Quando eu era pequena, era muito comum ouvir falas do tipo “o Brasil não produz filmes bons, só aquelas comédias besteirol” e “música brasileira é difícil ser boa, são exceções”. Felizmente, não ouvia muito disso vindo dos meus pais, que sempre apreciaram boa MPB, samba e até rock nacional. No entanto, confesso, me deixei contaminar por esse pensamento e durante boa parte da minha infância consumi muito mais cultura estadunidense do que a do meu próprio país. Meus amigos da escola também eram assim, e acho que faz parte aderir ao gosto das massas para se enturmar.
Zoey 101, Drake e Josh, Zack e Cody: gêmeos em ação, High School Musical, Camp Rock, Britney Spears, Beyoncé, Rihanna – esses foram alguns dos meus incansáveis ídolos ao longo da infância. Tudo vinha dos Estados Unidos, e era, é claro, um elemento de coesão social com o grupo que eu frequentava, que na época se resumia às crianças da escola, vez ou outra algum colega da rua. Aulas de inglês também sempre fiz e entendo o intuito dos meus pais com isso (inclusive, agradeço!); afinal, era a língua do futuro. Vamos tentar esquecer que isso me impediu de aprender espanhol, por exemplo, que, inclusive, é a língua materna do meu pai.
Foi só na adolescência, se me lembro bem, que essa fissura pela cultura americanoide começou a ser questionada – talvez nem seja essa a palavra, pois não houve questionamento, mas para primeiros efeitos vamos deixar assim. E, pasme, a mudança veio de nada mais, nada menos que da minha descoberta pelo gênero musical que segue sendo, hoje ainda, um dos meus queridinhos: o funk.
Crescendo em uma família de classe média, cujos pais davam muito valor à educação e à ascensão social, entendo que eles não gostavam desse tipo de música (mesmo minha mãe sendo do estado onde nasceu o funk), uma vez que ia de encontro com essa aspiração de vencer a estratificação social. Na escola particular, não era diferente: meus amigos nunca tinham ouvido um "Boladona", ou "Glamurosa"; muito menos uma Valeska Popozuda, um MC Sapão, e que dirá um MC Catra. As referências deles se resumiam em, no máximo, "Bonde do Tigrão".
E então entraram pessoas na minha vida de fora desse ciclo. Pensando agora, acho que foi até antes da adolescência; tinha por volta dos meus 10 anos. Conheci a sobrinha de uma amiga da minha mãe, que morava em Santos e frequentava a escola pública, e também uma menina da minha idade, cuja mãe trabalhava em um apartamento do meu condomínio – dela eu sou amiga até hoje –, e também ia às escolas públicas da cidade. Era incrível como a vivência delas era completamente diferente da minha!
Fato é que comecei a ouvir funk com elas, e claro, como todo mundo, no começo eu achava um absurdo: as letras, as danças, os clipes das músicas. Mas se tem algo através do qual o funk conquista, é a batida, e aos poucos, mesmo com vergonha, comecei a gostar. Na minha escola, fui eu que apresentei e logo todos os meus amigos gostaram também. Não pegou muito bem para as professoras e responsáveis, mas sempre ouvíamos no rádio ao qual tínhamos direito no recreio.
Quando finalmente entrei na universidade, o cenário já tinha mudado muito: o funk já era um pouco mais aceito, ainda com suas restrições e críticas; contudo, eu já não tinha mais vergonha de falar que era meu estilo de música preferido. Defendi e defendo até hoje o que acredito ser uma das formas de expressão mais cruas e fidedignas da cultura brasileira: o funk traz à tona a criatividade que habita nas periferias de nossas cidades, a resiliência e a força do povo brasileiro frente às dificuldades impostas pela desigualdade e, de quebra, ainda faz isso com uma batida que torna impossível ficar parado.
Foi por essa época também, entre sair do ensino médio e o primeiro ano da Universidade, que comecei a expandir meus conhecimentos sobre a cultura brasileira – tardiamente, sim, mas ainda em tempo de reverter a ideia de que não temos filmes, literatura, música e arte. Como boa aspirante ao curso de Letras, li muitos clássicos da nossa literatura, que permanecem com lugar de prestígio não só na nossa cultura, como no meu coração. "Capitães da Areia", "Vidas Secas", "Memórias Póstumas de Brás Cubas", "A hora da Estrela", dentre muitos outros, me conquistaram de uma forma que eu gostaria de poder esquecer as histórias só para poder lê-las pela primeira vez de novo.
E o primeiro ano no curso de Letras foi uma baita explosão de cultura com contos, artigos, filmes e música. Daí para frente, me tornei uma verdadeira bairrista com a nossa cultura: não trocaria por nada nossa arte! Isso sem falar em pequenos elementos e costumes do nosso dia a dia, como um belo filtro de barro, Havaianas, tomar café mesmo em dias de calor agudo e aquela cervejinha gelada mesmo em dias mais frios (ambas as bebidas no famigerado copo americano), além de guardar meio limão na porta da geladeira junto a uma pilha e um super-bonder.
Vejo com alegria como os brasileiros têm apreciado mais a própria cultura nos últimos anos, a do Brasil com S mesmo. Parece que estamos em alta no mundo todo, na verdade: nosso cinema (muito bem representado com Fernanda Torres e Wagner Moura, por exemplo, nos últimos dois anos), nossa música (com pessoas como Anitta exportando o gênero para a gringa) e até nosso estilo de vestir (camisetas do Brasil e Havaianas têm sido verdadeiros artigos de moda lá fora).
Sinceramente, fico extremamente feliz com isso! Enche meu coração de alegria ver uma nação inteira comemorando vitórias no Oscar, no Grammy, nas Olimpíadas; acredito de verdade que quando um brasileiro vence em outros cantos do mundo, ainda mais quando ele ou ela também vem de camadas batalhadoras da sociedade, todos nós vencemos um pouquinho. Eu sinto um orgulho imenso, que não cabe em mim, de ser brasileira nessas horas.
E em extensão a isso, ultimamente tentando realizar cada vez mais o meu sonho de viajar para o máximo de lugares que eu conseguir, conheci países como Colômbia, Uruguai e Chile e descobri uma nova paixão: a América Latina. Com artistas como Karol G e Bad Bunny fazendo um sucesso estrondoso nos últimos anos e conhecendo um pouco mais das histórias dos países desse continente, me sinto cada vez mais conectada com essa terra. Passei a dizer que a América Latina é minha religião, e, mesmo tendo sonhado uma vida inteira em conhecer só lugares como Nova York, Inglaterra, Paris e Roma, hoje minha prioridade é conhecer primeiro nossas terras hermanas.
Comecei a fazer aulas de espanhol, ouvir mais músicas dessas nações, consumir mais literatura dos países vizinhos e entender um pouco mais da trajetória única, cheia de resistências e revoluções que pegam fogo para defender nossos povos de uma nova colonização e de um novo extermínio. Parece que sempre tem alguém interessado em mexer com a gente, porém se a história nos mostra algo é que somos duros na queda (graças a dios nasci en latinoamerica!); parece que sempre tem um predador querendo nos re-re-descobrir, e cabe a nós mostrarmos que aqui não é território deles.
Ainda assim, por outro lado, vejo que ainda temos muito a trabalhar nas bases para evitar cenas como estender uma bandeira dos EUA, país imperialista que está tentando fundar novamente uma nova forma de colonialismo, em pleno aniversário da independência do nosso país. Se por um lado, nossa cultura e nosso jeito de ser têm sido cada vez mais valorizados, por outro, temos os patriotas que veneram outras culturas.
Enfim, é um caminho construído aos poucos, com muito conhecimento sobre nossa história, valorização de quem somos e paciência. Nosso Brasil com S e nossa América Latina serão cada vez maiores no contexto global. Demoramos um pouco para conseguir mostrar isso ao mundo, entretanto, agora que conseguimos expor nossas relações calorosas, nossa garra e nossa felicidade mesmo em meio às (imensas) adversidades que seguem nos assolando, tudo isso com artigos culturais de primeira, eu sinceramente acho que nada pode nos parar.















