O quéchua é uma língua muito doce. Talvez eu sinta isso porque é minha língua materna ancestral em risco de extinção, e porque sinto nostalgia de fazer parte de uma cultura de língua milenar, silenciada, esquecida, invisibilizada, e porque sinto ao mesmo tempo que estamos todos deixando para trás, e com todos quero dizer a humanidade, mais uma língua que se perderia. Sua sonoridade abre um portal de memórias muito imersas na natureza que me viu crescer e que eu via enquanto crescia.
O título desta exposição de pinturas, Ambi Yaku, surgiu de repente, no meio de uma sessão enquanto eu pintava, da mesma forma que nasce a água, da mesma forma que a tinta fluía nas telas, saiu do silêncio das sessões da oficina de pintura como cor, ou como uma revelação ou uma sincronia em um diálogo com o passado que mantenho com essa língua milenar, que me lembra, por exemplo, como os Ingas curam os corpos banhando-se com folhas da árvore do arco-íris que cresce à beira do rio, ou combatem o medo dos bebês dando-lhes para beber a espuma da água das cachoeiras.
(Texto de Carlos Jacanamijoy)













![Colectivo Acciones de Arte, No+ [Não mais] (detalhe), 1983. Cortesia da MASP](/attachments/dc40768cdeeb3efde6f401458c89b480eccc9b3b/store/fill/330/330/78e1c0c0e74593dec16749d28f958badc81211c6cbebdeb8b40e4dd2be4a/Colectivo-Acciones-de-Arte-No-plus-Nao-mais-detalhe-1983-Cortesia-da-MASP.jpg)


