Não haverá verdadeira resposta à crise ecológica a não ser em escala planetária e com a condição de que se opere uma autêntica revolução política, social e cultural reorientando os objetivos da produção de bens materiais e imateriais.
(Félix Guattari)
Let us remain exposed, and let us think about what is happening to us.
(Jean Luc Nancy)
Segundo o químico holandês Paul Crutzen (ganhador do Nobel em 1995 por seus estudos sobre a camada de ozônio) estamos entrando em uma nova era geológica: a Era do Antropoceno, em que humanos e suas intensas transformações técnico-científicas substituíram a natureza como a força ambiental dominante na Terra. Pesquisadores têm encontrado diversos indícios para comprovar essa afirmação: o aumento da temperatura do planeta em um 1ºC, a modificação permanente dos cursos de rios de todas as bacias hidrográficas do mundo, as perfurações terrestres de poços de petróleo e a destruição em massa de reservas florestais são apenas alguns deles.
A presente exposição propõe estudar formas com que o pensamento ecológico e político despontou poeticamente em obras de nove artistas da Argentina e do Brasil. Dando prioridade aos aspectos universais desse tema, a proposta é abrir caminho para que o conjunto traga uma compreensão poética acerca das transformações ambientais decorrentes de nosso atual modo de conceber a realidade, o que o filósofo francês Gilles Lipovetsky definiu como “cultura-mundo”. Esse termo refere-se a uma disseminação virtual em escala global de uma série de práticas e modos de vida como a extrema fé na Ciência, a dominação tecnológica da natureza, a miragem de um progresso ilimitado, a lógica do mercado, o hiperindividualismo, o consumo e as hipermídias.
Um processo que gerou uma miríade de problemas como os inúmeros desastres ambientais, extinções em massa, as crises econômicas, guerras, armas nucleares, grandes migrações, o aumento do nacionalismo e o subsequente fechamento das fronteiras. Quando os meios de comunicação e o ciberespaço se convertem nos mediadores primordiais de nossa relação com o mundo, o que se instala é uma ilusória ausência de limites, um imediatismo e grande distanciamento da realidade material finita gerando desorientação e até negação da vida em si, e seus estágios naturais de início, meio e fim (1). Esse distanciamento dos fenômenos locais em prol de apreender a escala global, fez com que nem conseguíssemos atingir essa concepção mundial e nem evoluir em nossa percepção de nosso entorno e do outro.
A mental illness has invaded the planet, it is banality
(Yornel J. Mártinez Elías)
O que falta então para reintegrar as intensidades ecológicas e geográficas à prática artística, científica, etnográfica, econômica e filosófica? Um ponto de partida, segundo o filósofo e estudioso Félix Guattari, seria revisar as ecologias sociais que também passam por sérias deteriorações. Há uma crise na subjetividade – seja ela social, animal ou vegetal – e a subsequente perda de sua textura com o meio e de qualquer alteridade. A saída dessa crise, segundo o pensador, seria elevar as reflexões para além da perspectiva tecnocrática sendo a articulação estético-ético-política entre meio ambiente, relações sociais e subjetividade humana – que ele nomeou de “ecosofia” – a chave para reintegrar de forma mais profunda todos esses aspectos. (2)
Poderia a arte desempenhar um papel atuante na reversão dessas crises? Como transformar passividade em ativismo e reintegrar a ação artística aos fluxos naturais? Não se trata aqui de pensar a arte como geradora de soluções para os danos ambientais, senão como uma prática que pode – ao atuar no limiar e nas frestas das coisas e das percepções individuais – oferecer novos pontos de vista e assim transformar nosso modo de pensar e produzir conhecimento. Rancière defende que “a existência de acontecimentos que excedem o pensável clama por uma arte que testemunhe o impensável (3).”
Segundo esse último, seria próprio da arte inscrever em nossa compreensão o rastro desse impensável, essas camadas de mundo possíveis que ainda não conseguimos conceber, “fazendo-nos ver” cartografias até então invisíveis. Um “fazer ver” que age aqui sob a vontade artística de se apropriar dessa paisagem e que, inevitavelmente, precisa operar dentro de uma redução e descontinuidade dessa paisagem-mundo. E é exatamente essa vontade artística – através de decalques, desenhos, tintas, dobras, medições cronológicas e geometrias – que irrompe no espaço novas formações topográficas. E, talvez, novas geografias dentro daqueles que as veem.
A exposição é o resultado de uma residência curatorial de dois meses que a curadoria fez em Buenos Aires em 2016, como parte de C.Lab Prêmio Mercosul.







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