Um dos preconceitos que existem na forma como o público em geral enxerga a evolução é vê-la sob um prisma teleológico. Como se a natureza tivesse o objetivo de criar os seres vivos modernos, os animais antigos não passariam de rascunhos que surgiram antes do aparecimento de suas formas definitivas. As espécies antigas, como mamutes, dentes-de-sabre e homens das cavernas, seriam apenas versões imperfeitas dos animais modernos como elefantes, tigres e Homo sapiens.
Uma exceção nessa visão seria os dinossauros. Como os enormes répteis foram as criaturas mais impressionantes que já existiram, é normal que a imaginação do público se concentre mais em sua grandeza do que em seus descendentes modernos: as aves. Ainda assim, os dinossauros são mais lembrados como uma fase ultrapassada da evolução, algo que foi grandioso, mas colapsou de forma colossal, dando espaço para criaturas ainda mais notáveis, como o ser humano.
Esse raciocínio faz sentido num primeiro momento, pois tendemos a presumir que tudo tem um propósito, e se as espécies de animais mudam com o tempo, seria óbvio inferir que estão mudando porque progrediram. Mas, na realidade, não há progresso na evolução; os animais antigos não são superiores aos modernos; apenas tiveram mais sorte ao enfrentar os desafios da Terra. A evolução apenas permite que os animais sobrevivam ao se adaptarem, mas não busca tornar as criaturas melhores. Animais modernos não são necessariamente mais inteligentes, fortes ou complexos do que os antigos, e muitas vezes criaturas impressionantes como dinossauros desaparecem para que outras mais simples, como tartarugas e lesmas, prosperem.
Uma consequência involuntária deste preconceito é que vários animais que desapareceram sem deixar descendentes acabam sendo ignorados pelo público e até por alguns divulgadores, pois, como não deixaram legado, seriam supostamente produtos fracassados da natureza que não merecem atenção real. Vários animais antigos acabaram, por isso, fora da mídia, sendo completamente desconhecidos da maior parte do público leigo.
Às vezes, mesmo animais ainda existentes são descartados; é o caso dos répteis conhecidos como Sphenodontia. O grupo que foi muito importante durante a era dos répteis apresentava animais semelhantes a lagartos, porém bem mais antigos, com duas fileiras de dentes na parte superior da boca. Apesar do grande número de espécies que possuía, acabou sendo sobrepujado pelos lagartos que roubaram seus habitats naturais. Hoje, os últimos do grupo, chamados popularmente de tuataras, vivem na Nova Zelândia e estão em risco de extinção; se isso chegar a acontecer, um grupo de animais com milhões de anos de evolução desapareceria junto deles.
O fato de um grupo de animais ser substituído por outro, com características quase idênticas às dele, mas de origem distinta, mostra que o objetivo da evolução não é progresso em direção a um ser superior, e sim apenas a sobrevivência. Esse não foi um caso isolado. Vários animais que desapareceram da natureza acabaram tendo seu espaço ocupado por novas criaturas que evoluíram para se tornarem muito semelhantes a eles. Esse foi o caso dos Rhinesuchidae, enormes anfíbios primitivos que viviam em lagos. Os animais se alimentavam de peixes e criaturas terrestres que se aproximavam da água para beber.
Após o desaparecimento dos anfíbios gigantes, seu espaço foi ocupado por criaturas conhecidas como fitossauros, répteis de vida aquática que capturavam as criaturas que passavam por rios e lagos no começo da era dos dinossauros. Eventualmente, os fitossauros também foram substituídos, desta vez pelos modernos crocodilos. Os dois répteis eram incrivelmente semelhantes, diferenciando-se apenas pela posição do nariz. Como não parecem existir grandes diferenças entre as duas criaturas, isso mostra que a substituição não se deveu a nenhuma superioridade dos crocodilos sobre seus primos, apenas à sorte e talvez a um melhor uso das condições a seu favor.
Do mesmo modo que os fitossauros habitaram os rios e lagos, os mares da era dos répteis eram povoados pelos ictiossauros, que abandonaram o estilo de vida em terra firme para se aventurar nos mares, predar peixes e competir com os tubarões. Ainda que bem-sucedido, o grupo desapareceu alguns milhões de anos antes dos demais répteis gigantes da época. Os mares não ficaram livres de predadores por muito tempo; com o passar do tempo, os mamíferos se aventuraram pelos mares e os golfinhos se adaptaram, desenvolvendo corpos muito semelhantes aos dos antigos ictiossauros.
Após o sumiço dos dinossauros, os mamíferos tomaram o planeta para si. Hoje em dia, três grupos de mamíferos existem: os monotremados, como os ornitorrincos que põem ovos, os marsupiais com bolsa da Austrália e os placentários cujo filhote cresce dentro do útero. Entretanto, outros grupos de mamíferos viveram ao longo da história da Terra. Vários desses mamíferos primitivos eram surpreendentemente semelhantes aos mamíferos modernos, como os Multituberculata, que ocuparam o papel dos atuais roedores, mas viveram há dezenas de milhões de anos onde hoje é a Europa.
Outro dos animais incríveis do passado foi o grupo que dominou a América do Sul. Numa época em que o continente estava isolado do restante do planeta, não havia predadores como gatos ou cães para caçar as criaturas da época. Por isso, o espaço de predador foi ocupado pelo hoje esquecido grupo dos Sparassodonta. Eram animais difíceis de imaginar, com corpos parecidos com os de tigres, ursos ou hienas, mas sem nenhuma relação; seus parentes vivos mais próximos são os cangurus, que vivem do outro lado do mundo e nada se assemelham aos sparassodontas.
O mais icônico dos sparassodontas foi o Thylacosmilus, que evoluiu com armas de caça semelhantes às do lendário tigre-dente-de-sabre da América do Norte. Mas o grupo era bem amplo, incluindo desde animais pequenos semelhantes a mangustos, até outros muito grandes que poderiam rivalizar com as onças modernas. Ainda assim, os sparassodontes acabaram ofuscados quando, finalmente, foram obrigados a competir com outros predadores vindos do Norte.
Como esses animais foram sobrepujados por outras criaturas similares a eles, mas que pareciam mais capacitadas para sobreviver, pode-se, num primeiro momento, crer que eram seres inferiores, sendo postos de lado por seus superiores, mas a natureza não busca aperfeiçoamento; se outros animais não tivessem existido, as antigas criaturas poderiam ter chegado até os nossos dias. Com uma evolução levemente diferente, talvez os rios de hoje tivessem fitossauros ao invés de crocodilos, nas florestas os animais tivessem que fugir de sparassodontas e não de felinos como tigres.
A extinção de um animal é, muitas vezes, percebida pelo senso comum como um fracasso dele. Os dinossauros, por mais incríveis que fossem, também são vistos como algo que teve de ser superado para que o ser humano pudesse substituí-los. Logo, parece que os dinossauros foram apenas um passo em falso na evolução. Mas, claro, a extinção dos enormes répteis não foi realmente “para” que os humanos viessem; entre as duas criaturas houve mais de 60 milhões de anos separando-as. E antes de desaparecer, os enormes répteis viveram por mais de 180 milhões de anos, muito mais do que o ser humano em toda a sua existência.
Do mesmo modo, dezenas de espécies de animais também surgiram se aproveitando do espaço deixado por outros mais antigos, essas novas criaturas eventualmente encontraram seu fim e novas vieram, um ciclo de substituições de criaturas que não tem realmente um propósito. Não havia motivo real pelo qual a evolução gerasse o Homo sapiens, nem há motivo pelo qual um dia essa espécie não tenha o mesmo fim dos dinossauros ou mesmo o das várias outras criaturas que desapareceram sem deixar rastro na história do nosso planeta.















