O esporte, mais do que uma forma de manter o corpo em forma, é uma poderosa ferramenta para preservar a saúde do cérebro e reduzir o risco de doenças neurodegenerativas, como Alzheimer, Parkinson, esclerose múltipla e outras condições que comprometem a função cognitiva e motora.

Nos últimos anos, a ciência tem revelado com cada vez mais clareza que a prática regular de atividade física desencadeia uma série de adaptações neurológicas e bioquímicas capazes de proteger o sistema nervoso, retardar a progressão de doenças já instaladas e melhorar a qualidade de vida dos pacientes. A conexão entre movimento e cérebro começa na base: quando nos exercitamos, aumentamos a circulação sanguínea, garantindo que o cérebro receba mais oxigênio e nutrientes.

Isso não apenas melhora o funcionamento imediato, como também promove um ambiente favorável à neuroplasticidade, que é a capacidade do cérebro de criar e reforçar conexões neurais. A neuroplasticidade é essencial para compensar perdas cognitivas e motoras, permitindo que outras áreas do cérebro assumam funções comprometidas por danos ou degeneração.

Um dos mecanismos mais fascinantes ativados pelo exercício é o aumento da produção do BDNF (fator neurotrófico derivado do cérebro), uma proteína que atua como “fertilizante” para os neurônios. O BDNF estimula o crescimento e a sobrevivência das células nervosas, além de melhorar a comunicação entre elas. Em estudos com pacientes com Alzheimer, níveis mais altos de BDNF estão associados a um declínio cognitivo mais lento, enquanto em casos de Parkinson, essa proteína ajuda a proteger os neurônios produtores de dopamina, que são cruciais para o controle dos movimentos. Outro ponto importante é que o exercício regula neurotransmissores como dopamina, serotonina e noradrenalina, que influenciam diretamente o humor, a motivação e a capacidade de concentração, funções frequentemente comprometidas em doenças neurodegenerativas.

A prática esportiva também combate a inflamação crônica, um fator de risco para a degeneração neural. Doenças como Alzheimer e Parkinson estão associadas a processos inflamatórios persistentes no cérebro, que destroem gradualmente os neurônios. Exercícios moderados e regulares reduzem a liberação de marcadores inflamatórios e aumentam a presença de substâncias anti-inflamatórias naturais. Além disso, a atividade física estimula a liberação de endorfinas e outros compostos que reduzem o estresse oxidativo, um dos vilões que danifica as células cerebrais.

Esportes que combinam esforço físico e estimulação cognitiva, como tênis, vôlei, artes marciais e dança, oferecem benefícios ainda mais amplos, pois exigem tomada de decisão rápida, coordenação motora e memória. Essa dupla exigência física e mental fortalece circuitos neurais complexos e mantém o cérebro constantemente desafiado, algo fundamental para retardar o avanço de doenças que afetam a cognição. Mesmo atividades mais simples, como caminhadas em ambientes naturais, podem ter efeitos significativos, pois a combinação de movimento, luz solar e estímulos visuais variados ativa múltiplas áreas cerebrais.

Para quem já convive com uma doença neurodegenerativa, o esporte não é apenas uma forma de preservar o que ainda está saudável, mas também de recuperar parte da autonomia. No Parkinson, por exemplo, exercícios de resistência e treino funcional ajudam a melhorar o equilíbrio e reduzir a rigidez muscular. Em pacientes com Alzheimer, a prática regular pode melhorar a orientação espacial, diminuir episódios de agitação e favorecer interações sociais, que por si só são protetoras contra o avanço da doença. A socialização que o esporte proporciona também é um fator poderoso, pois reduz o isolamento, melhora a autoestima e estimula áreas cerebrais ligadas à linguagem e à emoção.

A tecnologia, cada vez mais presente no esporte, também tem potencial para ampliar esses benefícios. Dispositivos vestíveis que monitoram batimentos cardíacos, qualidade do sono e intensidade dos treinos permitem ajustes personalizados, evitando esforços excessivos e garantindo que o exercício se mantenha seguro. Realidade virtual e videogames ativos estão sendo utilizados em reabilitação neurológica para simular movimentos e cenários que desafiam a coordenação e a atenção, tornando o processo de treino mais envolvente e eficaz.

É importante lembrar que, para atingir esses benefícios, a regularidade é mais importante que a intensidade extrema. Exercícios de baixo e moderado impacto, realizados de forma consistente, já são capazes de promover mudanças estruturais no cérebro. A personalização também é essencial: um programa de treino deve considerar a condição física, a fase da doença, o histórico médico e as preferências do indivíduo, garantindo segurança e prazer.

A mensagem que a ciência deixa é clara: não existe idade para começar, e mesmo quem nunca praticou esportes pode colher benefícios significativos ao incluir atividades físicas na rotina. O esporte não é uma cura para as doenças neurodegenerativas, mas é uma das ferramentas mais eficazes para preveni-las, controlá-las e melhorar a vida de quem convive com elas. Ao mover o corpo, estamos enviando ao cérebro um sinal poderoso de que queremos mantê-lo ativo, adaptável e forte. Cada passo, cada treino, cada partida é mais do que um exercício físico: é um investimento em anos de lucidez, autonomia e dignidade.