Fala, pessoal. Hoje começamos um quadro novo na qual eu trago textos escritos pelos meus estudantes. Hoje dou espaço para ela: Júlia Melo Viana1, de 18 anos. É minha aula do cursinho no Colégio Centro Educacional Mário Rabelo (CEMAR), em Contagem, Minas Gerais. Abrindo alas, esse é o texto que ela escreveu pra a Olimpíada Nacional de Filosofia de 2025.
A moral é uma questão amplamente estudada pela filosofia, mas que gera incerteza quanto ao seu comportamento na sociedade toda vez que é analisada. Segundo a Genealogia da Moral, Nietzsche, a moral é interpretada a partir dos fortes, que dão a ela um significado e a mudam conforme a necessidade.
Um exemplo é a queda da religião romana, devido à ascensão do cristianismo e aceitação por parte dos imperadores, pela vontade de se manter no poder. O que nos leva a questionar qual é a verdadeira moralidade e até onde nós fomos manipulados?
A princípio, vamos debater sobre a moralidade. Conceito criado a partir das facetas da natureza humana, baseadas no espírito apolíneo, representação da harmonia, racionalidade e ordem, e no espírito dionísico, que é a transgressão, alegria e excesso.
Hoje em dia, essa ideia criou a definição de liberdade e libertinagem, conceituações que apesar de sinónimas são imprescindíveis para a correlação entre os seres humanos, pois a liberdade parte da não influência negativa do outro sobre o outro, enquanto a libertinagem é fruto da irresponsabilidade que pode prejudicar a todos até mesmo o libertino.
Como vimos a moral se define a partir de qual conceito ela irá seguir e quem define por ela o que é o certo e o errado, por isso vimos a diferentes interpretações nos seus estudos. Por exemplo, se tem as definições de Nietzsche e Kant.
O que Nietzsche fala da moral?
Nietzsche fala sobre uma moral ligada aos princípios da igreja, ou seja, da crença em Deus. Em seus estudos ele desenvolveu dois tipos de moralidades: a dos senhores e a dos escravos, que levam esse nome por uma metáfora com os sentimentos e os tipos de valores que as pessoas carregam consigo mesmo.
A moral dos senhores leva a vontade de potência, que é o impulso de querer conquistar, ter força, saúde, ser exigente consigo mesma e crer em Deus, já a moral dos escravos é aquela em que a pessoa é fraca, insegura, não crer em Deus, mas se esconde por detrás da compaixão, altruísmo e confiança.
Outro aspecto desenvolvido por ele é o niilismo, atitude que desconsidera o que não for útil e não tiver sentido, também visto como a falta de crença, que é para onde a sociedade está se movendo uma vez que a ciência está tomando o lugar da religião.
O que Kant fala da moral?
Kant fala sobre uma moral baseada na razão e universalismo absolutista. Desenvolvendo uma lei universal que fala sobre a máxima da moral, que exprime a arrogância e amor próprio, princípio primordial da moralidade. Um conceito elaborado por ele foi do solipsismo, inclinações naturais humanas em satisfazer a si próprio, em outras palavras, para ele a moral é egoísta uma vez que nós somos os únicos ser livres e nossa felicidade é o critério absoluto.
Além disso, para Kant o sentimento sensorial condiciona as inclinações, o que leva a um sentimento de respeito à lei moral e combate o solipsismo, isso faz o ser humano reconhecer a falta de valor dos seus interesses. Esse circuito criado por ele é o que cria a moral social onde o respeito “mata” o egoísmo, mas esse move as ações da razão.
Após o exposto, voltamos à pergunta: qual a verdadeira moral? Qual devemos seguir? Em ambos os estudos tudo que se afirma é que quem faz a moral é a situação em que você se encontra e em o que você acredita, seja igreja ou ciência, então não é necessário uma escolha, só agir de acordo com o que fizer sentido para você.
Mas sempre tem quem vai impor uma moral que deveria ser seguida a ferro, como o caso de grandes reis, imperadores ou até mesmo religiões, o que leva à segunda pergunta deste ensaio: até onde fomos manipulados?
Um exemplo é a Alemanha nazista, aonde os sovietes inspirados pelos discursos preconceituosos de Hitler, pegam em armas para reconstruir seu país, que foi humilhado e devastado na 1° guerra mundial. Para aqueles que estavam na época era como se estivessem agindo de acordo moralmente, pois visavam reerguer seu país e acabar com as crises internas.
Esse sentimento que foi se espalhando pela população foi o impulsionador de um moralismo errado, mas visto como o certo, por causa das situações que muitos passavam como fome, miséria, crise econômica populacional, entre outras causas que fizeram com que os ideais distópicos, fossem moralmente aceitos pela sociedade.
Outro exemplo mais atual, são os bolsonaristas que utilizam-se do lema “Deus, pátria e família” para disseminar os ideais que os convém. Usando da manipulação dos textos sagrados para que uma grande parcela da população os ouça e sejam convencidos de que aquilo que elas pregam é o melhor para nós e por isso devemos seguir o que é falado por elas, sendo vistos hoje em dia como um perigo para a democracia, após o atentado de 08 de janeiro de 2023.
A moral pregada por eles é uma em que as discrepâncias entre ricos e pobres fica cada vez mais alta, mesmo assim detém uma parcela significativa dos brasileiros que apoiam essa moral, por quererem ser salvos pelo Deus, que foi manipulado para que os atos cometidos por eles sejam hiper normalizados.
Em conclusão, nós vimos que a pluralidade da moral vem de dentro e do exterior. Apesar de que a moral ainda seja algo complexo para os filósofos, ao juntar as situações externas e internas dos indivíduos, temos um compilado de ações que moldam a moral.
Ao vermos como a moral pode ser facilmente moldada e que mesmo que haja uma noção única de certo e errado, somente você pode dizer o que é moral para você. Mas tem que se ter que como animais sociais sempre estaremos suscetíveis ao poder que uma pessoa externa, uma vez que tiver isso em mente somente terá que pensar até onde você se deixará ser manipulado pelos mais fortes.
Nota
1 Aproveita e segue a Júlia!















