Por mais prazeroso que seja viajar pelo mundo e conhecer novas culturas, tem horas que eu me pego diante das minhas amigas, as panelas, e me pergunto: cadê a comidinha lá de casa? Por mais prazeroso e acolhedor que seja um bom ensopado, um café ou uma sobremesa nos quatro cantos do globo, quando a saudade bate, ela não bate à porta; ela acerta em cheio a boca do estômago do cabra, e ele que se vire e retire para transformar lágrimas em caldo-de-cana.

Como já é sabido por todos, eu não venho por meio deste e de outros textos discorrer acerca de medidas, valores, dosagens e afins; mas sim de sabores, aromas e prazeres que fazem parte da nossa vida por todo o sempre. Passadas as folias de Momo, me peguei pensando em tudo o que permeia a folia, e o que primeiro veio à mente foram os quitutes – sim, agora estou mais calminho –, especialmente as Filhós, iguaria de origem portuguesa, mas comumente consumida no Carnaval de Recife e em outras cidades brasileiras.

Antes dos primeiros acordes dos clarins de Momo, toda gente já está de pé em volta de uma mesa repleta de várias opções que fazem um poderoso café da manhã; desde o dia em que os meus pais permitiram a mim e aos meus irmãos sairmos sem eles para participar da folia, algo ficou primeira mente claro; não sair sem se alimentar bem, afinal, com tanta ladeira, música alta, calor extremo e empurra-empurra, algo de fato é fato, saco vazio não fica de pé. Na verdade, tudo havia começado ainda na infância, quando nos reuníamos bem cedo e nos abastecíamos com munguzá, bolo de mandioca, cuscuz e um bom copo de café; depois, era só subir nas cacundas dos pais e partir para as ruas.

As ruas eram repletas de opções gastronômicas, mas o que mais me atraía mesmo era o cheiro da fritura oriunda da terra de Cabral – a culpa é dele -, com diversos formatos e texturas, eu me agradava mesmo com o que pra mim era básico em seu formato de flor e polvilhado com assúcar e canela, sim canela mesmo, assim o sujeito ganha ainda mais energia, e sem falar que estamos ingerindo um excelente termogênico, já pensou; pular, dançar, brincar e ainda ficar em forma em meio a tanto vuco-vuco?

Além de remexer os quadris na beira do fogão e nas ruas, é preciso muita energia, e está tudo lá, nas ruas… Lembro bem dos barraqueiros vendendo os Filhoses de todo jeito; a unidade, saquinhos grandes, pequenos, aos montes… Tinha pra todo gosto, e era sensacional o estalar e esfarelar nas mãos e na boca, sem falar que em meio àquela bagunça era mesmo bom ficar um tanto quanto “ sujo” e se esbaldar na festa. E para quem acha que fritura é só fritura, eu preciso lhe informar que você está praticando um ledo engano, pois não é fritura, e sim um ritual: o tacho, a farinha, o sal, a água que o passarinho não bebe, depois uma homogênea mistura, em seguida os ovos, e aquelas mãos continuam numa bela e arquitetada sova, feito isto, as mesmas mãos agora untadas de azeite trabalham bem a massa até que esta comece a desapegar do tacho, em seguida a divindade é coberta e fica em repouso durante cerca de duas horas, depois munido de uma imaginação sem limites, a massa ganha forma; bolinhas, flores, espirais, e por aí vai…

Depois tudo eclode num magnífico banho no óleo bem quente, e o aroma parece que vem às narinas com a mesma força das alfaias, pense num tijolada olfativa; neste momento tudo salta; as papilas, os olhos, e o açúcar num inebriante balé que lambe a massa já frita e liberta do excesso de óleo, para depois chegar às mãos do folião, o resto, quem viveu já sabe… Agora, o que me resta é, munido da receita e dos ingredientes, pedir permissão às minhas amigas e usá-las, afinal, o que eu mais sinto neste momento são saudades dos sabores lá de casa.

As Filhós, estão para a folia da mesma forma que o Cavaco (ou Cavaquinho), e é claro que eu me refiro aqui ao doce, e não ao instrumento musical; o Cavaco que tem também a sua origem no velho continente, e assim como a nossa estrela de hoje também é mergulhado no óleo fervente, sendo dono de diversos formatos e tamanhos podendo ser encontrado nos semáforos de Recife e Olinda em qualquer época do ano.

É triste que esta leitura não tenha cheiro, nem sabores, tampouco som… Fico imaginando o caro leitor digerindo estas letras ao som dos batuques, do cheiro da festa e do estalar dos brebotes; mas tudo bem, por enquanto, apenas leia, pois quem lê viaja, e quem sabe, numa destas viagens, a gente não se encontra e eu lhe sirvo Filhós ao som do cavaco, sim, o instrumento.