Como já compartilhei em artigos anteriores, estive recentemente em Helsinki e em Tallinn e como sempre faço quando estou em um lugar novo, fui diversas vezes em supermercados. Normalmente esse é um dos meus passeios preferidos em viagens, especialmente em lugares fora do comum como estes. Acredito muito que no supermercado podemos ter uma noção melhor de comportamentos culturais desses países e nos divertir conhecendo produtos novos e comprando presentinhos melhores do que nas lojas de souvenir criadas para turistas - e geralmente cheias de produtos que na verdade foram feitos na China, né?

Mas o mais curioso dessa vez foi o fato de que não conseguia compreender nada do que estava escrito nas embalagens. Na grande maioria das vezes, as embalagens finlandesas e estonianas vinham com as palavras na língua local ou em sueco, poucas vezes tendo uma versão em inglês e, sempre que não estavam em inglês, pra mim era completamente impossível compreendê-las.

Por conta disso, acabei escolhendo muito mais pelo contexto e pela embalagem do que pela real compreensão do produto. Diante de uma prateleira cheia de opções, eu naturalmente me sentia atraída pelas embalagens mais bonitas, bem-feitas ou diferentes. Com exceção de poucos produtos, não conhecia as marcas locais, nem sabia quais eram as mais tradicionais ou populares, e não tinha qualquer ideia de quais eram as preferências de consumo de quem morava lá. Sem todas essas referências culturais, tudo virava novidade - e o critério visual era o mais importante de todos.

E aí percebi que esse comportamento não acontece só quando estamos viajando e diante de línguas que não entendemos. A indústria alimentícia sabe muito bem que nós, consumidores, compramos pela embalagem. Existe toda uma ciência por trás das cores, dos formatos, das fontes escolhidas para os rótulos e até da textura do material usado. Nada ali é por acaso. E, claro, isso não é usado apenas para facilitar a escolha ou por questões puramente estéticas, é também uma ferramenta poderosa para nos influenciar e, muitas vezes, nos enganar.

Um exemplo clássico, que já comentei sobre algumas vezes no meu instagram, são os produtos ultraprocessados vestidos de “saudáveis”. Cores verdes, imagens de folhas, grãos ou frutas frescas, palavras em destaque como “natural”, “fit”, “artesanal”. Muitas vezes, quando viramos a embalagem para ler a lista de ingredientes, percebemos que aquele produto está longe de ser nutritivo ou equilibrado nutricionalmente. E a indústria sabe que nem todo mundo vai virar a embalagem. No final, com a pressa do dia a dia, o impacto visual é o que decide a maioria das compras, né?

E isso não é uma decisão pessoal, também acontece porque o cérebro humano tende a confiar no que é mais fácil de interpretar rapidamente. É mais simples acreditar no “ar saudável” de uma embalagem bonita do que parar alguns minutos para ler e entender o que está escrito no rótulo, geralmente em letras miúdas e ingredientes que nunca ouvimos falar. E é aí que mora o perigo.

Por isso, mesmo sabendo disso tudo, continuo acreditando que sim, a gente deve comprar comida pela embalagem. Mas não olhando só rapidamente para a frente dela. A parte que realmente devemos nos dedicar a entender é a parte de trás: a lista de ingredientes e a tabela nutricional.

Essas duas partes da embalagem são as ferramentas mais honestas que temos como consumidores. Não sei se você sabe, mas a lista de ingredientes, por lei, precisa mostrar tudo o que está no produto, em ordem decrescente de quantidade - ou seja, o primeiro ingrediente é o que mais tem ali dentro. Se um pão integral, por exemplo, tem “farinha de trigo enriquecida com ferro e ácido fólico” como primeiro ingrediente e “farinha integral” só lá no final, já sabemos que ele está mais para “pão branco disfarçado” do que para um pão integral de verdade.

A tabela nutricional, por sua vez, mostra as quantidades de calorias, carboidratos, proteínas, gorduras, fibras, sódio e outros nutrientes por porção. Mas atenção: o tamanho dessa “porção” é definido pelo fabricante e, às vezes, é bem menor do que aquilo que a gente realmente consome. Um pacote de biscoito pode dizer que tem 100 calorias por porção, mas se a porção for “2 unidades” e você comer 10, precisa fazer as contas.

De acordo com o Guia Alimentar para a População Brasileira, aquele que já expliquei aqui em um artigo anterior1, que foi publicado pelo Ministério da Saúde com orientações de instituições como a Organização Mundial da Saúde (OMS), existem alguns princípios básicos para escolher melhor um produto alimentar industrializado:

  • Prefira alimentos com poucos ingredientes: quanto menor a lista, mais próximo de um alimento minimamente processado ele é.

  • Fuja de ingredientes que você não reconhece: nomes complicados que passam longe do que você pode comprar para cozinhar em casa, códigos ou siglas geralmente indicam aditivos químicos, corantes, conservantes e aromatizantes artificiais.

  • Evite produtos com açúcar como um dos primeiros ingredientes: isso inclui também outros nomes como xaropes, maltodextrina, glicose e outros, que são açúcares disfarçados.

  • Atenção ao sódio: produtos ultraprocessados tendem a ter quantidades muito altas, o que aumenta o risco de hipertensão e problemas cardiovasculares.

  • Desconfie de alegações milagrosas na embalagem: palavras como “light”, “fit”, “zero” e “integral” não significam, necessariamente, que o produto seja saudável.

  • Prefira sempre alimentos minimamente processados: frutas, verduras, legumes, castanhas, ovos, carnes frescas, grãos devem ser sempre a base da alimentação, deixando os industrializados para um consumo ocasional.

Comprar pela embalagem, no final das contas, pode e deve ser uma boa prática - mas apenas se a embalagem for analisada de forma completa. Não basta se encantar com a estética ou acreditar no que está escrito em letras grandes na frente. É preciso virar o produto, ler nas letrinhas miúdas o que realmente importa e entender o que estamos levando para casa e, principalmente, para o nosso corpo.

Seja em Helsinki, Tallinn, São Paulo ou qualquer outro lugar do mundo, a embalagem continua sendo uma vitrine que quer nos seduzir. Cabe a nós decidir se vamos nos deixar enganar pelos truques de marketing ou se o pacote vai ser um aliado para escolhas mais conscientes. Porque, no fim das contas, o que importa não é a cor da caixa ou a fonte da letra e sim o que vai parar no nosso prato e alimentar nosso corpo, né?

Até a próxima e relembro que no meu instagram sempre falo sobre as armadilhas que podemos cair nas visitas ao supermercado, me acompanhe por lá também!

Referência

1 Tudo sobre o Guia Alimentar para a População Brasileira.