brasil teve papel decisivo nesse campo, ainda que menos visível em narrativas eurocêntricas. O já citado Waldemar Cordeiro antecipou a internet como ambiente da arte; o coletivo Re:combo propôs a remixagem como gesto crítico e colaborativo; Klacius Ank Guarino, em Evolution, tensionou o imaginário do progresso mostrando armas como índices da “evolução” social; Spectrogirl, em Belo Horizonte, construiu uma obra poética marcada pela linguagem visual da web, já nos anos 2000.

Esses artistas não podem ser vistos como meros reprodutores da net.art global, pelo contrário, eles a conceberam a partir de experiências locais de precariedade tecnológica, desigualdade de acesso e imaginários culturais próprios. No Recife, a lógica de remix do Re:combo dialogava com a tradição do manguebeat. No trabalho de Spectrogirl, o experimentalismo gráfico refletia tanto o improviso técnico quanto a inventividade da cena digital brasileira.

Apesar de sua perspectiva local, a net.art não se desvencilhou das contradições inerentes ao seu próprio meio. De um lado, a democratização e a acessibilidade da internet permitiram a qualquer indivíduo com uma conexão criar e disseminar sua obra, desafiando a hierarquia tradicional do mundo da arte. Por outro, essa liberdade foi rapidamente tensionada pelo risco da assimilação institucional, que enquadrou as práticas rebeldes no circuito artístico convencional e, com isso, minou a sua rebeldia original.

Também as questões de autoria e copyright se tornaram centrais. Ao borrar fronteiras entre cópia e original, entre criador e usuário, a net.art expôs o anacronismo das categorias jurídicas herdadas da era material. Projetos como o de Shulgin ou as cópias irônicas do coletivo 0100101110101101.ORG tensionaram diretamente o sistema da propriedade intelectual. Já no Brasil, o Re:combo elevou essa discussão ao reivindicar o remix como prática cultural legítima.

Que papel resta hoje para net.art? Sua obsolescência tecnológica é inegável: obras em Flash tornaram-se inacessíveis, e os links quebrados condenaram ao esquecimento o passado digital. Será esse desaparecimento parte de sua estética?

Falar de net.art é falar de uma estética do inacabado, da impermanência e da experimentação. Suas obras resistem a critérios tradicionais de valor porque se apoiam justamente na fragilidade da rede e na instabilidade tecnológica. Nesse sentido, são espelhos do presente: também nossas subjetividades são moldadas por algoritmos voláteis, por identidades digitais fragmentadas, por dados que circulam incessantemente.

A crítica contemporânea deve, portanto, aprender com a net.art. Não se trata de celebrar nostalgicamente uma era heroica da web, mas de reconhecer em sua precariedade as marcas de um pensamento radical sobre arte, sociedade e tecnologia. E, sobretudo, de revalorizar contribuições que, como as de Re:combo, Klacius ou Spectrogirl, mostram que no Brasil também se pensou, desde cedo, a arte como rede de conexões instáveis, críticas e vitais.