Num mundo 100% conectado, — que ao acordar, verifica as notificações escassas da madrugada e quando se põe a dormir, o último estímulo é uma notícia trágica ou meme aleatório — a arte, por mais distante que possa aparentar estar, se apresenta como o grito da liberdade, da visibilidade palpável, da transmutação entre a revolta com a sociedade e o anseio de mudança, de jovens, brasileiros e criativos, que buscam pelas respostas não ditas no mundo.

Isso porque, ao redor de nossas terras, a arte no Brasil é vista, reconhecida e admirada pela sua grande diversidade cultural, uma vez que, naturalmente, trata de temas universais ligados à estética singular de uma origem totalmente nacional: uma verdadeira fusão das influências indígenas, africanas e europeias.

Na história, a arte foi o espelho mais fiel da alma do povo, tornando-se um instrumento de sobrevivência simbólica. Durante a colonização, mostrou-se resistência; no período moderno, manifestou-se; e hoje é a janela para uma avalanche informacional que molda nossos hábitos. Esse caminho revela não apenas estilos, mas também camadas de significado que se acumulam sobre o tecido social brasileiro.

Em uma linha do tempo resumida, contamos com a Arte Pré-Histórica Brasileira (13000 — 9000 A.C), a Arte Indígena Brasileira (9000 A.C — Presente), a Arte Colonial Brasileira (1500 - 1670), o Barroco Brasileiro (1670 — 1816), o Neoclassicismo (1816 — 1850), o Romantismo, Realismo, Naturalismo e Simbolismo (1850 — 1922), o Modernismo (1922 — 1951), e então, a Arte Contemporânea Brasileira, que se estende desde 1951.

Nas entrelinhas da criação, esses movimentos artísticos têm uma característica muito forte em comum: todos refletem a identidade social, cultural e histórica do Brasil, cada um em sua respectiva época — e, por isso, são tão ricos. Os modos de expressão visual sempre se adaptaram e marcaram a história com autenticidade e singularidade, pois os brasileiros, tão criativos, sempre buscaram reinterpretar a linguagem.

A capacidade humana de ressignificar é uma constante na cultura brasileira, principalmente marcada por um processo de antropofagia cultural (conceito cunhado por Oswald de Andrade, no Manifesto Antropofágico de 1928), que defende a ideia de devorar influências externas, a fim de transformá-las em algo genuinamente nacional. Essa postura, ao mesmo tempo crítica e criativa, está presente no modernismo, nas batalhas de slam, dos ateliês às redes sociais.

No entanto, com o advento da tecnologia, essa mudança se tornou ainda mais latente e o que antes poderíamos considerar como sendo uma arte slow content — onde há valorização da qualidade sobre a quantidade e a velocidade — hoje, ganhou novas interpretações, tornando-se sinônimo de entrega diária, performance ritmada e produção exacerbada — nada parecido com a arte que entendemos durante os séculos.

O Brasil, que um dia usou a arte como propósito cultural, religioso ou de representação social, com refinamento, cuidado e responsabilidade, hoje, se vê imerso em narrativas confusas, ansiosas e antiéticas, acumulando bilhões nas mãos de poucas pessoas que se autodenominam "artistas", mas, que tudo o que promovem é a obra da destruição parcial da sociedade, através de divulgações e propagandas maliciosas.

Mas esses "produtos" não poderiam existir sem, é claro, um consumo deliberado por parte da sociedade, que hoje vive o conceito do que podemos chamar de arte "fast content", focada na relevância momentânea, na velocidade e na quantidade, a fim de engajar rapidamente. Converte o espectador em consumidor por meio de estímulos breves, pouco reflexivos e, muitas vezes, descartáveis. A produção, então, deixa de ser contemplativa e investigativa, passando a obedecer a métricas, algoritmos e tendências. Neste modelo, o artista é empurrado a se tornar "produtor de conteúdo", e a obra de arte se transforma apenas em "entregável" — perdendo sua profundidade simbólica e sua capacidade de provocar rupturas reais (papel histórico da arte brasileira).

Hoje — além de atores, artistas plásticos, estilistas, dançarinos, compositores, cantores — o Brasil conta com mais de 2 milhões de pessoas trabalhando como influenciadores digitais (dados da Agência Influency.me): pessoas comuns que se tornam famosas pelo seu estilo de vida, sua rotina e suas indicações. Funcionam como especialistas que fazem curadorias de lugares, produtos, marcas e, assim, influenciam quem os assiste.

Entretanto, como na vida há dualidade, há influenciadores que usam sua imagem para promover boas influências e uma parcela considerável que opta pela destruição. Grande exemplo dessa realidade negativa é a divulgação das casas de aposta — claramente planejadas para que o jogador perca dinheiro — e os conteúdos apelativos, que expõem o corpo a fim de ganhar engajamento de uma rede doente em relação à pornografia, muitas — e tantas — vezes por meio de crianças, promovendo o abuso infantil e a adultização. Por esse viés, entendemos que boa parte da arte brasileira se perdeu ao longo do tempo, tornando-se um espaço fértil para vícios e doenças sociais.

O debate sobre o papel ético de influenciadores digitais torna-se urgente quando se percebe que muitos jovens e crianças têm neles suas maiores referências de comportamento, valores e vocabulário. A arte, neste contexto, é frequentemente manipulada como estética vazia ou como sensualidade precoce, esvaziando seu poder transformador e educativo. A banalização do corpo, o incentivo ao consumo compulsivo e a apologia ao ganho fácil escancaram uma cultura de imediatismo que fere a formação da sociedade.

Do outro lado da moeda, contamos com influenciadores digitais brasileiros que prestam um serviço positivo à sociedade, produzindo conteúdo de valor e repassando ideias que fomentam a educação, a cultura e, consequentemente, uma sociedade mais atenta e comprometida. A essa parcela é que se destinam os agradecimentos, pela influência que exercem nas atitudes, comportamentos e autoestima de crianças, jovens e adultos brasileiros que crescem diante das telas com o mesmo conceito de arte "fast content", mas apontados para um caminho rico em conhecimento.

Mesmo com influências positivas nas redes sociais, vislumbramos uma sociedade mais engajada em um mundo de cores reais, olhos nos olhos, diálogos criativos e não moldados por inteligências artificiais que entregam conteúdos prontos — vislumbramos a criação. Isso porque, segundo a 5ª edição da pesquisa Hábitos Culturais, promovida pela Fundação Itaú em parceria com o Datafolha, 87% dos entrevistados concordam que vivências e atividades culturais reduzem a ansiedade e o estresse e melhoram a qualidade de vida.

Esse dado reflete a necessidade de uma mudança urgente nos aspectos culturais e sociais de um Brasil que sempre permaneceu rico em informação, manifestações e expressões artísticas, mas que, em um momento de deficiência — ou dependência —, se viu conduzido por caminhos tortuosos e, sem monitoramento, assinou um contrato com a desinformação.

Diante desse cenário, é preciso refletir: qual cultura estamos nutrindo? Qual arte estamos perpetuando? O Brasil, tão plural em suas manifestações culturais, precisa resgatar os espaços de criação que incentivam o autodesenvolvimento, a singularidade e o senso de coletividade. É nos pequenos teatros, nas bibliotecas, na interação com a natureza e com a diversidade que pulsa uma arte comprometida com o humano.

A cultura brasileira sempre foi um ato de resistência — às vezes silenciosa, outras, ensurdecedora. Hoje, mais do que nunca, é preciso defendê-la não só com políticas públicas, mas também com escolhas cotidianas: consumir criticamente, compartilhar conteúdo verossímil, valorizar a arte local e questionar os padrões impostos.