Navegando pela internet, li um post falando sobre como a geração Z — os nascidos entre 1997 e 2012 — tem priorizado investir em alimentos mais caros como uma forma de cuidar do próprio bem-estar, algo que parece ter bastante peso para essa geração. E isso me fez refletir sobre diversas questões que trago aqui para compartilhar e pensarmos juntos.
Quando falamos em comida de luxo, as primeiras imagens que costumam surgir são caviar, lagosta, filé mignon e outros alimentos que há muito tempo habitam nosso imaginário como a “comida dos ricos”. Mas a realidade atual vai muito além desses itens tradicionalmente associados ao luxo.
Eu, pessoalmente, me preocupo bastante em comer bem — e digo isso em relação à qualidade dos alimentos que consumo, não a itens sofisticados ou extravagantes. O problema é que, no mundo em que vivemos, essas duas características começam a se misturar.
Ao fazer compras no supermercado, se desejo priorizar alimentos mais saudáveis, eles serão, quase sempre, os produtos mais caros. Por exemplo, se quero escolher vegetais de melhor qualidade e colocar minha saúde em primeiro lugar, preciso buscar alimentos orgânicos, que muitas vezes custam o dobro, ou mais, do valor da versão convencional, produzida com alto uso de agrotóxicos.
Quando o assunto são os alimentos processados e ultraprocessados, a conversa fica ainda mais complexa. Já expliquei em outros textos as diferenças entre eles, mas basta observar a prateleira de molhos de tomate para perceber como os rótulos podem enganar. À primeira vista, parecem produtos semelhantes. Na prática, existem diferenças enormes na composição.
Há molhos ultraprocessados, com menor quantidade de tomate e uma longa lista de aditivos — açúcar, espessantes, aromatizantes — usados para compensar sabor e textura. E há os produtos de melhor qualidade, que são como um molho de tomate deveria ser: basicamente tomate, às vezes sal e algum conservante. A diferença de preço entre eles é gritante. O produto com melhor composição pode custar até quatro vezes mais do que o outro.
E esse não é um caso isolado. O mesmo acontece com pães, carnes, iogurtes, chocolates, queijos e praticamente todos os produtos disponíveis. Quase sempre existem versões mais baratas, feitas com ingredientes de qualidade questionável, e a versão mais cara, produzida de forma mais fiel ao alimento original.
Isso me leva a uma reflexão: como, em poucos anos, passamos a consumir produtos cada vez piores? Alimentos que hoje são pouco acessíveis para grande parte da população eram, até pouco tempo atrás, simplesmente o padrão. Quem se lembra de alguns produtos da mesma marca na versão de quando éramos crianças? Os sabores mudaram completamente e, claro, a qualidade também.
Antigamente não existia tamanha oferta de produtos com listas intermináveis de ingredientes e aditivos. O que era comum antes se tornou quase luxuoso hoje. E isso me choca de verdade.
Como foi que chegamos a um cenário em que comer comida de verdade se torna cada vez mais caro e inacessível?
A resposta não é simples. Ela passa por diversos fatores.
O aquecimento global é um deles. A produção agrícola vem enfrentando desafios cada vez maiores, e alguns alimentos têm sido diretamente impactados. Dois exemplos claros são o azeite e o chocolate. Nos últimos cinco anos, o azeite registrou aumento superior a 119%, enquanto o chocolate subiu quase 70% no mesmo período. Problemas climáticos nas regiões produtoras de oliva e cacau reduziram as safras e pressionaram preços internacionalmente.
Há alguns anos, se alguém dissesse que um vidro de azeite estaria entre os itens mais caros do carrinho de supermercado, eu dificilmente acreditaria. Hoje, essa é a realidade.
Outro fator diretamente relacionado a isso é a expansão dos alimentos ultraprocessados. De acordo com o Guia Alimentar para a População Brasileira, elaborado pelo Ministério da Saúde, esses produtos são formulações industriais feitas majoritariamente de substâncias extraídas de alimentos, derivados ou compostos sintetizados em laboratório, com adição de corantes, aromatizantes, realçadores de sabor e diversos aditivos que tornam o produto mais palatável e durável.
O aumento do uso desses componentes está ligado, entre outras coisas, ao custo de produção. Quando a matéria-prima encarece, a indústria recorre a substituições e formulações que mantêm o preço competitivo e preservam características sensoriais — ainda que o resultado seja nutricionalmente muito inferior.
E aqui entra um ponto delicado: a ausência de políticas públicas mais rigorosas que limitem a oferta de produtos de baixíssima qualidade nutricional. Diversos estudos já associaram o consumo elevado de ultraprocessados ao aumento de doenças crônicas. Ainda assim, esses produtos continuam disponíveis e, muitas vezes, mais acessíveis do que os alimentos in natura.
Não dá pra responsabilizar exclusivamente o indivíduo por suas escolhas quando o ambiente alimentar é estruturado de forma tão desigual. A responsabilidade também é coletiva e institucional.
Gostaria de ser mais otimista, mas acredito que se os desafios climáticos e econômicos se intensificarem, a tendência é que alimentos de melhor qualidade se tornem ainda mais restritos a uma parcela da população.
Se antes o luxo era comer caviar, hoje também pode ser escolher um molho de tomate que tenha apenas tomate na composição. Pode ser comprar um azeite sem misturas. Pode-se comer um chocolate com alto teor de cacau e poucos ingredientes. Isso é, no mínimo, revoltante.
Se você tem a possibilidade de escolher, leia os rótulos. Não se deixe convencer apenas pela embalagem ou por alegações de marketing. Observe a lista de ingredientes, compare versões, priorize alimentos com composição mais simples.
E, sempre que possível, busque informação. O próprio Guia Alimentar para a População Brasileira é um documento acessível e esclarecedor. Já escrevi aqui na coluna um artigo detalhando seus principais pontos e recomendo a leitura para quem deseja compreender melhor como fazer escolhas mais saudáveis.
No fim das contas, comer comida de verdade não deveria ser privilégio. Deveria ser o básico, né?
Referência
Terra. Páscoa 2025: por que o preço do chocolate subiu quase 70% em cinco anos.















