A gente tem de viver. Para viver, eu tenho de pintar.

(Leonilson)

Leonilson foi um artista da Geração 80. No Brasil, como um pouco por todo o mundo (e em Portugal, em particular), os artistas redescobriam a pintura, redescobriam o prazer de trabalhar sobre suportes diversos e com diferentes materiais. Após duas décadas de um tácito silêncio que se abateu, grosso modo, sobre a arte ocidental, os anos 80 do século XX foram marcados pela emergência de artistas, como o cearense Leonilson, cujas obras apelam à materialidade, à existência plena enquanto forma e conceito, a uma arte corpórea e corporificada. A arte conceptual, mais intelectualizada e, de alguma maneira, menos pessoal ou personificável, é confrontada com o desejo de alguns artistas de falar de si mesmos usando uma forma mais direta – a imagem pictórica ou o desenho, ou a combinação de ambos, sobre suportes convencionais ou não, em obras mais íntimas e também em obras urbanas que se expandiam pelas paredes das grandes cidades do mundo ocidental.

A programática organização dos elementos nas obras, a possibilidade da existência do aleatório na composição, proposta por Donald Judd, considerado o pai do Minimalismo, é substituída por uma escrita pictórica mais pessoal e, nalguns casos, de cunho diarístico. O que pode parecer uma viragem ao “de dentro” é, também, uma viragem ao mundo e às suas vicissitudes – um mundo em ebulição, que andava a passos largos no campo das ideias, mas que ainda se arrastava no momento da ação. Um mundo, aparentemente, só aparentemente, mais aberto às margens e aos que nelas habitam. Sejam as margens do Ocidente, da sociedade ou da dita moral e dos bons costumes. Um pouco por todo o mundo, artistas usam a pintura e o desenho para escrever as suas próprias histórias, para inscrevê-las numa realidade ainda insatisfatória e árida para quem não comungava do ordinário, do padronizado, do neutro ou do habitual.

Leonilson morreu em 1993, como diversos artistas da década de 80 e 90, de SIDA (AIDS, no Brasil), mas a sua obra permaneceu e permanece cada dia mais viva. Desde a década de 90 que são feitas retrospetivas e homenagens ao artista que conheceu o sucesso ainda em vida. Fez parte da chamada Geração 80 da arte brasileira, expôs a solo e com amigos, também artistas que, como ele, celebravam o retorno à pintura e a uma certa joie de vivre. Numa das suas últimas entrevistas, à TV Cultura, Leonilson diz que a sua vida nunca foi um inferno, nem antes nem naquele instante em que ele não sabia se iria viver mais uma semana ou mais alguns anos. A sua obra, mesmo a que faz quando descobre a doença, e que continua a fazer até à morte, não perde o lirismo – mantém-se coerente, mais intensa talvez, mas com a mesma leveza dos seus desenhos e pinturas iniciais. É uma arte paradoxalmente alegre, mesmo quando angustiada.

No documentário de 2012, Sob o peso dos meus amores, dirigido por Carlos Nader na esteira da grande retrospetiva da obra do Leonilson, na Fundação Cultural Itaú, em São Paulo, ouvimos os amigos, teóricos e curadores a falar do artista e do seu trabalho. Sobretudo do seu legado e da consciência que ele tinha sobre aquilo que queria fazer enquanto artista. A sua obra é lírica e poética e é, ao mesmo tempo, muito autoconsciente do papel do artista e da arte e da relação que ambos mantinham com o mundo.

Recentemente, tive o prazer de visitar uma exposição de Leonilson na Desconexo Design, em Fortaleza (Brasil). Com curadoria de Dodora Guimarães, O Menino Leonilson faz um recorte muito particular de uma obra gigantesca e profícua. Somos apresentados a uma parte da obra menos difundida, mas não menos (re)conhecida do artista – pinturas, desenhos e objetos do início dos anos 80. A montagem da exposição evidencia um percurso e também dá a ver a escrita pictórica de Leonilson, as formas que o acompanharam até ao fim, as suas obsessões e permanências, aquilo que o influenciava e apaixonava. Objetos que ele colecionava e que foram plasmados em pinturas ou desenhos estão expostos, lado a lado, como parte de um todo que dialoga constantemente.

Os cartazes, marca registada de Leonilson, estão presentes na parede que abriga um percurso e que conta uma história: a história de um artista que amava a arte e que dizia que era por ela e com ela que saltava no abismo. O menino Leonilson não é uma exposição a mais, dentre tantas da obra do artista, é uma história contada por quem o conhece muito bem e que, por generosidade e também paixão pela arte, partilha connosco o “seu” Leonilson. Uma curadora e um visionário, Dodora Guimarães e o CEO da Desconexo, Pablo Guterres, trazem uma exposição delicada e desafiadora – pelo espaço que ocupa, entre objetos de design. Mas Leonilson não se acanha. Os seus textos e fragmentos, a sua escrita visual, estão em perfeita consonância com os objetos à volta, também eles nada convencionais (o mesmo espaço alberga uma exposição do pioneiro do design modernista no Brasil, Sérgio Rodrigues). A exposição desafia o espectador a descobrir o inusitado, a rever o artista pelos olhos daqueles que conviveram de perto com o artista e/ou com a sua obra e, que por isso, têm uma história para contar.