Descanso?
A internet não faz a menor ideia do que essa palavra possa significar. Quando muito, tem a ousadia de nos escarrapachar a definição do dicionário se tivermos a infeliz ideia de pesquisar por “paz de espírito”.
A internet foi, talvez, a Caixa de Pandora aberta com a sofreguidão mais irresponsável da história da humanidade. Sem fio nem pavio, e à velocidade da luz.
Se fez mais bem do que mal, ou mal do que bem, não estaremos aqui hoje a discutir a tese central de muitos doutorandos.
E, convenhamos, depois de escancarada, também é literalmente impossível voltar a fechar a tampa, como um frasco de azeitonas.
Há quem tente, claro.
Há sempre aquele amigo iluminado que jura que vai fazer um detox digital; regressa aos famosos telemóveis de teclas e desativa as redes sociais.
Apenas tentam.
Não tarda, passam duas semanas e estão de volta ao Google, que até já virou um verbo, para pesquisar qual o melhor aspirador: o bonitinho, ou aesthetic (dizem os contemporâneos) da Create, ou o famosinho da Rowenta.
Já a nossa mente, uma teia complexa, foi a força motriz por detrás desta e de outras invenções megalómanas.
E, com o advento da inovação tecnológica, criámos um cinto de utilidades digitais recheado de ferramentas, que deixariam o Bob Construtor a um canto, de inveja.
No meio de tantas engrenagens perfeitamente oleadas, ergue-se um dos reis incontestáveis, capaz de pôr tudo de olhos fincados nos pequenos ecrãs: ora, falo-vos do sagrado algoritmo!
Ele é, no fundo, aquele paparazzi de elite que persegue os famosos de Hollywood, mas aplicado a nós, aborrecidos e comuns mortais.
Ele não se ouve, não se sente e não chateia (bem, tem dias), mas não nos perde por absolutamente nada.
Confessemos o que todos já sabemos, mas dizemos apenas em sussurros para não parecermos loucos: até quando o telemóvel está bloqueado, virado para baixo na mesa do café, ele está com a sua orelha de fora a apanhar palavras-chave!
Não quer perder as fofocas.
Basta dizer “férias em Paris”, que os anúncios de viagens duplicam, “ração para cão” e de repente, mil anúncios das maiores cadeias alimentares para animais de estimação do país.
O ecrã fica minado de promoções irresistíveis que só nos ajudam a gastar dinheiro. Se a palavra que “ouve” é dinheiro, pronto... as ações e investimentos também viram anúncios cativantes que nos fazem sentir ultrapassados.
O algoritmo é uma autêntica máquina de ler personalidades. E é assim, à boleia de meia dúzia de palavras sussurradas e mal conectadas, que opera este esplendoroso ninja cibernético.
Maravilhas das maravilhas, ou não, consegue fazer tudo sem darmos por isso.
Como um verdadeiro paparazzi digital.
Mas a verdade é que ainda comete gralhas.
Ainda nos bombardeia com publicidades manhosas e perfis que em nada se adequam às nossas procuras, mas por vezes bloqueia-nos a atenção com coisas que “ele” jura a pés juntos que precisamos, e não é que ele até tem razão?
Convicto de que pode, e efetivamente decide ou indiretamente decide melhor o nosso futuro.
Parece que aos poucos o algoritmo deixa de ser uma ferramenta obsoleta para finalmente começar a trabalhar bem, talvez com a ajuda de outras inteligências artificiais.
Aqui reside a grande ironia da nossa existência conectada, às vezes ele acerta mesmo em cheio. Por momentos, este espião invisível traz até nós as influências certas, exatamente no momento em que a nossa vida precisava de um valente abanão para tomar finalmente um rumo distinto e diferente.
Altera o nosso scroll infinito, habitualmente recheado de coisas meio bobas, quedas aparatosas e danças de TikTok, e espeta-nos com conteúdo cirurgicamente acertado. Aliado ao rumo que desejamos iniciar todos os inícios de ano, com as mil promessas de que este ano vai ser!
Ora, convicto e acertado.
Parece que, aos poucos, o algoritmo percebeu que ser apenas um vendedor maçador e obsoleto já não rende. Finalmente, começou a fazer o seu trabalho de casa.
Transformou-se numa espécie de life coach não requisitado, capaz de identificar aquilo que devemos procurar (mesmo quando não sabemos que o queremos) e de nos apresentar os feeds exatos nos quais nos devemos certamente inspirar.
Aceitámos que a nossa privacidade foi pelo cano abaixo, sim.
Mas já que estamos constantemente vigiados e analisados, ao menos que o nosso carcereiro digital nos arrume a vida e nos mostre aquele vídeo motivacional de que precisávamos para sair da estagnação existencial.
Afinal, deixamos a nossa vida em cookies e damos os dados para entrar em qualquer tipo de site, porque nos deixamos afetar tanto pela “audição” de uma ferramenta que ajuda a que a nossa pegada digital seja mais calorosa? Medo do vício nos ecrãs? Já temos. Não vale a pena combater o desenvolvimento digital. Vale, sim, entender como funciona e acompanhar, saber trabalhar com ele e ele para nós.
Não queremos virar homens das cavernas, rabugentos com o fim do mundo.
Faz o trabalho de casa completo...
Já que espias, pelo menos arruma-me a vida.















