Luiz Zerbini retorna a Săo Paulo para apresentar Natureza Espiritual da Realidade, sua nova exposiçăo no Galpăo Fortes Vilaça. Através de uma grande instalaçăo e de oito pinturas de grande e médio formato, o artista explora justaposiçőes entre figuraçăo e geometria, natureza e arquitetura. Essas temáticas, frequentes em sua trajetória, săo apresentadas com uma complexidade inédita.
Em sua pintura, Zerbini parte de imagens fotográficas e as sobrepőe a outros elementos abstratos em uma complexa trama onde figura e fundo se confundem. O modo nao-hierárquico como esses elementos săo arranjados segue uma lógica interna do processo, em que uma imagem pede por outra sucessivamente, até que a composiçăo se complete. Em Ilha da Maré, essa trama inclui um palco precário com uma galinha, caixas de som, siris, ladrilhos e, finalmente, o mar − ou sua visăo particular da água do mar, que permeia ainda outros trabalhos da exposiçăo. Buraco retrata uma caixa com padrőes geométricos distintos que é encoberta pela maré. Uma Onda de aspecto ameaçador invade a maior pintura da exposiçăo, recortada por distúrbios que imprimem ainda mais velocidade ŕ imagem. Em Cachoeira, faixas de cor cruzam a tela e săo interrompidas por fragmentos de galhos e pedras, mesclando figuraçăo e geometria de maneira ainda mais complexa.
Os trabalhos geométricos da mostra também estăo associados ŕ figuraçăo. Algumas obras partem de uma imagem e se tornam totalmente abstratas; outras ganham referęncias a lugares e objetos em seus títulos. Efeitos óticos norteiam essas pinturas, assim como as experimentaçőes com cor. Em Serra do Luar, uma grade prateada de losangos é sobreposta a outra de quadrados, com intrincado esquema de cores e degradęs. Em Ultramarine, um azul denso e opaco contrasta com as faixas de cores metálicas luminosas em primeiro plano. Os pequenos quadrados coloridos de Chuvisco, por sua vez, confundem o foco da visăo e provocam a sensaçăo de miopia.
Natureza Espiritual da Realidade − trabalho que dá nome a exposiçăo − é uma instalaçăo composta por dez mesas de madeira, configuradas como vitrines museológicas. O trabalho ganhou sua primeira forma em 2012 quando Zerbini o incluiu na mostra Amor no MAM Rio e, em 2014, recebeu nova composiçăo em Pinturas na Casa Daros, também no Rio de Janeiro. A cada exposiçăo a ordenaçăo das mesas e de seus elementos é alterada, dando ao trabalho um dinamismo constante. Divididas em quadrados, as mesas incluem objetos curiosos recolhidos pelo artista, achados a esmo em viagens ou colecionados por razőes pessoais. Conchas, pedras, tijolos, ladrilhos, troncos, plantas, redes de pesca e até mesmo uma nota de dez reais se organizam ora como naturezas mortas, ora como composiçőes abstratas. O tampo de vidro também recebe interferęncias do artista com grafismos e gelatina colorida, causando alteraçőes na incidęncia de cor e luz sobre os elementos.
Ao estabelecer um diálogo direto com as obras na parede, a instalaçăo pode ser lida como a organizaçăo sistemática das referęncias presentes nas pinturas − um inventário do universo particular do artista. No entanto, é possível também fazer o raciocínio inverso e entende - la como uma traduçăo tridimensional do processo pictórico de Zerbini − em especial o modo como organiza elementos tăo díspares através de cor e geometria. Natureza Espiritual da Realidade é, portanto, ponto de partida da sua pesquisa, mas ao mesmo tempo o campo de atraçăo de todo o seu trabalho, para o qual todas as coisas parecem convergir.
Luiz Zerbini nasceu em 1959, em Săo Paulo, mas vive e trabalha no Rio de Janeiro desde 1982. Sua obra foi tema de grandes exposiçőes individuais nos últimos anos, entre as quais: Pinturas, Casa Daros (Rio de Janeiro, 2014); amor lugar comum, Inhotim (Brumadinho, 2013); Amor, MAM (Rio de Janeiro, 2012). Sua obra está presente em diversas coleçőes públicas, entre as quais: Inhotim Centro de Arte Contemporânea (Brumadinho); Instituto Itaú Cultural (Săo Paulo); Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro; e Museu de Arte Moderna de Săo Paulo. Paralelamente, Zerbini ainda integra desde 1995 o coletivo Chelpa Ferro, com Barrăo e Sérgio Mekler, que explora as relaçőes entre as artes visuais e a música.









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