Nocetra geme ao inverso
Eurise engole o vento
Ocira atira e seguraNocetra parece irracional
Tessia trabalha com sangue entre as pernas
Anaíma vem vindo parada pelo corredorNocetra encarna muitas mulheres ao mesmo tempo.
Nocetra é uma exposição evocativa que busca entrelaçar, a partir de uma perspectiva corpórea, sensações e experiências emocionais para além do pensamento abstrato. A obra de Vivian Caccuri desafia a premissa moderno-colonial de que o conhecimento é puramente racional, e insiste que a sabedoria pode se originar do músculo, do nervo, da mucosa, da exalação. Consistente com a prática da artista, a exposição se constrói em torno do som — especificamente, de gravações de seus órgãos internos durante o orgasmo —, uma ode aos prazeres viscerais e historicamente silenciados da experiência feminina. Caccuri revela uma dimensão de si que é profundamente pessoal e privada — uma parte íntima das sensações de seus órgãos.
Este conjunto recente de obras parte do desejo do artista de ir além da tendência de racionalizar cada gesto e desmantelar a falsa dicotomia entre corpo e mente, ou sentimento e pensamento. Por meio de paisagens sonoras imersivas, animações, sonogramas bordados, desenhos e esculturas, Caccuri retrata o momento fugidio em que a emoção exaltada dissolve a consciência — quando as fronteiras do eu se derretem em pura sensação e restauram um ritmo interior do tempo há muito perdido. Tais sons privados são amplificados e projetados no espaço, pareados com imagens de mulheres que se dissolvem em abstrações. Nocetra permeia o limite entre o público e o privado, e convida o público a ouvir e sentir junto.
Nas palavras da artista, os sonogramas são “uma geologia interna” — o espectro dos órgãos que a artista gravou durante um orgasmo usando um estetoscópio digital, incluindo a batida do coração, respiração, voz, movimento e respostas musculares involuntárias. Estas gravações íntimas foram traduzidas em abstrações visuais por meio de espectrogramas sonoros e se tornaram a base para desenhos, sonogramas bordados e obras têxteis que oscilam entre imagem e vibração. O bordado, atividade historicamente restritiva que mantinha as mulheres no âmbito doméstico, é reapropriada como ato radical de expressão e subversão que partilha, por meio de imagens, os elusivos sons do prazer feminino.
A obra de Caccuri nos chama à rebelião contra a tirania da produtividade e contra a perseguição da clareza, convocando-nos a acolher o medo da obscuridade, o medo de não pertencer e de cortar raízes. Esta exposição nos lembra que a verdadeira compreensão emerge de um engajamento sensual, corporificado — destacando a necessidade do sentipensar, termo que sugere o entrelaçamento inseparável de sentimento e pensamento. Ao fazê-lo, Caccuri encoraja o público não só a refletir sobre o poder de suas próprias sensações corpóreas, mas também a reconsiderar as maneiras com que as estruturas sociais têm historicamente suprimido a experiência feminina do prazer, não raro silenciando ou invisibilizando os sentimentos privados.













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