Estou a ver muitos quartos e todos eles têm caixinhas de música, caixinhas de beijinhos e estrelas do mar, caixinhas de recordações… mas só num desses quartos eu sonho. O quarto onde nascem trevos de quatro folhas, onde se guardam as mensagens dos ventos e onde rezo devagar. O quarto onde se queima incenso, se escrevem poemas, onde os discos rodam nas paredes e eu danço sem parar.
É o quarto de uma peregrina que faz rosários de colares, ceias de hóstias e uvas americanas e que adorava celebrar missa num altar.
Nas paredes desse quarto há leques pendurados. Recordam viagens e mundos encantados.
É engraçado que podemos ver um mesmo objecto em contextos diferentes e, porque o espaço contextual é diferente, o nosso olhar pode mudar e assim provocar transformações nesse mesmo objecto.
Exemplo: Vamos ao Corte Inglês e vemos leques abertos, espalhados coloridamente num balcão e vamos às lojas Chinesas e encontramos leques depositados numa grande cesta, mas fechados.
O mesmo objecto “leque” encontra-se em posturas diferentes, remetendo a primeira para festas e viagens mundanas, calor e sofisticação; enquanto o leque, na segunda situação, nos remete imediatamente para o mistério do oculto, do olhar velado de uma gueixa, para a linguagem do silêncio e para um Oriente encantado.
A que memórias associamos o “leque”? O que revela isso de nós mesmos?
Gilbert Durand diz-nos que “a contemplação do mundo é já uma transformação do objecto”, portanto é o sujeito que faz com que o objecto, seja ele qual for, tenha ou não valor, seja ou não uma preciosidade, valha ou não a pena possuir! Porque só o sujeito é capaz de atribuir valor ao objecto, porque só o sujeito e a sua emocionalidade carregam o objecto de valor, porque só o sujeito faz as associações, conscientes e inconscientes, àquele objecto em particular….
Para Gilbert Durand, a imagem é a matéria de todo o processo de simbolização, fundamento da consciência na percepção do mundo. Imaginário é a capacidade individual e colectiva de dar sentido ao mundo. É o conjunto relacional de imagens que dá significado a tudo o que existe.
Falar de um objecto é estar a falar de nós próprios, das nossas vivências mais íntimas; a memória que lhe está associada é a nossa, contaminada por memórias de outras gentes e lugares simbólicos que contribuíram para que aquele objecto seja uma relíquia ou algo para deitar fora… Falar da memória de um objecto é falar do passado, do presente e até do futuro porque nós podemos ter saudades do “não ter”, da perda e sonhar com ela.
Falar de memória é falar do nosso imaginário!
Assim sendo, imaginem agora esta cena ficcional do meu livro (romance) – O leque das descobertas e a hora H de F. Pessoa – em que o objecto “leque” assume importância simbólica:
...Entretanto, o Baile da Bolsa teria lugar dentro de um mês e Maria Augusta pensava num estratagema para dançar comigo, no momento certo e depois… depois os nossos passos saberiam a direcção a tomar.
O leque de seda em arco-íris era o elemento fundamental para que nada falhasse. Aquele leque possuía propriedades mágicas.
O lado A do leque: o Solar
Cada vez que a pessoa abre o leque, uma das cores do arco-íris fica saliente e quem o abre passa a ver tudo dessa cor e as pessoas que a rodeiam passam a vê-la dessa mesma cor. Era um segredo só nosso e a nossa cor código era o verde.
Porquê o verde?
Ambos adorávamos, desde pequenos, as folhas da Ginko Biloba; folhas em forma de leque. A acrescentar que o Ginko é uma árvore de raízes profundas e com uma resistência invulgar ao vento. Uma resistência que Maria Augusta ostentava, com os seus olhos de fada, cada vez que usava o leque.O lado B do leque, o Lunar
É o lado que contém os Grandes Arcanos do Tarot.
Quando se abre desse lado, o Arcano que ficar saliente será o que dita o momento em causa! O Arcano daquele momento era o VI: Os Amantes.
Relembro a afirmação de Madame de Stael, uma dama da sociedade francesa, a respeito do leque:“Há tantos modos de se servir de um leque que se pode distinguir logo, à primeira vista, uma princesa de uma condessa… aliás, uma dama sem leque é como um nobre sem espada.
E você, cara leitora? Que memórias estão associadas ao seu leque favorito? Que segredos esconde quando o fecha? Que desejo inconfessável manifesta?
Mas, se prefere o silêncio, seja cúmplice deste belo excerto Pessoano:
O teu silêncio é um leque — Um leque fechado, um leque que aberto seria tão belo, tão belo, Mas mais belo é não o abrir, para que a Hora não peque...
(Fernando Pessoa, ortónimo)
Quanto a mim, vou continuar a abrir e a fechar livros: os mais belos leques e que me trazem mais memórias!















