Naqueles fins de fevereiro de 2022, após o início da nova fase de tensão russo-ucraniana, quando a Rússia estabeleceu uma operação especial para impedir a Ucrânia de ingressar na União Europeia e em demais organizações ocidentais, os países-membros do Conselho do Ártico, discretamente, decidiram interditar as atividades. Foi um gesto duro e dramático. O primeiro desde a sua criação em 1996. Mas, na avaliação de todos, mais que necessário. Estados Unidos, Canadá, Dinamarca, Islândia, Noruega e Rússia, pela primeira vez, sentiram-se incapazes de seguir discutindo coletivamente a gestão estratégica do Ártico. Os desafios climáticos, geopolíticos e geoeconômicos prementes, com o tempo, eram imensos. Seria, assim, impossível seguir sem margens mínimas de confiança entre os atores para avançar na discussão, deliberação e, quem sabe, solução permanente de contingências.

A região possui 14 milhões de quilômetros quadrados e é habitada por 4 milhões de pessoas. Dispõe de biodiversidade singular no planeta. Vem sendo objeto de disputas – reais e imaginárias – desde o século XVI. Servindo de rota de passagem e de destino. Levando navegadores a tentar passagem, costa a costa, pelo oceano de gelo do continente há muito tempo. Como tentou – sem sucesso – o comandante britânico John Franklin (1786-1847) em 1845 e realizou – dessa vez com sucesso – o comandante norueguês Roald Amundsen (1872-1928) em 1926.

Quando o presidente Andrew Johnson endossou a aquisição do Alasca em 1867, a Rússia, após a Guerra da Crimeia, seguia, sim, com dificuldades financeiras. Mas o que pesou forte na decisão do Senado norte-americano e do secretário de Estado, William Seward foi a consciência da existência de abundância de recursos naturais a serem explorados na região. Que, ao fundo, era a região do Ártico.

Inicialmente havia ouro. Em seguida, petróleo. Após o feito de Amundsen, uma nova rota comercial – mais curta – entre Américas, Europa e Ásia. Ainda não existia uma “consciência” sobre o Ártico. Mas o presidente norte-americano foi visionário. Pois essa “consciência” não tardou a emergir.

Veio durante a Segunda Guerra Mundial. Quando todos os fatores geopolíticos e geoeconômicos foram adicionados a premissas, indicadores e modalidades militares. Notadamente quando soviéticos começaram a dispor a região de variadas bases militares. E, após a guerra, juntamente quando os norte-americanos passaram a alocar seus submarinos nucleares na região para, de alguma maneira, conter o avanço soviético e salvaguardar a sua parcela importante de interesses no continente gelado.

Nesse contexto, o Ártico era subitamente tornado palco de disputas geopolíticas. O que conduziu o presidente Harry S. Truman, em 1946, a propor, sem sucesso, a compra da Groenlândia da Dinamarca por 100 milhões de dólares. Uma oferta que foi recusada. Como seriam todas as demais. Mas, em si, indicava o total e indisfarçado interesse norte-americano na região.

Com o avanço da Guerra Fria, a variedade e a relevância da região foram progressivamente notadas não apenas pelos norte-americanos. Mais e mais empresas e organismos internacionais passaram a se interessar por tudo que poder-se-ia encontrar nas profundezas do gelo.

A Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, em 1982, foi um marco e um *turning point* da apreciação e discussão sobre o Ártico. Desde então, para as Nações Unidas, a região era entendida como *high North, low tension*. Mas, mesmo assim, sempre demandante de atenção. Atenção essa que desembocaria na constituição do Conselho do Ártico em 1996. Quando, além dos países com porções continentais, Suécia e Finlândia apareceram como interessados, sob o argumento da contiguidade territorial.

A França, como motor diplomático da construção europeia, apresentou-se como “país polar”. Em seguida, a União Europeia passou a projetar uma política europeia para o Ártico. Depois, a China. Que, tão logo ingressou na Organização Mundial do Comércio, em 2001, também começou a interagir com o Conselho do Ártico. Inicialmente para ampliar suas rotas de trânsito. Em seguida, para inserir o Ártico em seu *One Belt, One Road*.

Ao longo do século XXI, a “consciência” sobre a região chamou a atenção para o impacto do aumento das temperaturas sobre ela. Notou-se que parcelas importantes de suas calotas polares simplesmente deixaram de existir. Impactando a biodiversidade local, regional e mundial. Tornando o Ártico objeto direto de preocupação planetária.

No âmbito de recursos, o avanço tecnológico foi deixando tudo mais nítido. Agências geológicas indicaram a existência de 13% das jazidas de petróleo e 30% das reservas de gás do mundo. Da mesma sorte, uma imensa abundância de minérios. Representando, pelo menos, 25% do estoque de terras raras, essenciais para a Economia 4.0, sem contar diamante, níquel, cobre, carvão, ferro, ouro, urânio.

A consciência desses potenciais conduziu querelas jurídicas permanentes. Notadamente entre a Rússia e a Noruega, por mais de 40 anos, até o acordo de 2010. Conduzia e conduz à pressão política dos Estados Unidos pela aquisição do Canadá, para torná-lo o seu quinquagésimo primeiro estado. E também, mais recentemente, as reiteradas investidas do presidente Donald J. Trump – primeiro em 2019 e, agora, a partir de 2025 – de adquirir a Groenlândia.