Antes das panelas, antes dos utensílios e temperos; a ideia, exatamente isto. Embora de forma sutil ou às vezes pungente, ela sempre está em nossas mentes; eu sei que você vai dizer que por vezes foi simplesmente colocando tudo de forma aleatória e desordenada, tudo o que via pela sua frente, e eureka, descobri a pólvora! Por falar em pólvora, me lembrei do fogo, da explosão, do milho e as suas facetas, e dentre todas elas a mais saltitante; a nossa estrela de hoje, a pipoca!

Lembro que numa noite de céu estrelado estava eu deitado em minha rede a pensar na morena mais linda da tribo, e em como conquistar aquele coração de difícil acesso, quando de repente, começou uma grande chuva de milho e alguns grãos caíam na fogueira que me aquecia; os grãos saltavam e bailavam de forma vibrante como nunca eu havia visto, aquele balé tinha cheiro e gosto de desejo, e reluzia como uma chave, a chave que abriria o coração da minha amada. Lendas à parte, o fato é que a principal atração deste texto está para os humanos desde muito sempre, assim como está a lua para os amantes; ao menos para os que já habitavam o que hoje chamamos de América.

Idolatrada por uns, e desprezada por outros; a pipoca que por vezes pode ser vista como um alimento pobre, talvez por sua simplicidade e leveza, é na verdade extremamente forte e pode ser incluída nas dietas com uma certa facilidade; rica em fibras e de fácil produção, ela é capaz de proporcionar saciedade e melhora do organismo. Como não poderia deixar de ser, pipoca também tem cara de infância, e todo o ludismo que permeia esta fase da vida; então é exatamente nesta fase que geralmente descobrimos os encantos deste poderoso e marcante quitute.

Portanto, é na mais remota fase da história que estes episódios surgem, num passeio com os pais pelo parque, em um estádio acompanhando uma partida de futebol; um cinema com a namorada, e o primeiro encontro das mãos enquanto dividiam aquela porção suculenta.

É fato que com o passar das horas — como é triste a modernidade — a coisa se deteriorou bastante, hoje temos “pipoca” dos mais variados tipos; doce, colorida, com gosto de coisas bizarras, e até mesmo a fatídica “pipoca de micro-ondas”; eu prefiro a tradição.

Leve um tacho ao fogo e deixe aquecer bem, depois reduza para uma chama média e adicione a quantidade de milho desejada, com uma colher de pau mexa o milho sem parar até que o frevo comece; começou? Tampe a panela e vá mexendo com esta tampada, logo começará o barulhinho bom; fique atento à medida que o intervalo entre um pipoco e outro aumenta, quanto maior o intervalo, mais ele indica que a sua pipoca está quase pronta, tempere com pouco sal e sirva. Uma dica, lá no começo do preparo ponha um dedinho de água na panela e quando começar a ferver coloque o milho, tampe a panela de modo que fique uma pequena abertura, e vá mexendo sem destampar e sem perder a abertura, cessado o poc-poc, você terá um produto sem óleo, leve e saudável.

A pipoca canta, salta e encanta; aqui em casa ela vira até farofa, se vai com sal pode acompanhar um bom churrasco, e se vai in natura, ela acompanha desde iogurtes até geleias; de uma forma ou de outra ela vai deixando a nossa vida mais saudável.

Só é preciso estar atento ao tipo do milho, pois não é qualquer um, no caso da nossa dama saltadora; existem os milhos tipo Amarelo e tipo A, e dentre estes as suas variações de acordo com o tamanho do floco e sabor, por favor não se aventure em milhos brancos e encarnados, a não ser que você queira fazer um bom munguzá ou uma saborosa chicha morada, afinal a natureza pôs cada milho em seu quadrado, e nós no devido tacho.

Pipoca é pura inspiração, de quem eu não sei, mas é… Se é daquele amor de índio, ou daquela poesia cantada pelo cordel “… pelo cheiro de menta e pipoca que dá quando a gente ama…” eu também não sei, só sei que pipoca é igual à imaginação, cada um tem a sua e isto não se discute.

Hoje é possível encontrar pipoca - pï'poka, pira (pele) + pok (estourar) em Tupi - nas mais variadas formas, cores, “sabores”, texturas, e por aí vai…

Só peço humildemente ao caro leitor que não se deixe levar pelos modismos, fuja das futilidades danosas dos produtos pré-prontos, pois mais vale um fogão sujo do que umas artérias entupidas, afinal, nós somos o que comemos; e você, é um lanche triste ou um milho a pororoca? Sozinha ou acompanhada, a vida pede uma pipoca.

E viva a pipoca!