"Que nós e todos os seres sejamos felizes".
A opção por não consumir sofrimento animal não é nenhuma novidade em nossa sociedade, embora o termo veganismo seja recente. Foi cunhado pelo inglês Donald Watson apenas em 1944 para diferenciar do vegetarianismo (postura e prática que existe há milênios). Watson fundou a The Vegan Society no Reino Unido, que tinha como objetivo “pôr fim à exploração animal pelo homem”.
A sociedade vegana define o veganismo como “um modo de vida que procura excluir, tanto quanto possível e praticável, todas as formas de exploração e crueldade contra os animais para alimentação, vestuário ou qualquer outro fim”.
O principal propósito do veganismo é a defesa dos animais — o veganismo é para e pelos animais —, mesmo que seja inegável que nós, humanos, também tenhamos benefícios ambientais e de saúde. Todo ser vivo que possui sistema nervoso central sente dor, inclusive peixes e crustáceos. Como pode o Homo sapiens ingerir carne e seus derivados, sabendo de todo sofrimento daquela vida, da tortura a que foi submetida e, não bastasse, a crueldade da sua morte?!
O “homem sábio”, ao se colocar superior aos animais, exerce o instinto mais selvagem/patriarcal/capitalista incompatível com a sua essência, que deveria ser humana. A não-violência pregada por Gandhi defendia os direitos dos animais contra a crueldade dos homens, e, embora ele não tenha sido vegano, tinha fortes inclinações éticas para tal.
Bilhões de animais são mortos a cada ano em matadouros no mundo, fora o abate doméstico, o clandestino e o de animais do mar. Não existe abate humanitário quando um animal é confinado num criadouro apenas para ser assassinado depois da vida de estresse e de martírio que levaram. Milhões de animais são usados de forma cruel em testes e experiências, sejam farmacológicas ou científicas. Não há necessidade disso, a tecnologia já avançou o suficiente para que tais experimentações não sejam realizadas em animais. A vida de todos os seres deve ser respeitada.
A produção de animais para o abate consome até 10 vezes mais água do que o utilizado pela agricultura, mais da metade da água potável do mundo é destinada à pecuária, enquanto ainda há pessoas nesta Terra que não têm acesso à água. A produção de carne gasta mais água do que o planeta consegue renovar. Na Amazônia, a área ocupada para plantio é absurdamente inferior às áreas desmatadas ocupadas por pasto para o gado. Cerca de 80% da produção de grãos, como soja e milho, são destinadas aos animais da indústria da matança. Estes são alguns exemplos que envolvem o consumo de água, a ocupação de terra (para a agricultura animal) e a destruição da Amazônia. Sem contar a emissão de gases (acentuando o efeito estufa) gerada pela pecuária, que é mais de 200 vezes maior do que a gerada pela produção de legumes. É possível afirmar, sem sombra de exagero, que toda comida dada aos animais alimenta todos os seres humanos do planeta.
A indústria de aves e ovos pratica a mesma brutalidade que a pecuária — confinamento, maus-tratos, exploração, além do imenso gasto de terra para produzir ração. A piscicultura degrada oceanos e rios, poluindo e extinguindo espécies. A retirada de grande quantidade de peixes do seu habitat natural afeta o bioma e ameaça a vida marinha, contribuindo para a destruição do meio ambiente.
Consumir produtos de origem animal causa um grande desequilíbrio na biodiversidade. Sustentabilidade também é pauta do veganismo, pois o impacto ambiental positivo é uma das consequências mais significativas e reconhecidas no estilo de vida vegano.
Joseph Andras, em seu livro Assim lhes fazemos a guerra (Antígona, 2022), expõe de forma estarrecedora três histórias reais que escancaram a nossa estrutura social mantenedora da ideologia de dominância do homem branco sobre as minorias, incluindo os animais — seres sencientes, companheiros e habitantes do nosso mundo. O autor narra a alma da crueldade humana. É uma obra forte e impactante sobre a cultura da matança e a mão humana ferindo e sobrepondo superioridade à força. É uma reflexão urgente. Em nota, o autor esclarece que o título do livro vem das palavras do historiador e jurista Samuel von Punfendorf que, em 1672, escreveu: “Há uma grande diferença entre o estado de Guerra em que os homens se encontram sempre relativamente aos animais, e aquele em que se encontram por vezes entre eles: com efeito, este não é universal, nem perpétuo, nem acompanhado de uma licença sem limites (De jure naturae et gentium).”
Justificar a tradição e a cultura para consumir sofrimento animal é um enorme engano. Não é porque a misoginia, o patriarcado e a violência nossa de cada dia são uma tradição quase cultural que temos de manter este cômodo hábito. A tendência é mesmo reproduzir o que está arraigado na sociedade, mas é possível enxergar com olhos de ver, afinal, o veganismo é uma questão de consciência.
Muito além da comida que se escolhe, o veganismo é pela não-violência e pela compaixão. Pelos animais, pela vida, pelo amor.















