“Oro mi má / Oro mi maió / Oro mi maió / Yabado oyeyeo / Oro mi má / Oro mi maió / Oro mi maió / Yabado oyeyeo.” (canção tradicional em iorubá).
Pouco tempo antes do ocorrido, esta canção sempre me vinha à cabeça, principalmente enquanto tomava banho. Todas as vezes que surgia, começava a cantarolá-la e, ato contínuo, meu coração apertava como se antevisse um pesar, uma perda.
“Um dos contornos interessantes da escrita é que, antes de ela vir ao mundo (...) há um grande mergulho na própria solidão, observação e imaginação. É profundamente necessário saber mergulhar em ao menos um desses quesitos durante nossa construção.” (Esdras Pereira)1
Jamais esquecerei a primeira vez que vi Oxum adentrando no barracão do Terreiro!
Já havia presenciado algumas festas para os orixás, com o ritual das Filhas de Santo e suas danças circulares no barracão nos momentos que antecediam a chegada dos orixás. Todas vestidas com saias rodadas, anáguas engomadas, blusas brancas, panos da costa e ojás na cabeça... tudo impecavelmente branco. Entoavam os cânticos em iorubá, seguindo a música vinda do “Rum, Rumpi e Lè”, os atabaques sagrados tocados pelos Ogãs. Minha tia, ainda vestida de branco e acompanhada da sua Ekedi ou da Mãe Pequena, também circulava até o momento em que incorporava Oxóssi, seu Orixá. Após a incorporação, Oxóssi era conduzido pela Ekedi e outras Filhas de Santo para a Casa dos Orixás, onde a roupa inicial branca era substituída pela roupa típica de Oxóssi, predominantemente na cor verde.
Quando Oxóssi retornava ao barracão, o deleite sensorial se expandia enormemente! Sinceramente, acredito que um dos melhores momentos de conexão com o sagrado ocorre quando cantamos. Ao menos, é o que sempre senti e sinto em qualquer uma das casas religiosas que frequentei (catolicismo, candomblé ou igrejas protestantes). Agora, no Candomblé... esta experiência se potencializa. A música percussiva parece pulsar com o nosso coração e com o nosso corpo, e a dança se apresenta como instrumento de exaltação, comemoração e êxtase.
Por volta dos sete anos, eu observava tudo aquilo como uma grande explosão de sentimentos. Parecia-me, e ainda parece, algo simultaneamente sublime, sagrado e artístico. Nem me perguntem como poderia perceber isto com esta tenra idade, mas era assim que sentia.
No seu retorno ao barracão, já com a sua indumentária, Oxóssi iniciava a sua dança, uma mescla de movimentos de caça com um arco e flecha marcados a meio galope corporal. Uma dança belíssima e de forte pulsação! Momentos depois, poderia desencadear a chegada de alguns caboclos nas Filhas de Santo, ou simplesmente permanecer parado ou sentar-se por algum tempo. Não lembro muito bem das danças dos caboclos; talvez me parecessem distantes da perfeição que eu enxergava nas danças dos orixás. Lembro de alguns apenas pelo chão. Todos reverenciavam Oxóssi. Em algumas festas, poderiam chegar outros orixás, e o movimento de saída e retorno do barracão desses orixás se repetiria. Ah! Um detalhe... os orixás sempre atravessavam as portas de costas, apoiados pela Ekedi ou outras Filhas de Santo. Este era um detalhe que sempre me chamava a atenção.
“Oro mi má / Oro mi maió / Oro mi maió / Yabado oyeyeo / Oro mi má / Oro mi maió / Oro mi maió / Yabado oyeyeo” (canção tradicional em iorubá).
Jamais esqueci a primeira vez que vi Oxum adentrando no barracão do Terreiro!
Estou seguro de que já havia presenciado algumas vezes o ritual da Festa de Oxóssi, mas não tenho lembrança da chegada de Oxum em nenhuma das festas anteriores. As festas para os orixás aconteciam à noite. Começavam com a dança das Filhas de Santo, seguiam com a chegada dos orixás, sua saída do barracão, o retorno, as danças e, por fim, a despedida. Possivelmente, nas festas dedicadas a Oxum, eu já havia caído no sono. Mas daquela vez foi diferente...
Tudo parecia igual às festas anteriores: as Filhas de Santo, os Ogãs, as músicas... até minha tia incorporar, porém, daquela vez, de uma forma mais branda. Não entendi! Foi conduzida para fora do barracão e, quando retornou, parecia a mulher mais linda do mundo. Um poeta poderia dizer “a mais pura tradução da beleza”! Se Oxum tem o poder da sedução, descobri naquela noite. Todo o entorno parecia desaparecer, e eu apenas a via dançando suavemente pelo barracão, com sua roupa dourada, rosto coberto e, nas mãos, o seu Abebé (espelho e leque). Uma dança suave, completamente oposta à demonstração de vigor e força da dança de Oxóssi. Me senti completamente encantado!
Jamais esqueci a primeira vez que vi Oxum adentrando no barracão do Terreiro. Talvez justamente porque tenha sido a primeira e única vez. Posteriormente, lembro de ter participado algumas vezes, durante o dia, do cortejo dos presentes para Oxum; inclusive, fui na embarcação em uma das oportunidades, mas não lembro de tê-la visto novamente à noite na festa. Nem sempre ela aparecia! Oxum era o orixá ori da minha tia. Ela costumava dizer que Oxum era um Orixá muito exigente.
Em algum momento, houve um grande hiato nas festas do barracão e, depois, eu me mudei de cidade. Uma das poucas vezes que retornei para a festa na intenção de rever e reacender todas aquelas emoções, Oxum não apareceu no primeiro dia da festa. Apenas no segundo dia, justamente quando eu já precisava retornar. Diferentemente de Oxóssi, jamais ouvi a sua voz. Houve um tempo em que até achei que ela não falasse, mas minha mãe me disse que sim, que ela também falava.
“Oro mi má / Oro mi maió / Oro mi maió / Yabado oyeyeo / Oro mi má / Oro mi maió / Oro mi maió / Yabado oyeyeo”
A canção constantemente retornava à minha mente na hora do banho, e meu coração se apertava como se pressentisse uma perda.
Mal saíamos da pandemia de Covid-19, as primeiras vacinas começavam a ser aplicadas e resolvemos passar as férias de julho de 2021 em Salvador, com todos os cuidados e precauções possíveis, considerando que a minha mãe e a minha sogra (duas idosas) também se juntariam a nós.
Num dia desta temporada, recebo a ligação de minha tia (também já idosa), que estava na Ilha de Itaparica, me perguntando se não iria visitá-la. Esclareço que naquele momento ainda não era prudente, que era melhor esperarmos até as férias do final do ano para garantir uma maior segurança para todos. Ela me respondeu com aquelas frases típicas de pessoas idosas: “Não sei se estarei viva até lá!” Brinquei dizendo que sim, que estaria e que iria passar por lá para comer aquela comidinha gostosa e voltar cheio de doces e quitutes que ela mandaria preparar para que eu compartilhasse com toda a família.
Ela começou a falar sobre tudo o que ainda gostaria de fazer. Disse que desejava muito nos visitar em São Paulo e passar uma temporada conosco. Mais do que planos para o futuro, suas palavras soavam como a reafirmação de sonhos que não queria deixar para trás. Por diversas vezes a convidei, mas suas preocupações e afazeres jamais lhe permitiram conciliar a viagem. Na sequência, me disse que ligasse novamente dentro de alguns minutos para que eu pudesse conversar com o meu avô. O que fiz e, com a ajuda de alguém da casa, dialoguei com Oxóssi, pois ele não falava diretamente ao telefone. Suas ações e palavras também me soaram como despedidas.
Segui amenizando os efeitos possíveis daqueles diálogos, acreditando que tudo estaria bem e que, no final do ano, conseguiria revê-los. Acho que tendemos a acreditar que tudo o que é bom, tudo o que nos faz bem, seguirá sempre por ali, ao nosso dispor, como se fosse eterno.
No Dia dos Pais, meu primo me ligou. Me disse que tinha ido passar o domingo com minha tia na ilha, mas que a teria encontrado muito adoentada. Na tentativa de alegrá-la, ligou para que conversássemos todos. Na semana seguinte, ela partiu. Talvez, de alguma forma, ela pressentisse que não alcançaria minhas férias do final do ano e, por isso, insistiu em nos vermos em julho... impossível ter certeza. A única certeza era esta: lidar com o luto de uma pessoa querida é sempre um grande exercício de iluminação. Lidar com o luto de uma Mãe de Santo tem um ingrediente a mais: além da pessoa querida, também nos despedimos do contato físico com os seus orixás; é como se lidássemos com diversas perdas ao mesmo tempo.
Minha tia não tinha sucessor. Seu Terreiro foi fechado. A sucessão nos Terreiros normalmente ocorre dentro da própria família. Ela teve apenas filhos e decidiu desde sempre que não passaria o compromisso espiritual para nenhum deles.
Nos despedimos da convivência e do contato físico, mas seguem pulsando em nossos corações e memórias as inúmeras lembranças, alegrias, aprendizados, ensinamentos, anedotas... Minha tia era divertida! Uma anedota? Ela sempre contava que meu primo, quando brigava com algum coleguinha na escola, quando era criança, dizia: “Cuidado comigo! Minha mãe é Mãe de Santo!”
Esmiuçando as palavras iniciais de Esdras Pereira, eu acrescentaria que o ato de escrever carrega algo de autoanálise e, principalmente, de catarse.
O espelho de Oxum mostra aquilo que há de verdadeiro em cada pessoa e o que ainda precisa ser curado, podendo significar autoconhecimento e verdade. Na tradição, ela também o utiliza como instrumento de defesa espiritual, refletindo de volta as energias negativas.
O espelho de Oxum reflete a alma e as intenções reais das pessoas. Talvez por isso, ao recordar aquela despedida, ele também reflita aquilo que permaneceu em mim. Mais do que saudade, revela os afetos, aprendizados e verdades que sobrevivem à ausência.
Ora yê yê ô!
“Oxum la Omiro / Orixá olá nilesun ô / Ekun, efun, ekun layó / Oxum la Omiro / Lyà Omiro / Oxum e layo / Lyȧ Omiro / Oxum e leyo” (Oxum Ia Omiro — canção tradicional em iorubá)















