E uma vez mais a arte limita-se a impressionar-me.
Critico fugazmente todos os limites que considero necessários.
Não me considero de todo conservadora, mas sim, apreciadora de um bom quadro, de uma bela estátua, uma incrível tapeçaria ou até mesmo um simples tom pastel.
Mas, uma vez mais, e quantas vezes mais de futuro se sucederá situações semelhantes, o papel da mensagem sobrepõe-se à delicadeza do pincel.
E eu, tal como todo o público, fica embasbacado.
Ao mínimo detalhe com o carvão. Aos centímetros com a esquadria. Às misturas dos primários...
Por vezes insignificante.
A mensagem insiste em ganhar espaço, forma e tamanho. Mesmo quando tentamos encará-la com a relevância que supomos que merece.
A mensagem supera, às vezes, o limite técnico da própria obra.
Mas uma vez mais, e certamente muitas outras, haverá pausa.
Momentos de paragem, de reflexão e de inspiração.
Aqueles momentos em que o ar se prende e, as palavras nos faltam.
A mensagem ganhou outro tom, ganhou cor, forma e relevo. Ganhou um literalmente um corpo.
Obras, onde na verdade o corpo é a presença no museu e a mensagem a obra.
Saiu dos livros de poesia e dos pensamentos que queremos sistematicamente enganar.
Transformou-se em dor, encapsulada num corpo imóvel, exposto como quem observa uma relíquia num museu.
Falo no de The Maybe, uma obra controversa onde se dorme, ou se fingem sonhos, no espaço cultural.
Uma obra protegida por vidro. Praticamente intocável.
Como se ali, já não fosse possível fazer nada mais.
A atriz que elabora a performance, poderá apenas fingir um sono profundo, como se no seu espaço íntimo estivesse.
É, certamente, uma performance de difícil apreensão, até que finalmente se compreenda: a mensagem é o que importa.
Um corpo, que tanto poderia estar vivo ou morto.
Um corpo que descansa suavemente numa caixa de vidro, como quem descansa no seu conforto.
Neste caso com roupa do dia a dia, nem direito a pijama.
Porque a vida é feita de imprevistos.
A mensagem tem uma história que marcou...
Ora explica Tilda Swinton, quando fala das suas perdas pessoais.
Não fosse assim, a mensagem ainda mais poderosa.
Porque a arte não é mera disciplina do detalhe, a arte transporta ideias e exige debate, a qualquer hora do dia, com qualquer intensidade.
The Maybe transporta-nos para o flexível, para o imprevisível, para os detalhes mal previstos e para indecisões de última hora.
Faz-nos tremer. Numa era de valorização da saúde mental, confronta-nos com a fragilidade do corpo, com a delicadeza da mente e com o estalar súbito que nos retira do mundo de carne e osso.
Dentro da caixa de vidro, a mensagem respira. Não se trata de tinta, não falamos de bronze, nem sequer um objeto enquanto peça da obra.
É carne, osso e silêncio.
Um corpo que, em 1995, ganhou forma sob a execução de Swinton na Serpentine Gallery, em colaboração com a artista Cornelia Parker. Reencenada em 1996 no Museo Barracco e, por fim, em 2013 no MoMA, concretizada uma vez mais por Tilda Swinton.
Embora a colaboração de Cornelia Parker tenha sido essencial para a instalação que acompanhava a performance, a autoria da peça é atribuída a Tilda Swinton, que idealizou e executou a performance.
Parker contribuiu com a criação do ambiente ao redor da vitrine.
Entre sono e vigília, exposição e clausura, Swinton tornou-se a obra.
O momento, que dura cerca de oito horas não é divulgado.
A mensagem não pretende publicidade.
A morte, a doença, o fugaz acontece quando menos esperamos, tal como esta performance, na qual o público não foi convidado. Apenas aconteceu.
A divulgação não é um propósito da mensagem que se quer transpor.
Tal como esta performance, no qual o público não foi convidado.
Havia a possibilidade do encontro, um tropeçar no imprevisto, suspenso entre curiosidade e desconforto.
Para uns, era apenas uma celebridade em repouso, para outros, um corpo vulnerável e, havia ainda quem visse um espelho ou um futuro, uma lembrança de que todos nós podemos, um dia, estar imóveis diante do olhar alheio.
The Maybe não pede leitura técnica nem análise formal.
Pede silêncio.
Pede respeito.
Pede análise e reflexão.
Pede ainda, confronto com a própria finitude, com a fragilidade humana e, com a estranheza de ver alguém transformado numa peça de museu.
É, simultaneamente, memento mori (em latim, “lembra-te que vais morrer”) e um gesto de resistência contra a pressa, contra a banalidade do consumo artístico e das pequenas futilidades vida.
Porque há mensagens que não se podem pintar, nem esculpir, nem escrever. Podem apenas ser vividas, no instante da surpresa.
Inicialmente, foi uma obra que me fez rir. Fez pensar os limites da arte. Mas, uma vez mais a mensagem superou tudo.
Agora, resta-nos dormir sobre o assunto.
Pensar e discutir a obra.
Analisar a mensagem, entender o papel do corpo e da vida.
Pensar como podemos ser peças de museu um dia.
O poder da arte é indiscutível. Estamos numa era diferente.
A arte contemporânea, impressionou-me uma vez mais.















