Na parafernália mediática que nos vai rodeando e corroendo a sanidade ínfima que nos possa restar, valha-nos a paciência, e o sarcasmo…
Radicalismos vários de extremos opostos já temos que chegue. Desde o balofo senil trumpiano ao canabisanismo woke temos tal variedade que os humoristas estão extasiados com tanta e tão fértil manancial de matéria-prima para o seu criativo labor.
(Talvez esta festa humorística seja também das poucas coisas que satisfazem e dão ânimo a qualquer um de nós, comuns seres humanos deambulantes neste planeta batizado e desconexo que aparentemente salta e avança com tanto salto tecnológico e científico…)
É antigo o adágio que diz que, se damos poder aos bufões, não nos podemos espantar com o circo permanentemente instalado. Pessoalmente dou grande valor quer aos palhaços quer ao circo, daí que prefiro dizer bufões, bem mais negativizante e notório termo classificativo da performance de tantos que por aí polulam.
Talvez por cansaço e fastio pela medíocre qualidade dos poderosos e aspirantes ao poder político, cada vez menos, e crescentemente fática um pouco por todo o lado, entronizamos tantos bufões e ditatorzecos da pior espécie que a lista já se tornou trágica, já que descambou em guerra a eito desde os esquecidos Sudão e Afeganistão até à triste invasão da Ucrânia ou ao terror de Gaza.
E não é com excursões de iate pelo mar Mediterrâneo, berço de civilizações, que conseguimos diminuir o sofrimento de tantos, até mesmo os novos escravizados fugitivos de África cujo destino lúgubre pavimenta de cadáveres o fundo desses mares.
Sim, regressamos à barbárie stalinista, agora putinescamente disfarçada de eixo de resistência ao imperialismo ianque, ou às fatwas shiias de persas armados em defensores do Islão, destruindo a paz histórica dos califados ibéricos de antanho que nos deixaram Córdova ou o Alhambra de Granada.
Radicalizamos e deixamos putins vários e aiatolás ou talibãs esgazeados destruírem séculos de culturas e de povos… Radicalizamos e deixamos chegar ao poder bufões senis e respetivas seitas de seguidores ufanos que se vendem por 5 minutos de pantalha lá para bandas do novo mundo das Américas.
Mas também já nem reparamos em silêncios e palácios pequineses que continuam séculos de opressão e domínio único desde o Tibete ocupado a Xangai descolonizada pelo maoismo disfarçado de pujança económica e militar.
Radicalidade versus esquecimento de portos mais tolerantes e de mentes mais abertas, cosmopolitas e diversas. Eis ao que vamos paulatinamente assistindo, e encolhendo pacata e anestesiadamente os ombros um pouco por todo o lado.
Do triste diagnóstico à construção de alternativas sofre-se com o encurtar da oportunidade e a premência do encontrar de contrapoderes que reequilibrem um pouco que seja tão triste situacionismo acéfalo, mas dominante.
Do ridículo podemos extrair o poder de exposição e mediatização do óbvio ululante e da pequenez do poder fátuo das sucessivas mileicas motosserras ensurdecedoras para épater le bourgeois e apelar a massas ululantes facilmente manipuláveis.
No sarcasmo podemos expor as falsidades e simplismos dos populistas e desmontar a fraquíssima aderência à realidade das suas soluções miraculosas e infalíveis.
No passar do tempo até os mais influenciáveis dos seguidores de miríades se fartam das mentiras habilmente propagandeadas… é que entre Trotski e Stalin e Goebbels e Hitler nem sequer há diferença real a não ser a do registo mais ou menos factual do frenesim assassino e patológico de todos os ditadores.
E quanto ao ridículo há que questionar que diferença essencial há entre a baboseira mussoliniana e o redneckismo trumpiano.
A paródia e a comédia fundacional da Grécia antiga são hoje em dia fundamentais para a contenção dos desmandos e sonhos absolutistas de tantas tristes figuras a que vamos dando palco e poder…
A ironia clássica ou mais moderna são essenciais para a desconstrução dos mitos anacrónicos e bestializados que nos tentam impingir. O humor popular é a génese de muitas regenerações e regressos à tolerância democrática respeitadora de todos mas fortemente defensora das liberdades e direitos fundamentais, tantas vezes hoje falsa e equivocamente invocados pelos principais defensores do fechamento e ditatorialização dos regimes.
Da transigência à exigência democráticas muito há de construtivo a descobrir e a implementar sem cancelar ou esquecer a defesa dos mais oprimidos, presas fáceis de contextos terrivelmente extremados e disruptivos.
Não há miséria que escape à exploração dos mais fracos pelos despudoradamente poderosos. Dificilmente as democracias escapam à fome ou à guerra se não conseguirem diminuir impactos nos mais esquecidos dos esquecidos e abandonados.
Também combater a pobreza e a desgraça tem de voltar a ser a prioridade principal de quem é democrata e solidário. A solidariedade tem de voltar a ser a base das bases das relações humanas e entre comunidades humanas.
E que as tristezas que nos tiram a esperança em melhores dias sejam também alavancas para desconstruir o ridículo e efémero panorama actual tão incerto e pouco mobilizador para novos desafios que possam trazer, de novo, um sorriso de esperança no futuro.















