O que temos contado uns para os outros atualmente tem feito sentido, impactado e até mesmo transformado as crenças, atitudes e decisões dos nossos interlocutores? Esse é um tipo de questionamento bem importante diante daquilo que estamos vivendo. Será mesmo que há um aprendizado verdadeiro e uma assimilação tão rápida de tudo que se comenta?

O que é traduzido ou noticiado tem se tornado apenas um canal e, ao mesmo tempo, uma tentativa desesperada de conseguir manter-se atualizado, confirmado e integrado com aquilo que circula nas redes e em nossos esbarrões rápidos de academia, corredor das empresas ou pulando de um evento para outro. Mesmo que a agenda esteja no extremo de ocupação, parece não ser o suficiente para que se sinta sem débito.

A mentira, a invenção e a falsidade emocional estão tão presentes, seja porque se repete ou porque não houve um aprendizado pessoal, ou ainda por total falta de noção de que o formato de mundo mudou. Talvez até esse mundo novo seja um pouco responsável por tanta “lorota” (mentira, história mal contada, exagero sem fundamento).

Mentir, mesmo que pareça verdade, é frequentemente para sustentar o traço enlouquecido e a historinha contada, quando não é maldade mesmo.

Por alguma razão muito específica ou por evolução do modo de agir do coletivo, isso acontece. Pertencimentos funcionais que operam sempre e absolutamente por ou para um objetivo e com regras muito únicas estão em alta.

Por outro lado, estar quieto e resoluto e estar em paz com essa estação parece démodé e solitário demais, como se não houvesse pertencimento, um tipo de gente fora do contexto, que não vale muito a pena se importar.

Talvez ser tão resoluto em suas próprias emoções e vivências seja muito ameaçador para aquele outro que está à sua volta. E assim, as pessoas têm se sentido mais seguras, mais acobertadas, como se fossem uma espécie de soldado de um batalhão, mais invisível impossível, para que não sejam incômodas. As regras são muito claras e deve-se fazer o que precisa ser feito, do tipo correr 20 km em tantas horas, usar aquele tipo de roupa, estar de um lado ou de outro com argumentos que validem aquele posicionamento.

Quando você é mais único ou diferenciado por suas escolhas, certamente será mais exposto, estará mais refém do olhar do outro.

Estamos o tempo todo escolhendo se queremos ser rabo de baleia ou cabeça de sardinha. Um ditado que te coloca exatamente em conexão com o que escolhe para você. A diferença é escolher estar lá atrás fazendo o seu, enquanto há alguém comandando, gritando, decidindo. Ou escolher ser aquela pessoa que decide para onde ir, aquele que está no controle do leme.

Redigir o seu próprio roteiro após saber como quer caminhar por ele não é algo simples. Exige de cada um certo conhecimento de si mesmo, porque total não terás, e, a partir desses dados, se sentir mais possibilitado de seguir.

E o que é ter o seu próprio roteiro? Talvez seja fazer movimentos semelhantes aos que foram apresentados no filme Um Estranho no Ninho (de 1975, do diretor Miloš Forman). Girar a roda no movimento contrário ao que os outros estão fazendo. A sua força precisa evidentemente ser maior, mas é um esforço mental, de comportamento e até de valores. Que bom que essa força existe. Essa coragem de ser você mesmo o construtor de sua história, aquele que está sempre na agenda central, escolhendo cada outra cena que compõe o seu jogo.

A conversa que circula por aqui não é para dizer ou escolher quem está certo ou errado. De qualquer forma e por algum motivo, você fará parte de um dos contextos, certamente. A ideia é provocativa no sentido de fazer pensar como estamos lidando com nossas estações no mundo e sobre respeitar a escolha do outro.

É fundamental desconstruir que a sua verdade é a mais linda, mais inteligente ou mais atual. Isso não te diminui, apenas te conecta de forma genuína com seus relacionamentos. Nem sempre você é o mais sadio, superior e inabalável por essas escolhas massificadas, que estão, de qualquer modo, acontecendo de maneira enlatada.

Pois é! Somos todos condenados a lidar com algo maior, seja por ir para um lado ou outro. Por nos mantermos sozinhos ou muito acompanhados, por estar no meio do mato, praia ou no centro de uma capital enlouquecida. O barulho do mar, como a buzina de um carro, pode ser tão curativo como enlouquecedor, e por isso não há aquilo que seja absolutamente certo.

O que é indispensável é saber como você está em cada lugar que escolhe e lidar com isso de maneira mais fluida, mais em paz, como se fôssemos todos crianças absorvendo o novo que nos é apresentado, mas nos colocando com nossas verdades, nossas diferenças, nossas necessidades muito particulares, com as quais passamos a nos identificar e, dessa forma, partilhar um pouco mais desse estado de plenitude com as outras pessoas.

Nos vemos já! Já!