Uma história resiste a uma continuação, 20 anos depois? Em tempos de consumo rápido e barato de conteúdos digeridos e esquecidos ao fim da sessão de scroll, fica a pergunta: quanto dura um filme em nossa memória?
Qual o filme produzido nos últimos dez ou quinze anos que resistiu à prova do tempo? Qual o filme da última década que você guarda na memória? Qual foi o filme vencedor do Óscar há dois anos? Ou neste ano?
Será o reflexo de um público de cinema que envelheceu e que vem sendo substituído continuamente por uma geração hiperativa, formada no sobe e desce do polegar nas redes sociais, onde 30 segundos de vídeo já são uma eternidade? OU será que o cinema, baseado em pesquisas de mercado e marketing, está a entregar filmes com pouco risco de desagradar esse público?
A indústria do cinema, especialmente a dos Estados Unidos, vem apostando na fórmula de sucesso. Sequências e franquias de ideias que foram originais um dia. Contudo, a massificação dessas continuações acaba por pasteurizar o que um dia foi original e diluir o conceito criativo. A franquia da Marvel, por exemplo, fez isso, lançando um ou mais filmes por ano. O resultado: uma saturação.
Mas o que O Diabo Veste Prada tem a ver com isso? O filme original de 2006 apresentava vários elementos que ajudaram a torná-lo um clássico. O roteiro é, simplesmente, perfeito. É uma aula de adaptação de um romance. Não é literal, como não deve ser mesmo, mas nas suas condensações e expansões do texto base, o roteiro consegue transferir para a tela a emoção e o universo criado pela autora Lauren Weisberger. As primeiras dez páginas do roteiro, onde os personagens são apresentados, são consideradas uma masterclass de como escrever para cinema. A estrutura marcante dos três atos, o desenvolvimento, os obstáculos à jornada da protagonista, e a conclusão são de uma fluidez que resulta num filme atual e que nos dá o prazer de revê-lo de tempos em tempos.
Um roteiro, mesmo que espetacular, só funciona com boas interpretações e uma direção que não o atrapalhe. O realizador David Frankel, responsável pelos dois filmes, é um veterano que já demonstrou sua competência em conduzir histórias e dirigir atores de peso.
A química do elenco de O Diabo Veste Prada 1 e 2 consegue um resultado que encanta em cada cena. Meryl Streep é uma atriz que some nos seus personagens e dá-lhes uma vida absolutamente crível, recheada de carga emocional. Ela “desaparece” porque nos guia ao fundo da essência de seus personagens. Sua atuação como Miranda Priestley, nos dois filmes, não é diferente. Como a vilã da história, ela roubou o protagonismo do filme, desde a primeira cena, e entrou para a cultura pop do século XXI, como uma personagem odiada e admirada.
Todos os papéis “secundários” têm importância para a narrativa e todos, sem exceção, entregam interpretações inesquecíveis: Stanley Tucci, o fiel escudeiro Nigel, na minha opinião o grande fio condutor das histórias do primeiro e do segundo filme. Emily Blunt, a espetacular Emily que ganha força de secretária à rival de Miranda, e, é claro, a Anne Hathaway, como Andy. Sua inocência original é preservada, mesmo com anos de experiência e maturidade. É uma delícia vê-los atuar e recriar aqueles personagens que encantaram plateias há vinte anos.
O Diabo Veste Prada de 2006 é daqueles filmes que fizeram-nos sair do cinema com um sorriso no rosto. Com O Diabo Veste Prada 2, a sensação não é diferente. Não é tão fluido como o primeiro, porque foi necessário criar uma trama de conflitos que têm de ser explicados, e em alguns momentos atrapalham o desenrolar da história. Mas, por outro lado, não é preciso apresentar personagens, explicar quem é quem, bastando deixá-los atuar.
O núcleo do argumento do novo filme se mantém. O mundo da moda, seus bastidores e seu glamour na sua forma mágica e cruel. Um universo de alta competitividade, em todos os níveis, de transações milionárias, de marcas de desejo, em que a história da inocência e sua jornada de sucesso desperta de imediato um sentimento de empatia. Torcemos pela nossa heroína conseguir superar todos os obstáculos, ter o reconhecimento merecido e “vencer” aquela que todos temem. É quase uma disputa do bem contra o mal. No entanto, temos uma virada aqui. Será que as ações têm sempre explicações razoáveis e nem todos são somente bons e maus? É a questão que se coloca. Em tempos de uma sociedade dividida por certezas absolutas, talvez O Diabo Veste Prada 2 venha a ser bastante atual ao tentar jogar uma luz sobre como é importante colocarmo-nos na pele do “inimigo” e percebê-lo na sua integridade.
O Diabo Veste Prada 2 resistiu a 20 anos e proporcionou uma sequência das mais aguardadas do cinema. Como foi possível? O filme original tinha uma coisa que raros filmes apresentam nos dias de hoje: simplesmente um charme irresistível. Sim, é isso, ele era charmoso, elegante, escrito, dirigido, interpretado e fotografado como um produto da alta moda. Era aspiracional, fashion, e com personagens com quem nos simpatizamos.
O desafio estava na mesa. Muita coisa mudou no mundo nos últimos 20 anos, para dar continuidade a Miranda, Andy, Nigel e a revista Runway. O mercado editorial sofreu uma revolução. O Instagram e o TikTok são os sinalizadores hoje da cultura, da moda, e das tendências de mercado. Afinal, as pessoas não leem mais revistas. Como evoluir o conceito do poder absoluto e os conflitos existentes no primeiro filme, num tempo em que o poder de influência está tão disperso?
A produção de O Diabo Veste Prada 2 teve uma sacada genial. Não só a história giraria em torno desse novo conflito de gerações, de mercado, do avanço da comunicação digital versus impressa, e de quem tem o poder da palavra. O próprio filme, durante o processo de produção foi gerando conteúdo e alimentando as redes sociais. A conversa fez surgir comunidades de fãs que existiam, mas estavam dispersos. A oportunidade de reunir aqueles personagens que encantaram em 2006 trouxeram um sentimento de nostalgia para os que viveram aquela experiência. O mais curioso é que é uma nostalgia compartilhada com um público mais jovem, que teve contato com o original somente pela TV ou pelo streaming.
Cenas das filmagens de O Diabo Veste Prada 2 nas ruas de Nova York viralizaram no TikTok e Instagram. Os fãs caçavam os locais de filmagens e aguardavam por horas para ver e gravar nos seus iPhones takes do filme, ou dos bastidores com aqueles astros de Hollywood. Na verdade, eles queriam se aproximar dos personagens. De repente, não estavam a fotografar a Meryl, o Stanley, ou a Anne, mas sim a Miranda, o Nigel e a Andy, como se eles existissem de verdade. Tudo isso foi muitíssimo bem alimentado pelo time de marketing do estúdio e do filme.
Além disso, diferente do primeiro filme, as grandes marcas internacionais de luxo imploraram para terem participações na história e estarem presentes na tela. Comerciais foram produzidos com a temática e com os personagens do filme. Criou-se um ambiente onde todos se beneficiavam com a divulgação do filme. Um trabalho cooperado entre produção, marketing do estúdio e marketing das marcas, e utilizando as redes sociais para alavancar o projeto. Uma aula de lançamento de produto.
A expectativa foi criada quase um ano antes do lançamento, com pílulas de conteúdo sendo liberadas para manter a conversa acesa. Quando o trailer do filme foi divulgado, recebeu 222 milhões de visualizações nas primeiras 24 horas, segundo a 20th Century Studios, produtora do filme. Um recorde para uma comédia, e para os filmes todos do estúdio. O lançamento do filme também foi tratado como um produto de moda, com tapetes vermelhos e desfile dos atores/personagens em diversas capitais do mundo.
A história de O Diabo Veste Prada 2 também foi construída sobre as transformações na vida dos personagens em 20 anos, em conjunto com as mudanças do mercado e do business da comunicação e da moda e da sociedade nesse período. Por um lado, isso coloca o filme numa posição super alinhada com os tempos atuais, do politicamente correto. Porém, um dos pilares do sucesso do primeiro filme era a relação abusiva entre a chefe e sua subordinada. Miranda era tudo, menos politicamente correta. Ali estava o seu fascínio.
A Miranda Priestley de 2026 tem de se policiar, ou ser policiada, pelo que pensa e diz. Mas inteligentemente, o roteiro usa esses momentos como alívio cômico. Torcemos por ver os “deslizes” de Miranda ao humilhar as opiniões dos subordinados. Mas, num piscar de olhos, lembramos que estamos em 2026 e não podemos fazer isso... E as risadas da plateia são inevitáveis.
O Diabo Veste Prada 2 é um filme extremamente bem produzido tecnicamente. Cenografia, figurinos, fotografia, som, edição, enfim, perfeito, mas não chega a ser espetacular como o primeiro, e acho que nem se propõe a isso. Seu objetivo, na minha análise, é trazer para o convívio atual aqueles personagens charmosos e encantadores, num universo ainda glamouroso do circuito da alta moda. É um entretenimento com embalagem de luxo em que, por duas horas, nos esquecemos da nossa vida cotidiana, substituímos o consumismo barato dos influencers das redes sociais, e embarcamos num moderno conto de fadas. No cinema.
O Diabo Veste Prada 2 é um filme que ajuda a reforçar o Cinema como um instrumento agregador de uma sociedade, que tem levado as pessoas a uma experiência coletiva de dividir uma sala com o mesmo “conteúdo” ao mesmo tempo. É nostálgico, de certa forma, mas acredito que a sensação de rir e chorar numa sala com 300 pessoas, de dividir o braço da poltrona com um estranho, de dedicar o foco absoluto por duas horas numa história de ficção, pode nos tornar mais compreensivos com as outras pessoas. É saudável deixarmos as diferenças, ideologias e certezas individuais de lado, e simplesmente curtirmos uma ficção encantadora, e que nos faça sair do cinema com aquele sorriso no rosto.














