Para falar de Frans Krajcberg e sua obra faz-se necessário observar as últimas transformações dos séculos XX e XXI, assinalam o protagonismo do sistema capitalista mundial nas agressões ao meio ambiente. Essas transformações não debilitaram a essência do modo de produção humana. Na verdade, reforçaramna, uma vez que se acentuou se acentuou a centralidade do ser humano nesse processo. Os efeitos se observam na organização da sociedade contemporânea, nos métodos de produção, na política financeira dos governos, nas relações de trabalho, e principalmente nas relações da sociedade com a sustentabilidade. Se a arte é fundamentada na liberdade, essa homenagem à Krajcberg, se faz sentir fortemente no âmbito da produção artística contemporânea, e seus efeitos são marcantes no que concerne a produção cultural, e, claro, no debate permanente sobre a preservação do meio ambiente.
Neste conjunto de obras reunidas pela primeira vez e exibidas na Galeria Frente, procurou-se trazer ao público exemplares que retratam a pesquisa e luta permanente de Krajcberg, e demonstrar que eles mantêm entre si uma relação bastante intensa, estando permanentemente sujeitos a novas leituras, e que o processo de integração de uma poética se dá lentamente e depende de códigos preestabelecidos. Neste universo artístico, que reúne desenhos, pinturas, esculturas, se apresenta um artista, livre e independente dos critérios de prestígio que, na ordem do simbólico, regem o meio artístico e cultural.
Obrigatoriamente, este artista contesta a barbárie do homem sobre a natureza, através de sua obra se apropria de novos valores. Cria utilizando resíduos da floresta atacada. É seu instrumento para provocar a luta simbólica entre os agrupamentos sociais, o poder de consolidação do “bom gosto”, da vida cotidiana, e do meio ambiente. Certamente aproximar-se das obras de Frans Krajcberg, nos limites do campo da arte, requer conhecer as estruturas de dominação e comprová-las na materialização de obras impactantes, onde criador e criatura estão unidos de forma visceral.
A obra de Frans Krajcberg, supera o espaço restrito do mercado onde já é artista consagrado, mas reage por estar cercado de trocas desiguais, com disputas em torno da arte. É, em sua essência, a materialização através da arte da luta permanente pelo futuro do planeta. Trata-se de uma lógica interna, com limites e forças diversas, sendo que seu modo de produção poética se dá a partir de um conjunto de relações marcadas por sua história de vida: sua participação na Segunda Guerra Mundial, quando integrou o exército polonês em 1941, a perda de seus familiares na Polônia, e suas experiências em Paris com Fernand Léger e Marc Chagall, que o incentivará a vir ao Brasil, onde esperava viver em um ambiente natural, longe dos horrores produzidos pelos homens.
Ao chegar no Rio de Janeiro, em 1948, permanece por poucos dias sem acomodação, e então parte para São Paulo onde viria a ter contato com Lasar Segall, amigo que o indicará para trabalhar nas Indústrias de Papel Klabin no interior do Paraná. Em 1950, deixa o emprego e decide pela vida solitária, embrenha-se nas matas, passa a pintar e desenhar com pigmentos que extrai da natureza.
É premiado como melhor pintor na IV Bienal de Arte de São Paulo em 1957, e a partir de então passa a circular entre o Brasil, França e Espanha. Em 1964, recebe o Prêmio Cidade de Veneza. Após muitos anos em trânsito, Frans Krajcberg, em 1972, retorna ao Brasil e fixa residência em Nova Viçosa, no sul da Bahia, onde vive até hoje.
No entanto, este artista não é um mero contestador. Decidiu dedicar sua vida em prol do futuro de todos. Não como recusa do mundo, em que o estilo de vida do artista representa o distanciamento, mas sim como um ser humano que luta por sensibilizar a todos de que não há mais tempo a perder.
Esta homenagem não pretende debater sobre a trajetória de um artista, cuja importância e singularidade já são reconhecidos, mas sim demonstrar a transversalidade dada pela arte nas relações da sociedade com o meio ambiente, tema de fundamental importância nas relações entre humanos e não humanos, e que determinará o futuro do planeta.









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