Na linguagem do Instagram, a hashtag #tbt — sigla para Throwback Thursday ou, em tradução livre, “lembrança de quinta-feira” — é utilizada para legendar imagens que datem de algum momento do passado, seja ele distante ou recente. A exposição toma este deslocamento temporal como mote para reunir obras realizadas entre a década de 80 e o início dos anos 2000, todas elas anteriores ao surgimento do Instagram e, em muitos casos, anteriores à própria Internet.
Se a era digital tem influenciado diretamente a forma como nos relacionamos com a arte, o impulso de lançar um olhar retroativo sobre determinadas produções artísticas nos possibilita abrir diferentes (e improváveis) chaves de leitura. Investigar o limiar do desenvolvimento do vocabulário de um artista revela-se uma experiência curiosa: ora nos deparamos com questões e elementos que pouco modificaram-se com o tempo, sempre estiveram ali; ora nos surpreendemos com a mudança de rumo de tal trajetória, identificando rupturas de linguagem ou alterações significativas na escolha de suportes, temáticas e afins.
Entre os trabalhos mais antigos da mostra, estão algumas das primeiras obras de artistas ligados à célebre Geração 80. Das pinturas figurativas de Adriana Varejão e Luiz Zerbini aos experimentos escultóricos de Barrão, Carlos Bevilacqua e Ernesto Neto, passando pelo flerte entre pintura e objeto nas obras de Beatriz Milhazes e Leda Catunda.
Do grupo de trabalhos da década de 90, Jac Leirner e Janaina Tschäpe parecem comungar em método ao apostarem no rigor da repetição. Leirner e seu acúmulo sistemático de pequenas folhas de papel branco transmudadas em um Fantasma; Tschäpe e sua série de fotografias em que simula “pequenas mortes” (ou orgasmos, considerando o significado da expressão francesa la petite mort) em diferentes lugares do planeta. No mesmo espaço expositivo, Iran do Espírito Santo revisita as moedas que integravam sua instalação para o Pavilhão Brasileiro na Bienal de Veneza de 1999, enquanto na sala da frente uma escultura da série Intimates, de Valeska Soares, ganha o espaço suspensa por longos fios de cobre.
Entre aqueles realizados no início dos anos 2000, estão as aquarelas de Efrain Almeida e as pequenas pinturas de Erika Verzutti e Lucia Laguna. Essas obras guardam elementos que aparecerão mais tarde em outras mídias e formatos, seja nas pinturas maiores de Laguna ou na vasta produção escultórica de Verzutti e Almeida. Completando o conjunto, uma foto de Mauro Restiffe repousa sobre a mesa da entrada da Carpintaria, parte da emblemática série que registra a posse do ex-presidente Lula em seu primeiro mandato, em 2003.
Tomando emprestada a mecânica do feed da rede social, a exposição se renovará com a saída e a entrada de novas obras em determinadas quintas-feiras, ao longo de sua duração. Além do desenho atual, a mostra incluirá ainda a participação de artistas como Nuno Ramos, Rivane Neuenschwander, Sara Ramo e mais.
Se a arte vive hoje uma espécie de “crise de presença”, parecendo muitas vezes fadada a servir apenas como pano de fundo para selfies nas redes, o ímpeto de olhar para trás – sob a ótica do presente – revela-se um exercício imprescindível, fundamental. Afinal, não há amanhã sem ontem, ou, nas palavras do teórico canadense Marshall McLuhan: “olhamos o presente através de um espelho retrovisor, marchamos de costas em direção ao futuro”.*













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