Suas obras lidam com a substância abismal do que é ultracomum, daquilo que todos nós observamos o tempo todo e que podemos sentir nos nervos. No entanto, ele não vai atrás de representações, afinal, o assunto não são as coisas, mas o potencial da vida em si, aquilo que antecede tudo o que existe. Cada lance vem para tornear a pulsão vital anterior aos fenômenos, a disposição anterior à ideia. O que interessa ao artista são as maneiras plurais da vida se revelar, os modos de viver, mas não como catalogação de fatos históricos, e sim como diagrama de possibilidades.
(Germano Dushá)
A Mendes Wood DM tem o prazer de apresentar Ao redor da distância, primeira exposição individual de Paulo Monteiro em São Paulo após sete anos. Um diálogo contínuo entre pintura e escultura conduz a mostra, revelando trabalhos inéditos do artista que investigam a matéria e sua capacidade de se transformar em diversas formas. Pela primeira vez no amplo espaço da galeria da Barra Funda, Monteiro nos convida a interagir com suas pinturas, esculturas e objetos de variadas dimensões, instigando-nos a explorar o ambiente, observar de perto, tomar distância e refletir sobre as conexões entre nossa vida interior e as formas do cotidiano.
Uma estrutura elevada, projetada como uma espécie de base, exibe na mostra formas de diferentes naturezas. Cortes, empilhamentos, relevos, dobras e desmanches trazem à tona esculturas abstratas, com exceção de algumas delas que permitem a identificação de figuras, como martelos, pregos e fios — objetos que acompanharam o artista ao longo de sua trajetória, emergindo de desenhos de sua juventude e de memórias de infância.
Natural de São Paulo, Paulo Monteiro iniciou sua jornada artística na adolescência, imerso no universo das histórias em quadrinhos, inspirado por nomes como Robert Crumb e Gilbert Shelton. Paralelamente, explorava pequenas esculturas com materiais do cotidiano, guiado pelo incentivo de seu pai. Na faixa dos 20 anos, influenciado por Philip Guston, decidiu abraçar a pintura como sua vocação. Entre 1983 e 1985, cofundou, ao lado de Carlito Carvalhosa, Fábio Miguez, Nuno Ramos e Rodrigo Andrade, o coletivo Casa 7, responsável por reintroduzir a pintura figurativa no panorama artístico.
A partir do final da década de 80, sua pesquisa começou a dialogar com questões da arte brasileira, revisitando o Concretismo dos anos 50 e o Neoconcretismo dos anos 60. Influenciado por Mira Schendel e Willys de Castro, Monteiro desdobra o plano pictórico em dimensões tridimensionais, criando uma interação entre as camadas de tinta que compõem suas obras. Linhas se entrelaçam e se dissolvem, criando uma liberdade que evoca sensações ambíguas, como se estivessem descoladas de seus próprios contornos. Suas pinturas mais recentes exploram imagens que emergem da sobreposição de camadas, desafiando a uniformidade das cores chapadas.
“Quando eu estou produzindo, eu não me preocupo em o que estou fazendo em termos de desenho. O que me interessa é a questão da cor, da matéria, da transparência, das camadas, o clima que se forma em cada obra”, reflete Paulo Monteiro.
Monteiro explora empiricamente a mecânica de sólidos e fluidos, utilizando as próprias mãos ele lida com os efeitos de diferentes forças, variações de temperatura e a densidade sobre a matéria. Sua busca incessante pela forma o leva a repetições e recriações constantes, resultando em obras que parecem interrompidas, como objetos animados que oscilam entre o humor e a sensualidade. Capturando a densidade do mundo de forma singela e despretensiosa, ele convida à reflexão sobre os aspectos mais profundos da vida cotidiana, revelando que a beleza e a complexidade muitas vezes se escondem em gestos simples. Ao interagir com sua arte, redescobrimos a riqueza das pequenas coisas e somos lembrados das possibilidades da vida que se manifestam em cada forma, camada e nuance ao nosso redor.









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