A vida passa por nós como se de uma corrida de Fórmula 1 se tratasse. Demasiado rápida para conseguirmos apreciar. O problema é que, lamentavelmente, não somos o Max Verstappen a cortar a meta com champanhe à nossa espera.

Somos, muito pelo contrário, o tipo de equipa técnica que corre desesperado com um pneu nas mãos, a rezar para não tropeçar no próprio cabo, e a querer fazer tudo direitinho enquanto o relógio não para de contar. Colocando outras vidas em jogo!

A vida acompanha quem pode, mas, acima de tudo, quem quer manter o pé a fundo no acelerador. Se não dermos conta da velocidade vertiginosa dos dias, o nosso tempo nesta Terra resume-se a duas páginas de um livro mal escrito. Penso que ninguém, na verdade, quer isso.

Acredito que a nossa motivação não nasce inteiramente do ócio. Nasce, alegadamente, das ideias brilhantes que esse ócio nos possa transmitir. É quase como um triângulo amoroso tóxico; não é possível um lado viver sem o outro e, pensemos… se não respirarmos, não há ideias e, sem ideias, não há motivação. Por conseguinte, sem motivação, a proatividade é apenas um mito urbano.

Na verdade, eis um segredo: se nos sentarmos muito confortavelmente no sofá, o nosso cérebro não idealiza objetivos nenhum; idealiza apenas a melhor posição para não ter dores na lombar no dia seguinte, e a isto, chamamos idade.

O tempo urge como uma constante chamada de atenção. Com a lentidão irónica dos ponteiros do relógio (ou dos números do ecrã do telemóvel, se forem como eu), apercebemo-nos de que uma hora pode ser uma eternidade quando estamos numa reunião que podia ter sido um email, mas voa em cinco segundos quando finalmente fazemos algo que nos é confortável.

O tempo não é assim tão rápido, depende muito da forma como lidamos com ele.

Focamo-nos incansavelmente na atividade laboral. Com muita sorte (e se os astros estiverem alinhados), até gostamos do que fazemos. Mas, sejamos honestos, querendo ou não, precisamos desesperadamente desse trabalho. Nem sempre agimos por amor à camisola da empresa; a camisola custa dinheiro, a luz não se paga de outra forma e, já nem pode ser decisão nossa, precisamos de sobreviver dentro dos padrões considerados mínimos, nem digo normais, desta sociedade cada vez mais cara.

Após as horas laborais, começa o nosso part-time, a que chamamos vida pessoal. Esta categoria subdivide-se em organização da casa, higiene pessoal, preparação de refeições e marmitas; afinal, Uber Eats todos os dias é sinónimo de falência. Falamos ainda, por vezes, na conclusão de estudos/cursos e formações a que nos propomos; animais de estimação e filhos! Por fim, quando sobra tempo, dedicação ao movimento diário. Os sortudos ainda têm hobbies. Não podemos incluir nesta equação as horas de sono. Não, não.

A organização e gerência de uma casa, por seu turno, são uma operação logística digna da NASA. Dizem os especialistas que “fazer um pouco todos os dias” permite uma concentração maior noutras atividades. Considero que é alguma falácia. Fazer um pouco todos os dias significa apenas que nunca, em momento algum da nossa existência, estamos livres para limpar alguma coisa.

Depois o banho sagrado, ao fim do dia de trabalho e remetemo-nos à divisão mais complexa da casa, a cozinha. Inicia-se um procedimento demorado, saboroso, mas que desorganiza a organização.

No caso deste part-time, há a urgência do movimento diário. Todos queremos certamente chegar a velhinhos, então vamos lá. Começa então a dedicação à atividade desportiva. Essa miragem. É inserida na rotina com a mesma precisão cirúrgica de um dardo atirado de olhos vendados. “Vai dando”, dizemos nós a quem pergunta. Caminhamos quando dá, tentamos até correr com alguma pontualidade. Mas terminamos em ginásios. Tradução: pagamos a mensalidade do ginásio religiosamente como se fosse uma doação de caridade, e lá vamos uma vez por semana para aliviar a consciência do dinheiro investido. Conclusão: sentimos que nos vai ocupar demasiado tempo; terminamos felizes, de banho tomado e minimamente concretizados devido à adrenalina que é deixada no corpo.

Por fim, e fazendo contas à vida, chega-se à triste e hilariante conclusão de que a nossa vida pessoal é vivida através de um mero contrato de part-time. As nossas reais prioridades têm de ser espremidas e geridas num bloco de três, com muita sorte, quatro horas por dia. E é aqui que a piada atinge o seu auge. Porque nesse bloco “jeitoso” a que chamamos de “tempo livre”, incluem-se obrigatoriamente várias obrigações.

Vendem-nos o mito de que o dia tem 24 horas, oito para dormir (uma anedota de mau gosto), oito para trabalhar e oito de tempo livre. As últimas 8 de que falamos não são bem assim. Exigem uma enorme gerência de tempo. Para onde vão? Ora engolidas pelo trânsito ou pelos transportes atrasados, pior ainda: obsoletas; pelo banho sagrado, pela fila do supermercado e por aquela meia hora em que ficas a olhar para o vazio existencial dentro do carro antes de saíres (quem nunca fez isso que atire a primeira pedra). Chegados a este ponto, a epifania bate forte… nós não somos a nossa prioridade. Somos a última linha da nossa própria to-do list à espera de um certo.

O nosso tempo pessoal foi subarrendado à sobrevivência básica.