Para Marcos, Tatiana. Para Leandro.
A pesquisa pioneira de Mário da Silva Brito, em 1958, História do modernismo brasileiro1, distingue a concentrada militância de Papel e Tinta, revista paulistana nascida da iniciativa de Oswald de Andrade e Paulo Menotti del Picchia, em maio de 1920. Dedicado à renovação artística do Brasil, o periódico quinzenal, depois mensal, dura até janeiro/fevereiro de 1921, valioso no embasamento do ideário da Semana de Arte Moderna, em fevereiro de 1922. O número inicial ilumina o escultor Victor Brecheret, recém chegado da Europa, no centro da luta que propunha a transformação da arte para transfigurar a cidade, o país, na cadência das transformações do século XX.
A cronografia do modernismo registra, na capital paulista, em 1919, dois importantes fatos. O primeiro, a exposição da pintura de pintores impressionistas franceses e esculturas de Bourdelle, Rodin e Henri Laurens, promovem-na, sem alarde, preclaros cidadãos – Paulo Prado historiador, José de Freitas Valle senador, mecenas e poeta, junto do cônsul da França, no saguão do Theatro Municipal. O segundo, de vasta propaganda, mostra-se como o Concurso Internacional para o Monumento à Independência. Objetiva uma escultura pública destinada a rememorar o centenário da independência do Brasil, em 1822, o grito do Ipiranga.
O concurso culmina na escolha do projeto assinado pelo italiano Ettore Ximenes, sob protesto dos artistas brasileiros, denunciando a “xenomania”, conforme Michelli Cristine Scapol Monteiro (“Mercado e consagração: o Concurso Internacional do Monumento à Independência do Brasil”). A minuciosa pesquisa da professora acusa, subjacente, “uma idealização de nação no qual os paulistas tinham papel decisivo.”2. (Retomada do artigo “Mário de Andrade e Brecheret nos primórdios do modernismo”. Revista da USP, n 94. São Paulo, jun.- jul. 20012, p. 29-38; traduzido “Mário de Andrade and Brecheret: The rooths of Modernism. Tradução de [Munira H. Mutran]. ABEI Journal: The Brazilian Journal of Irish Studies, nº 14. São Paulo, nov. 2012, p. 125-140. Dedicatória acrescentada em 2025).
Inaugurada em 10 de março de 1920, no Palácio das Indústrias, na exposição de todas as maquetes, aclama os primeiros lugares: os italianos Ettore Ximenes (1855-1926), Luigi Brizzolara (1868-1937) e Nicola Rollo (1889-1970). Rollo, imigrante, mora na cidade; Ximenes e Brizzolara hospedam-se em São Paulo. A este, a viagem rende, em 1920, a encomenda do Museu do Ipiranga, sob a direção de Afonso Taunay, historiador do período colonial: duas esculturas de bandeirantes e uma alegoria do significado nacional do rio Tietê.
Em maio, 1920, atualidade equivale contestar um concurso que atraíra apenas acadêmicos. Silva Brito rastreia, na imprensa paulistana de 1920 e 1921, matérias sobre a luta modernista. Focalizam a campanha para erigir, paralelamente, com apoio público e recursos financeiros da burguesia esclarecida, o projeto moderno de Victor Brecheret. O protesto reúne Menotti del Picchia, Oswald de Andrade, Di Cavalcanti, Lobato e considera a figuração do desbravamento sinônimo de um avanço artístico. Eis a mensagem: uma cidade e um estado comprometidos com a modernidade, proclamando nacionalmente a sintonia, no centenário da Independência.
Papel e Tinta congrega escritores e artistas plásticos, visando um público exigente. Graficamente muito bem elaborada, não numera páginas, nem acusa corpo editorial. A música e o teatro ali comparecem. Quanto às artes plásticas, conciliadora, imprime pinturas acadêmicas; expande-se, contudo, no art nouveau, refletindo a maestria de Antonio Paim Vieira, segundo Yone Soares de Lima3, Menotti faz e acontece, sem se explicitar gestor. Chegado ao futurismo, expande-se também, nessa hora, como cronista assíduo do Correio Paulistano, matutino de alta circulação, onde denomina “avanguardistas” todos os que comungam o anseio insurgente.
Na Papel e Tinta, vibram poetas que se modernizam e redigem artigos polemizantes, emparelhados com autores mais moderados – Gonzaga Duque, Cláudio de Souza e João do Norte (Gustavo Barroso). Nesse meio, a revista posiciona-se em 1920, ao erguer, corajosa, o “estandarte” modernista – Victor Brecheret escultor. No número 2, em junho, 1920, chancela seu apoio aos ideais revolucionários expressos na estratégia que ambiciona celebrar o centenário da Independência do Brasil, dotando a cidade/metrópole de um marco da renovação – o Monumento às bandeiras de Brecheret.
Estampa o texto de Ivan “Victor Brecheret”, apresentação e análise de esculturas. Reivindica, para ele, o Pensionato do Estado, permanência de aperfeiçoamento em Paris. Insere o artista na “ronda dos inovadores” – Ivan Mestrovic (croata), Émile Antoine Bourdelle (francês), Carl Millès (sueco), expoentes europeus da escultura moderna. A assinatura Ivan, escoteira, institui um enigma. Proponho-me decifrá-lo, atenta às páginas desse número 2 da Papel e Tinta. Quem é o enrustido propagandista da arte de Brecheret? Que pistas se insinuam? Aguarde o próximo artigo!
Bibliografia
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2 Artigo em H-ART. Revista de historia, teoría y crítica de arte, n. 4, p. 79-102. Bogotá: Universidad de Los Andes, 2019.
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